A PRIORIDADE DO LÍDER ECLESIÁSTICO
A PRIORIDADE DO LÍDER ECLESIÁSTICO
LEANDRO LIMA
2Timóteo 2.14-26
Introdução
Nossa relevância diante do mundo depende grandemente da concentração da nossa
força naquilo que realmente importa. Temos uma tarefa urgente para realizar e não podemos
perder tempo. Por isso, precisamos saber escolher as batalhas.
Nem todas as guerras podem ser guerreadas. Ninguém consegue atender várias
frentes de combate ao mesmo tempo. Por isso, escolher as batalhas é uma boa tática de
guerra. O fato é que muitos cristãos são excessivamente belicosos. Eles estão sempre atirando
para todo lado e nunca têm um alvo bem definido. Se tornam excessivamente pessimistas e
críticos de tudo. Há um risco muito grande quando nos tornamos excessivamente críticos, pois
sem perceber, podemos adotar uma postura de crítica em relação ao próprio Deus.
O maior risco quando nos tornamos excessivamente belicosos é justamente de gastar
muito tempo em batalhas desnecessárias e, deixar de lado, aquilo que realmente importa.
Um dos conselhos mais impressionantes que Paulo deu a Timóteo foi para ele se
afastar de certas discussões que ele chama de inúteis e se concentrar no que realmente
importava. O conselho de Paulo é muito direto: “evitem contendas de palavras que para nada
aproveitam, exceto para a subversão dos ouvintes” (2Tm 2.14). Muitos cristãos parecem ter
fascinação por entrar em discussões. Nunca perdem um debate. São sempre tão cheios de
argumentos e têm opinião sobre todos os assuntos. Eles sempre querem ter a palavra final em
qualquer situação. Porém, gastam muito tempo discutindo assuntos inúteis e aquilo que
realmente deveria ocupar a sua atenção, acaba ficando para depois.
Ao longo da história, a igreja já perdeu muito tempo discutindo a respeito de coisas
sem importância. Achamos engraçado hoje, quando ouvimos falar que, na Idade Média, os
teólogos gastavam muito tempo discutindo a respeito de assuntos como: quantos anjos
podiam dançar em cima de uma agulha, ou qual era o sexo dos anjos. Mas há um risco de
também estarmos gastando muito tempo discutindo assuntos secundários enquanto a tarefa
principal permanece negligenciada.
O que eu estou querendo dizer é que há um risco de ficarmos tão preocupados com o
que está errado que simplesmente nos esquecemos de fazer o que está certo. Timóteo
poderia ficar tão preocupado em combater os falsos mestres, em tentar encontrar as falhas da
argumentação deles e desmascará-los, que ao final, tivesse se esquecido de ele próprio fazer a
coisa certa.
Paulo, em toda a sua experiência de disputa com os falsos mestres, orienta seu jovem
discípulo e sucessor Timóteo a não dar corda demais para eles. Até porque, isso poderia ser
uma propaganda gratuita para eles. Entrar nas suas discussões traria pouco proveito para a
obra de Deus. Então, Paulo manda Timóteo se concentrar no que realmente importa. E nesse
texto, são três coisas: Manejar bem a palavra, se afastar das paixões destruidoras e preocupar-
se com os perdidos.
I. Manejar bem a Palavra de Deus
Paulo estava preocupado com Timóteo. Ele tinha muito trabalho pela frente e não
podia perder tempo com discussões vazias. Paulo não era o tipo de homem que entrava numa
discussão pelo simples prazer de discutir. Não o vemos em seu ministério discutindo sobre
muitos assuntos. Ele só entrava em discussão quando percebia que a integridade do Evangelho
estava em risco. Assim, ele discutiu com Pedro e o resistiu na face (Gl 2.11-14), quando Pedro
foi para o lado dos judaizantes e começou a favorecer a continuidade do sistema ritualístico do
Antigo Testamento para os crentes gentios do Novo Testamento. Nos dias atuais, muitas
pessoas ficam ao lado das outras por senso de corporativismo. Companheiros de partidos
políticos, pessoas da mesma classe profissional, amigos íntimos, às vezes, se defendem e até
encobrem os erros uns aos outros. Paulo não fazia isso. Quando a “verdade do Evangelho”
estava em risco, ele se levantava e apontava, não importava se um Pedro estava na mira. Mas,
ele não parava para discutir assuntos sem importância.
