Perseguições às Escrituras e a Formação do Cânon Cristão.
Perseguições às Escrituras e a Formação do Cânon Cristão.
Por Pr.Kleiton Fonseca
Introdução
A história das Escrituras Sagradas está profundamente ligada à história da perseguição da Igreja cristã. Desde o século I até o início do século IV, o cristianismo enfrentou sucessivas ondas de repressão política, religiosa e cultural. Não apenas os cristãos eram perseguidos, mas também os próprios escritos sagrados, considerados perigosos pelo Império Romano.
Apesar disso, o Novo Testamento não apenas sobreviveu, como foi amplamente reconhecido, preservado e aceito pela Igreja muito antes de qualquer concílio tardio, incluindo o Concílio de Trento, realizado apenas no século XVI.
1. A Perseguição sob Nero (64 d.C.)
A primeira grande perseguição oficial aos cristãos ocorreu durante o reinado do imperador Nero (54–68 d.C.), após o grande incêndio de Roma em 64 d.C.
Segundo o historiador romano Tácito, Nero acusou os cristãos de incendiarem a cidade para desviar de si a culpa:
“Nero atribuiu a culpa e infligiu as mais refinadas torturas a uma classe odiada por suas abominações, chamados cristãos.”
(Anais, XV.44)
Embora o foco inicial fosse a punição física, já nesse período os escritos apostólicos começavam a circular, e a perseguição visava suprimir a fé em sua totalidade, inclusive seus textos.
2. Perseguições dos Séculos II e III: A Palavra como Alvo
Perseguição sob Trajano (98–117 d.C.)
Durante o reinado de Trajano, o cristianismo foi considerado uma religio illicita. A famosa correspondência entre Plínio, o Jovem, e Trajano (c. 112 d.C.) revela que cristãos eram executados por se recusarem a negar Cristo e que seus encontros, leituras e cânticos eram vistos como subversivos.
Isso indica que as Escrituras já eram lidas publicamente, o que as tornava alvo indireto da repressão imperial.
Perseguições sob Marco Aurélio (161–180 d.C.)
Sob Marco Aurélio, cristãos foram acusados de ateísmo (por rejeitarem os deuses romanos). Escritos cristãos eram considerados perigosos por sustentarem uma fé exclusiva.
Justino Mártir, morto por volta de 165 d.C., cita amplamente os Evangelhos e cartas apostólicas, demonstrando que o cânon funcional já estava estabelecido em sua época.
3. A Grande Perseguição de Diocleciano (303–311 d.C.)
A mais violenta e sistemática perseguição às Escrituras ocorreu sob o imperador Diocleciano.
Em 303 d.C., foram emitidos éditos que ordenavam:
A destruição de igrejas
A queima pública das Escrituras cristãs
A prisão de líderes que se recusassem a entregar os textos sagrados
O historiador da Igreja Eusébio de Cesareia relata:
“Víamos com nossos próprios olhos as Escrituras divinas sendo lançadas ao fogo em praças públicas.”
(História Eclesiástica, VIII.2)
Essa perseguição revela algo crucial: os romanos sabiam exatamente quais livros eram considerados Escritura pelos cristãos. Não havia confusão canônica significativa; os textos reconhecidos eram bem definidos.
4. O Cânon do Novo Testamento Antes dos Concílios
Muito antes de qualquer definição conciliar formal, a Igreja já reconhecia os livros que hoje compõem o Novo Testamento.
Evidências anteriores ao século IV:
Marcião (c. 140 d.C.) tentou alterar o cânon, o que prova que já existia um corpo reconhecido de Escrituras
Irineu de Lyon (c. 180 d.C.) afirma explicitamente a autoridade dos quatro Evangelhos
O Fragmento Muratoriano (c. 170–200 d.C.) lista a maioria dos livros do Novo Testamento atual
Esses testemunhos demonstram que o cânon não foi criado por concílios, mas reconhecido a partir do uso contínuo e apostólico.
5. Os Concílios Antigos e o Concílio de Trento (1545–1563): Um Reconhecimento Gradual do Cânon
É fundamental compreender que o reconhecimento do cânon bíblico foi um processo gradual, ocorrido muito antes do Concílio de Trento. A Igreja primitiva não “criou” o cânon, mas reconheceu progressivamente os livros que já eram amplamente usados, lidos publicamente e recebidos como inspirados.
Os Concílios de Hipona (393) e Cartago (397 e 419)
Os Concílios regionais de Hipona (393 d.C.) e Cartago (397 e 419 d.C.) tiveram papel importante nesse processo de reconhecimento. Eles confirmaram oficialmente aquilo que já era prática comum nas igrejas:
Os 27 livros do Novo Testamento que possuímos hoje
Os livros do Antigo Testamento conforme o uso predominante na Igreja latina
Esses concílios não atribuíram inspiração nova aos livros, mas reconheceram formalmente o uso contínuo e apostólico das Escrituras. É importante destacar que esses concílios não tinham autoridade ecumênica universal, mas refletiam o consenso já existente.
