As Escrituras Antes do Textus Receptus: A Igreja Ortodoxa, o Texto Bizantino e a Preservação do Novo Testamento
As Escrituras Antes do Textus Receptus:
A Igreja Ortodoxa, o Texto Bizantino e a Preservação do Novo Testamento
Por Kleiton Fonseca
Introdução
Ao estudar a história do texto bíblico antes da consolidação do Textus Receptus, é essencial compreender o papel da Igreja Ortodoxa Oriental na preservação e transmissão das Escrituras. Diferentemente de narrativas simplistas que atribuem a formação do texto bíblico a eventos isolados ou a decisões imperiais, a história revela um processo contínuo, orgânico e eclesial, no qual a Ortodoxia exerceu influência significativa, especialmente no mundo grego e bizantino.
Este artigo tem como objetivo esclarecer qual texto bíblico foi preservado pela Igreja Ortodoxa, como ele se relaciona com o Textus Receptus e por que essa tradição é crucial para entendermos a história do Novo Testamento antes da era da imprensa.
1. Quem é a Igreja Ortodoxa Oriental?
A Igreja Ortodoxa Oriental se compreende como a continuidade histórica da Igreja cristã primitiva no Oriente. O termo ortodoxia deriva do grego orthós (correto) e dóxa (doutrina ou adoração), significando “fé correta” ou “adoração correta”.
Historicamente, a Ortodoxia floresceu no contexto do Império Bizantino, especialmente após a transferência da capital imperial para Constantinopla (330 d.C.). Nesse ambiente, o cristianismo foi profundamente moldado por:
uso constante das Escrituras em língua grega.
Essa continuidade teve impacto direto na transmissão do texto bíblico.
2. O Texto Bíblico Usado pela Igreja Ortodoxa
2.1 O Texto Patriarcal
A Igreja Ortodoxa utiliza oficialmente uma forma do Novo Testamento conhecida como Texto Patriarcal Grego, publicada em 1904 sob a autoridade do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.
Esse texto não surgiu como uma inovação moderna, mas como uma padronização litúrgica do texto bizantino, que já era amplamente utilizado nas igrejas do Oriente havia séculos.
2.2 Relação com o Texto Bizantino
O Texto Bizantino é o tipo textual mais numeroso entre os manuscritos gregos existentes. Ele predominou:
do século IV em diante,
nas igrejas do Oriente,
na tradição litúrgica contínua.
É exatamente essa tradição bizantina que serviu como base majoritária para as edições impressas do Novo Testamento durante a Reforma, culminando no Textus Receptus.
Assim, o texto usado pela Igreja Ortodoxa e o texto que influenciou o Textus Receptus pertencem à mesma família textual.
3. A Igreja Ortodoxa “Criou” o Textus Receptus?
Não.
É fundamental esclarecer esse ponto para evitar anacronismos históricos.
O Textus Receptus é um produto da era da imprensa (séculos XVI–XVII).
A Igreja Ortodoxa nunca produziu uma edição impressa chamada “Textus Receptus”.
Contudo, preservou durante séculos o mesmo tipo textual que serviu de base para ele.
Em outras palavras, o Textus Receptus não surgiu do nada: ele reflete uma tradição textual viva, especialmente preservada no Oriente cristão.
4. O Comma Johanneum e a Tradição Ortodoxa
Um ponto frequentemente discutido é a presença do Comma Johanneum (1 João 5:7–8) em algumas tradições textuais.
Essa leitura aparece em edições do Textus Receptus.
Também consta no Texto Patriarcal Ortodoxo.
No entanto, não está presente nos manuscritos gregos mais antigos conhecidos, sendo provavelmente fruto de tradição litúrgica e transmissão posterior.
Isso demonstra que:
a Ortodoxia não operava com critérios de crítica textual moderna,
o texto bíblico era preservado no contexto do culto, da leitura pública e da tradição eclesial.
5. Escritura, Tradição e Autoridade na Ortodoxia
Diferente da abordagem reformada clássica (Sola Scriptura), a Igreja Ortodoxa entende a Escritura:
em unidade com a tradição apostólica,
interpretada à luz dos Pais da Igreja,
vivida na liturgia.
Contudo, isso não significa ausência de texto definido, mas sim que o texto bíblico foi preservado como parte da vida da Igreja, e não como um documento isolado.
Esse fator explica por que o texto bizantino permaneceu notavelmente estável ao longo dos séculos.
6. A Importância da Ortodoxia para a História do Texto Bíblico
Antes do Textus Receptus:
o cristianismo oriental já possuía um texto amplamente reconhecido,
usado liturgicamente,
transmitido por milhares de manuscritos.
Isso enfraquece a ideia de que:
o texto bíblico foi “inventado” na Idade Média,
ou que sua forma atual dependeu de concílios tardios ou decisões políticas.
Ao contrário, a evidência histórica aponta para uma preservação providencial e contínua.
Conclusão
O estudo da Igreja Ortodoxa revela que muito antes do Textus Receptus:
as Escrituras já estavam amplamente estabelecidas,
o texto bizantino já era dominante,
e a Igreja preservava fielmente o Novo Testamento em grego.
O Textus Receptus, longe de ser uma inovação isolada, é fruto dessa longa tradição textual. Entender a Ortodoxia é, portanto, essencial para compreender como Deus preservou Sua Palavra ao longo da história, antes mesmo da Reforma e da imprensa.
Postado no blogger por:
PR. Kleiton Fonseca
Instituto de Teologia John Wycliffe — Pesquisador
São Bernardo do Campo – São Paulo, Brasil
📧 kleitonfonseca10@gmail.com
🔗 ORCID: https://orcid.org/0009-0006-3665-5924
Autor: Pr. Kleiton Fonseca



Comentários
Enviar um comentário