Paulo parece estar pensando num aspecto bem específico, quando fala em “contendas
de palavras”. Ele está alertando Timóteo contra certas pessoas que se utilizam da linguagem
para enganar. São os habilidosos em argumentação. Seus argumentos são sofisticados, porém,
vazios.
Paulo citou um caso interessantíssimo de dois homens que utilizavam a linguagem
para subverter os fiéis. Ele inclusive os citou pelo nome: Himeneu e Fileto. Não sabemos quem
foram esses homens, mas Paulo disse que a linguagem deles corroia como câncer. Na história
da humanidade, sempre existiram homens que utilizaram as técnicas da linguagem para
confundir as pessoas. Na Grécia antiga, uma classe de filósofos ficou muito famosa por fazer
isso. Foram os sofistas. Platão os criticava duramente porque percebia que seus argumentos
não tinham consistência, eram apenas artimanhas da linguagem. A técnica de convencimento
que ficou conhecida como “sofisma” utilizava-se de premissas verdadeiras para chegar a uma
conclusão falsa.
É comum as pessoas usarem a linguagem para torcer o significado das coisas. Uma das
formas mais impressionantes nesse sentido foi o chamado “desconstrucionismo”. O filósofo
francês Jacques Derrida abalou os alicerces da interpretação de textos ao defender que aquilo
que uma pessoa escreve ou diz não tem sentido definitivo em si mesmo. Ou seja, a
interpretação não busca descobrir o sentido original de um texto, até porque isso nem existe.
A interpretação é uma relação entre o leitor e o texto. Assim, o sentido de um texto não é
definido por quem o escreveu, mas por quem o lê. Essa idéia está intimamente ligada ao
conceito de pluralismo do mundo pós-ciência. Quando os absolutos foram rejeitados, a
fragmentação foi a única coisa que restou.
Quando as pessoas enveredam por esses caminhos sofísticos, resta pouca coisa a
fazer. Insistir em discussões e falatório inúteis, como o Apóstolo Paulo os chama, nenhum
resultado benéfico resultará. Não é porque o cristão não tenha argumentos contra essas
coisas. Nosso grande argumento é sustentar a existência da verdade. Mas essas pessoas não
crêem na verdade. E como poderiam crer? É o Espírito Santo que as convence. Então, nossa
função é continuar sustentando a verdade, manejando-a corretamente. Esse foi o conselho de
Paulo a Timóteo: “procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que
se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15). Manejar bem significa
manusear corretamente a Palavra. É o oposto de distorcê-la para defender seus próprios
pontos de vista.
Himeneu e Fileto, ao dizer que a ressurreição já havia acontecido, provavelmente
estivessem distorcendo o ensino bíblico em prol do pensamento gnóstico grego. Para aqueles
mestres, o corpo era mau e o espírito era bom. Por isso, eles não podiam aceitar a idéia de
uma ressurreição futura dos cristãos, pois a melhor coisa que podia acontecer para a alma era
ela se livrar do corpo. Não fazia sentido, para eles, a existência de uma ressurreição, pois era o
mesmo que voltar a se aprisionar. Assim, diziam que a ressurreição já havia acontecido,
provavelmente de uma forma espiritualizada, não corpórea. Mas, ao fazer isso, invalidavam a
ressurreição de Cristo e retiravam a base da salvação, conforme Paulo expôs no capítulo 15 de
Primeira Coríntios.
Paulo manda Timóteo “se apresentar a Deus como obreiro que não tem do que se
envergonhar”. A preocupação em relação à salvação é com os homens, mas com relação ao
modo como se trabalha é com Deus, pois Deus é o empregador. Nos dias atuais, muitos
obreiros não têm se preocupado com o empregador. Sentem-se livres demais para fazer a
obra à sua maneira e se esquecem de que devem prestar contas. Talvez, quando isso
acontecer, ficarão envergonhados.
Manejar é uma palavra curiosa que Paulo utilizou para o obreiro. Literalmente o verbo
(orthotomein) significa “cortar retamente”. Ironicamente, muitos estudiosos se lançam a um
trabalho imenso para tentar entender o sentido exato da expressão e caem no erro que Paulo
está tentando alertar, o das discussões vazias. Não importa e talvez nem seja possível definir
as minúcias do significado exato da expressão. Mas o sentido é facilmente compreensível. A
Palavra da Verdade deve ser utilizada da maneira correta. É uma questão de respeitá-la como
ela é. Não de adaptá-la aos propósitos pessoais.