Os Deuterocanônicos: Uso Histórico, Não Inspiração
Os chamados livros deuterocanônicos (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, 1–2 Macabeus e acréscimos a Ester e Daniel) não eram considerados inspirados no mesmo nível das Escrituras hebraicas e apostólicas.
Historicamente:
Eram utilizados como leitura edificante e histórica
Não eram empregados para estabelecer doutrina
Não eram reconhecidos pelo cânon hebraico
Foram rejeitados como inspirados por muitos Pais da Igreja, como Jerônimo, tradutor da Vulgata
O próprio Jerônimo afirmou claramente que esses livros eram úteis para edificação, mas não para confirmar doutrina da fé.
O Concílio de Trento e a Contra-Reforma
O Concílio de Trento (1545–1563) ocorreu em um contexto específico: a Contra-Reforma, como resposta direta ao avanço da Reforma Protestante.
Inicialmente, a Igreja Romana reafirma o cânon tradicionalmente usado na Igreja latina, mas em 1546, pela primeira vez na história, define dogmaticamente os livros deuterocanônicos como inspirados, colocando-os no mesmo nível dos livros canônicos reconhecidos desde a antiguidade.
Essa decisão:
Não refletiu o consenso da Igreja primitiva
Contrariou a posição de diversos Pais da Igreja
Teve caráter reacional e apologético, visando criar uma distinção clara em relação à Reforma, que defendia o cânon hebraico do Antigo Testamento e os 27 livros do Novo Testamento
Assim, foi na Contra-Reforma, e não na Igreja antiga, que ocorreu a elevação dogmática dos deuterocanônicos ao status de Escritura inspirada, algo inexistente nos primeiros séculos do cristianismo.
Nota Explicativa: O Equívoco sobre o Concílio de Niceia e a “Criação” da Bíblia
É comum encontrar a afirmação de que o Concílio de Niceia (325 d.C.) teria “criado a Bíblia” ou definido quais livros fariam parte do cânon. Essa ideia, porém, é historicamente incorreta.
O Concílio de Niceia foi convocado pelo imperador Constantino com o objetivo principal de resolver controvérsias cristológicas, especialmente a heresia ariana, e afirmar a divindade de Cristo. O concílio resultou na formulação do Credo Niceno, mas não tratou da definição do cânon bíblico.
Não há:
Atas conciliares
Cânones oficiais
Registros patrísticos confiáveis
que indiquem qualquer deliberação sobre quais livros deveriam compor a Bíblia nesse concílio.
À época de Niceia, os Evangelhos, as cartas apostólicas e outros escritos do Novo Testamento já eram amplamente lidos, copiados e reconhecidos nas igrejas, especialmente nos séculos I e II. O que ocorreu nos séculos seguintes foi um processo de reconhecimento formal daquilo que já era aceito e utilizado na prática da fé cristã.
Portanto, o Concílio de Niceia não criou a Bíblia, mas ocorreu dentro de uma igreja que já possuía as Escrituras e as reconhecia como autoridade divina.
6. As Escrituras Já Estavam Formadas e Aceitas nos Séculos I e II
Mesmo sob perseguição intensa:
Os cristãos copiavam manuscritos à mão
Arriscavam a vida para preservá-los
Memorizaram grandes porções do texto
A aceitação do cânon não foi imposta por poder político, mas confirmada pelo uso contínuo da Igreja, sob sofrimento e fidelidade.
Como bem observou F. F. Bruce:
“O que chamamos de cânon foi, na verdade, reconhecido pela Igreja, não criado por ela.”
Conclusão
Da perseguição de Nero (64 d.C.) à fúria destrutiva de Diocleciano (303–311 d.C.), a história mostra que as Escrituras foram perseguidas porque já eram reconhecidas como autoridade suprema da fé cristã.
Séculos antes do Concílio de Trento, antes das grandes edições impressas e antes do Textus Receptus, a Palavra de Deus já estava viva, formada e recebida pela Igreja.
A Bíblia não sobreviveu apesar da perseguição — ela avançou através dela.
Fontes Históricas
TÁCITO. Anais, XV.44
EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica
PLÍNIO, O JOVEM. Cartas, X.96
IRINEU DE LYON. Contra as Heresias
BRUCE, F. F. The Canon of Scripture
Postado no blogger por:
PR. Kleiton Fonseca
Instituto de Teologia John Wycliffe — Pesquisador
São Bernardo do Campo – São Paulo, Brasil
📧 kleitonfonseca10@gmail.com
🔗 ORCID: https://orcid.org/0009-0006-3665-5924



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