A História do Textus Receptus

Este artigo consiste em tradução livre e adaptação teológica do material originalmente publicado em inglês no site Textus Receptus Bibles 

Há uma grande quantidade de desinformação a respeito das origens do Textus Receptus. Isso é especialmente verdadeiro quanto à maneira como Desidério Erasmo nos deu o seu Novo Testamento Grego original, publicado em 1516. Foi essa obra que posteriormente se tornou o fundamento do Textus Receptus.

Erasmo não inventou o Textus Receptus, mas simplesmente reuniu uma coleção daquilo que já constituía a vasta maioria dos manuscritos do Novo Testamento na tradição bizantina. O primeiro Novo Testamento Grego a ser coligido foi a Poliglota Complutense, em 1514, mas ela só foi publicada oito anos depois. A obra de Erasmo foi o segundo Novo Testamento Grego a ser impresso e publicado, em 1516.

Mais de meia dúzia de manuscritos

O fato de Erasmo ter tido apenas um punhado de manuscritos durante a preparação da edição de 1516 é irrelevante no que diz respeito à confiabilidade do texto subjacente ao seu trabalho. Em primeiro lugar, nenhum estudioso contesta que Erasmo havia estudado leituras variantes do Novo Testamento ao longo de toda a sua vida antes de publicar o Textus Receptus. Na verdade, o estudo das variantes do Novo Testamento Grego não começou com Erasmo, mas com estudiosos como Thomas Linacre (1460–1524) e John Colet (1467–1519), e até mesmo com Jerônimo (347–420).

Embora Erasmo tenha passado apenas dois anos diante de alguns poucos manuscritos gregos para compor sua primeira edição, seu conhecimento acerca do Novo Testamento Grego e de suas variantes não se originou exclusivamente da consulta a esses poucos manuscritos durante esse período de dois anos.

Frederick Nolan

Frederick Nolan, escrevendo em 1815, afirma que, além dos manuscritos que Erasmo possuía ou havia visto pessoalmente, ele reuniu leituras provenientes de várias nações europeias por meio de suas amplas amizades em universidades, bibliotecas e mosteiros. Nolan observa: “Tenho um quarto cheio de cartas de homens eruditos...”. “Descobrimos, pelas datas de suas cartas, que ele se correspondia longa e detalhadamente com os homens instruídos de seu tempo sobre pontos técnicos de erudição e crítica bíblica...” (Froude, The Life and Letters, pp. 377, 394).

Os críticos também são rápidos em apontar que Erasmo fez uma retradução para o grego dos últimos seis versículos do Apocalipse em sua edição de 1516. Contudo, apesar dessa acusação, vemos que Erasmo incluiu em Apocalipse 22:20 uma leitura que existe no grego e não aparece em nenhuma edição da Vulgata (isto é, “αμην ναι ερχου (Amém. Sim, vem)” em vez de “amen veni (Amém. Vem)”). Essa é uma evidência de que Erasmo não estava limitado às leituras contidas apenas nos poucos manuscritos que lhe foram apresentados durante a edição de 1516. No mínimo, Erasmo consultou anotações como as de Laurentius Valla.

Quanto às supostas “centenas incontáveis de erros de impressão” na primeira edição de Erasmo, eles foram corrigidos nas edições posteriores do Textus Receptus pelo próprio Erasmo e jamais chegaram a outras Bíblias.

Deus usou apenas poucos manuscritos para preservar Suas palavras

Há um problema teológico em depreciar o Textus Receptus com base no argumento de que sua edição original descende de apenas alguns manuscritos. Nossa teoria de crítica textual deve ser baseada no que a Bíblia diz sobre a transmissão textual, e não nas filosofias de teólogos liberais. A Bíblia deixa claro que Deus pode usar apenas um pequeno número de manuscritos para preservar Suas palavras.

A Bíblia descreve um tempo em que Hilquias, o sumo sacerdote, encontrou o “livro da lei” (2 Reis 22:8) ou o “livro da aliança” (2 Reis 23:2) na casa do SENHOR, durante o reinado de Josias. O livro da lei — fosse ele apenas os cinco livros de Moisés ou uma coleção de todos os livros bíblicos escritos até então — precisou ser redescoberto durante o reinado de Josias porque as gerações ímpias anteriores, sob Manassés e Amom, aparentemente haviam erradicado o livro da lei da terra. Essa erradicação foi tão ampla que nem mesmo o sumo sacerdote o possuía até descobri-lo no templo.