II. Fugir das paixões destruidoras
O segundo conselho que Paulo dá a Timóteo nessa passagem está ligado intimamente
ao que ele acabou de falar, mas tem um sentido levemente diferente. Ele acabou de dizer que
Timóteo não deveria se envolver em discussões que não levariam a nada, e que deveria se
apresentar diante de Deus como um obreiro que maneja corretamente a Palavra e, portanto,
não tem do que se envergonhar. Nesse segundo conselho, ele vai dizer que Timóteo não deve
se preocupar com minúcias desnecessárias, mas fugir das paixões destruidoras.
Portanto, não adianta ter apenas pureza doutrinária (manejar bem a Palavra), é
preciso também ter pureza de vida. Nossa relevância perante mundo depende dessas duas
coisas: fidelidade à Palavra na pregação e na vida.
Jesus criticou os fariseus por sua postura excessivamente crítica em relação às coisas
pequenas, mas aberta em relação às coisas grandes. Ele disse: “Ai de vós, escribas e fariseus,
hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os
preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas
coisas, sem omitir aquelas! Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!” (Mt 23.23-
24). Não é negligenciar as coisas pequenas, mas dar a elas o tratamento que merecem como
coisas pequenas. Devíeis fazer isso, Jesus disse aos fariseus, a respeito dos dízimos que eles
davam. Mas não podíeis omitir aquelas, as mais importantes: a justiça, a misericórdia e a fé. É
uma simples questão de saber quais são as prioridades.
Paulo diz que Deus conhece os que lhe pertencem e que os que professam o nome do
Senhor devem se apartar da injustiça (v. 19). Muitas pessoas são hábeis com a língua e acusam
ferozmente as pequenas falhas dos outros, entretanto, praticam tranqüilamente grandes
falhas pessoais. Jesus dizia que isso era o mesmo que uma pessoa que tinha uma trave no olho
tentar ajudar outra a tirar o cisco (Mt 7.3-5), ou que era o mesmo que um cego tentando guiar
outro cego, o resultado é que os dois acabariam no barranco (Mt 15.14).
Paulo compara a santidade à separação dos instrumentos para uso doméstico numa
casa (v. 20-22). Santidade realmente significa separação. Numa casa há instrumentos de ouro,
de prata, de madeira e de barro. Os últimos eram usados para as tarefas menos honrosas. Os
primeiros para as mais honrosas. Quem se purificar será um instrumento de honra. Portanto,
quem espera ser usado pelo Senhor, deverá se purificar. Essa é a regra. Deus não usa
instrumento impuro. Alguns podem argumentar que Deus já utilizou instrumentos impuros,
como a Assíria, Nabucodonosor, Ciro e até uma mula. Respondemos: são exceções. A regra é
Deus usar instrumentos puros.
No caso de Timóteo, Paulo lhe dá o conselho bem apropriado: “Foge, outrossim, das
paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro,
invocam o Senhor” (2Tm 2.22). Aqui estava o verdadeiro ponto em que Timóteo deveria
concentrar suas forças. As paixões próprias de sua idade. Todas as idades têm suas paixões. Os
moços querem ser aventureiros. Os adultos querem estabilidade e reconhecimento. Os velhos
querem tranqüilidade e respeito. As paixões são aquelas coisas que afloram dentro de nós com
suas exigências absurdas. São aquelas vozes altas que gritam e exigem certas coisas
pecaminosas. Cada geração precisa entender quais são suas paixões e fugir delas. Não há outra
recomendação a não ser essa: fugir. Não se pode flertar com elas. Muitos crentes convivem
muito de perto com suas paixões. Pensam que não serão afetados, que a tentação nunca vai
atingi-los. Essa é uma atitude tola. José fugiu da mulher de Potifar. Ló se demorou em Sodoma.
O primeiro foi um instrumento de Deus, o segundo se tornou um inimigo de Deus.
No versículo 22, os verbos “foge” e “segue” estão em oposição. Eles são realmente
antônimos. Há certas coisas das quais devemos fugir, e há outras que devemos perseguir,
literalmente, correr atrás. Fugir das paixões, perseguir a justiça, a fé, o amor e a paz. Fugir dos
faladores como Himineu e Fileto, se aproximar daqueles que, com o coração puro invocam o
Senhor.
III. Procurar a salvação dos perdidos
Paulo sabe que Timóteo precisa se concentrar no que realmente importa, pois esse é o
único modo de ele conseguir cumprir sua missão de continuar proclamando a verdade do
Evangelho para um mundo cada vez mais ímpio e perverso.
O próximo assunto pode parecer lugar comum, algo bastante óbvio, mas é nossa
convicção que a igreja freqüentemente se esquece disso. Se Paulo está instruindo Timóteo a se
ocupar com as coisas que realmente importam e a não gastar tempo e esforço com coisas sem
importância, entre todas, a coisa que mais importa é a salvação dos perdidos. Manejar bem a
Palavra e viver em santidade são requisitos básicos para que Deus realize a mais fantástica
obra que existe: o arrependimento e a salvação.
Quando Paulo diz “repele as questões insensatas e absurdas” está agora esclarecendo
que são questões pequenas. Stott diz que a expressão representa ¹“minúcias desnecessárias”
Isso poderia ser traduzido como: não ficar se implicando com coisas pequenas
Um dos maiores problemas de muitos crentes é o excesso de zelo. O zelo é algo muito
bom quando é equilibrado. Jesus teve zelo pelo templo e por isso expulsou os mercadores de
lá (Jo 2.13-17). A bíblia diz que nós devemos ser zelosos no serviço do Senhor (Rm 12.11). Mas
às vezes as pessoas confundem zelo com radicalismo e, ao exemplo dos judeus que rejeitaram
a Jesus, demonstram um zelo sem entendimento, justamente por querer estabelecer a própria
justiça sem aceitar a que vem de Deus (Rm 10.2).
Na Igreja é comum encontrar pessoas zelosas demais com as coisas materiais ou com
as tradições que receberam. Estão dispostas a brigar para manter essas coisas como acham
certo, mas não demonstram a mínima disposição de ajudar os necessitados, pregar para os
perdidos, etc. Nem sempre têm o mesmo zelo com as pessoas e a mesma preocupação com as
coisas espirituais que têm com regulamentos e objetos.
Algumas pessoas criticam os erros do outros sem demonstrar amor. Parecem zelosas e
se sentem guardiãs do culto e da doutrina, mas se esquecem que o zelo sem amor não passa
de fanatismo e, geralmente é um modo de esconder os próprios pecados. Chamando a
atenção para o pecado do outro, geralmente se encobre o próprio. Há algo no ser humano,
algo de demoníaco, resultado direto da natureza pecaminosa, que as vezes se alegra com os
pecados dos outros. Há uma vontade de acusar que parece realmente descender do grande
“acusador dos nossos irmãos” (Ap 12.10). Cada um de nós deve ter cuidado para não repetir
esse padrão decaído.
Paulo disse a Timóteo que o servo do Senhor não deve viver contendendo com as
pessoas, antes ser brando para com todos, apto para instruir, paciente, disciplinando com
mansidão os que se opõem. Não é uma questão de ignorar ou encobrir os erros dos outros,
mas de saber como lidar com isso. Condenar os erros dos outros como um fim em si mesmo
não é algo que vem de Deus. Por isso, Paulo manda Timóteo ser brando. Isso tem a ver com o
fogo que se inflama quando certas coisas que nos irritam acontecem. Ser brando significa ser
calmo, equilibrado. Não levar as coisas para o lado pessoal, mas pensar antes de tudo na glória
de Deus. Disciplinar com mansidão talvez seja a melhor explicação que Paulo poderia dar. É
preciso disciplinar. Ele não está mandando abandonar a disciplina. O pecado deve ser
reconhecido como pecado e precisa ser disciplinado. Mas deve ser feito com mansidão. A falta
de mansidão na disciplina apenas afasta ainda mais os faltosos. Por isso, Paulo diz que a
expectativa ao disciplinar com mansidão é que Deus conceda o arrependimento para o faltoso
(v. 25). Todas as atitudes de um líder que agrada a Deus devem ter a expectativa de que as
pessoas sejam salvas.
1 John Stott, 2Timóteo, p. 61.
Este artigo não é de autoria própria.
O conteúdo foi escrito por **Leandro Lima** e extraído de material didático do **Instituto Reformado de São Paulo (IRSP)**, utilizado em contexto acadêmico para fins de ensino teológico.
Todos os direitos autorais pertencem ao respectivo autor e à instituição responsável pela publicação original. Este conteúdo está sendo compartilhado com finalidade exclusivamente educativa e edificativa.
Postado no blogger por:
Kleiton Fonseca
Instituto de Teologia John Wycliffe — Pesquisador
São Bernardo do Campo – São Paulo, Brasil
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🔗 ORCID: https://orcid.org/0009-0006-3665-5924



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