Esse livro encontrado por Hilquias tornou-se a cópia ancestral de todos os manuscritos hebraicos que existem hoje. Pode-se especular que Hilquias tenha encontrado outros manuscritos em outros lugares ao longo do tempo, mas isso seria apenas especulação, pois a Bíblia não afirma tal coisa. A Escritura apresenta claramente essa única cópia encontrada no templo como o único catalisador do grande avivamento espiritual nos dias de Josias e da redescoberta das palavras de Deus para as gerações subsequentes.

Esdras, descendente direto de Hilquias (Esdras 7:1), canonizou o Antigo Testamento e o transmitiu às gerações futuras. O Antigo Testamento de Esdras certamente se baseou na cópia encontrada por Hilquias no templo. As leituras dessa cópia acabaram divergindo nas várias tradições do Antigo Testamento existentes hoje, como o Texto Massorético, os Manuscritos do Mar Morto, o Pentateuco Samaritano e a Septuaginta (LXX).

Quer Hilquias ou Esdras tenham encontrado outros manuscritos além daquele achado no templo durante o reinado de Josias, a Bíblia é clara ao afirmar que o número de manuscritos não importa, desde que Deus, em Sua providência, forneça os manuscritos para um tempo de avivamento espiritual. O rei Josias viu a mão de Deus na preservação dessa única cópia e nunca duvidou de sua autenticidade ou integridade. Ele fez com que as palavras dessa única cópia fossem lidas ao povo (2 Reis 23:2).

Há um forte paralelo entre Hilquias e Desidério Erasmo, o originador do Textus Receptus. Ambos eram homens de grande reputação e posição. Ambos permaneceram retos enquanto seus contemporâneos eram apóstatas. Ambos fizeram com que as palavras de Deus fossem publicadas após um período de trevas espirituais. Ambos foram catalisadores de um grande despertar espiritual. O Textus Receptus foi para a Reforma o que a descoberta de Hilquias foi para o avivamento nos dias de Josias.

Os críticos textuais modernos precisam aprender o que a Bíblia diz sobre a transmissão textual. Se Deus deseja que Suas palavras sejam publicadas para um tempo de despertar espiritual, Ele pode fazê-lo até mesmo por meio de um único manuscrito.

As edições do Textus Receptus

Erasmo foi o autor de cinco edições publicadas entre 1516 e 1535, sendo a edição de 1516 o primeiro Textus Receptus.

Novum Instrumentum um

 

Novum Instrumentum omne

Houve aproximadamente trinta edições distintas do Textus Receptus ao longo dos anos. Cada uma difere muito levemente das outras. Já houve mais de 500 impressões. Essas variações incluem ortografia, acentos e espíritos, ordem das palavras e outras diferenças menores. As edições de Stephanus, Beza e dos Elzevir apresentam substancialmente o mesmo texto, e as variações não são de grande significado, raramente afetando o contexto.

A terceira edição do Textus Receptus de Stephanus (1550) tornou-se a forma padrão do texto grego do Novo Testamento na Inglaterra. Teodoro Beza publicou quatro edições independentes entre 1565 e 1604. Seu texto foi essencialmente uma reimpressão da terceira edição de Stephanus (1550), com pequenas alterações. O texto de Stephanus de 1550, conforme apresentado na edição de Beza de 1598, foi a principal fonte para os tradutores da Bíblia King James de 1611.

Os irmãos Elzevir imprimiram sete edições do Novo Testamento Grego entre 1624 e 1678. Diferentemente das edições de Erasmo, Stephanus e Beza, os Elzevir não foram os editores das edições atribuídas a eles, mas apenas os impressores. Os irmãos Elzevir (1633) fizeram outra reimpressão do texto de Stephanus de 1550, que se tornou o texto mais popular no continente europeu.

Há aproximadamente 93 diferenças entre o Stephanus 1550 e o Beza 1598. Essas diferenças são pequenas e tornam-se insignificantes quando comparadas às aproximadamente 6.000 diferenças (muitas delas bastante substanciais) entre o Texto Crítico Alexandrino e o Textus Receptus.

Este artigo consiste em tradução livre e adaptação teológica do material originalmente publicado em inglês no site Textus Receptus Bibles

Referência:
TEXTUS RECEPTUS BIBLES. The History of the Textus Receptus. Disponível em: https://www.textusreceptusbibles.com/History. Acesso em: //_____. 

 

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PR. Kleiton Fonseca
Instituto de Teologia John Wycliffe — Pesquisador
São Bernardo do CampoSão Paulo, Brasil
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📅 Publicado em: 2025 

 

 

 

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Tradução, adaptação e edição: Pr. Kleiton Fonseca
Instituto de Teologia Reformada John Wycliffe 

 

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