🌻 SETEMBRO AMARELO — A DOR QUE NINGUÉM VÊ / ARTIGO 09 — QUANDO A MORTE PARECE SER A ÚNICA SAÍDA

 


🌻 SETEMBRO AMARELO — A DOR QUE NINGUÉM VÊ

ARTIGO 09 — QUANDO A MORTE PARECE SER A ÚNICA SAÍDA

Quando a dor se torna tão pesada que a esperança parece desaparecer

“Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido.”
Salmo 34.18

Meu irmão, talvez uma das coisas mais difíceis de admitir seja que, em determinados momentos da vida, a dor pode se tornar tão grande que a pessoa começa a pensar que não existe mais saída. Às vezes ela não consegue explicar exatamente o que está acontecendo. Apenas sente que está cansada, que não aguenta mais, que não consegue continuar carregando aquilo que está dentro dela. E quando a esperança vai desaparecendo, a morte pode começar a parecer, de maneira terrível, como uma saída para uma dor que parece não ter fim.

Talvez você esteja lendo isso e pensando que esse tipo de pensamento não deveria existir na vida de um cristão. Talvez alguém tenha ensinado a você que quem tem fé nunca chega a esse ponto, que confiar em Deus significa jamais experimentar desespero ou que pensar em morrer é prova de uma fé fraca. Mas quando abrimos as Escrituras, encontramos algo muito diferente. A Bíblia não esconde os momentos em que homens de Deus chegaram ao limite de suas forças. Ela não apresenta seus servos como pessoas que nunca choram, nunca se desesperam e nunca experimentam momentos de profunda angústia. Pelo contrário, ela nos permite enxergar homens que, em determinados momentos, desejaram que aquela dor simplesmente terminasse.

Pense em Elias. Depois de uma grande manifestação do poder de Deus no monte Carmelo, aquele profeta se viu ameaçado por Jezabel e fugiu. O homem que havia enfrentado os profetas de Baal agora estava sozinho, cansado e assustado. Debaixo de um zimbro, Elias pediu para si a morte e disse: “Basta; toma agora, ó Senhor, a minha alma” (1Rs 19.4). Não precisamos transformar esse episódio em um diagnóstico psicológico de Elias. O texto não está interessado em nos dar um diagnóstico clínico. Mas ele nos mostra alguma coisa que precisamos enxergar: um servo de Deus pode chegar a um momento de profundo esgotamento e desejar que sua dor termine.

E veja como Deus trata Elias. É interessante perceber que Deus não começa aquela conversa com uma repreensão. Elias precisava descansar. Precisava ser alimentado. Precisava recuperar suas forças. Depois, Deus fala com ele. Há uma lição pastoral muito importante nisso. Às vezes queremos resolver rapidamente o sofrimento de alguém com uma frase religiosa, quando aquela pessoa está exausta, fragilizada e precisando primeiro de cuidado. Isso não significa que a Palavra de Deus seja insuficiente. Significa que precisamos aprender a aplicar a Palavra de Deus com sabedoria e compaixão.

Também encontramos Jeremias. Conhecido como o profeta que anunciou fielmente a Palavra em meio a uma geração rebelde, Jeremias conheceu a solidão, a rejeição e a perseguição. Em determinado momento de sua angústia, ele diz: “Maldito o dia em que nasci” (Jr 20.14). Em outro momento, sua linguagem revela uma dor profunda diante daquilo que estava vivendo (Jr 20.7–18). Mais uma vez, não precisamos colocar um diagnóstico moderno sobre Jeremias. Precisamos simplesmente ouvir o homem que está falando. Ele está sofrendo. Ele está cansado. Ele está questionando sua própria existência diante de uma realidade que se tornou pesada demais.

Jó também nos apresenta uma das expressões mais fortes de sofrimento encontradas nas Escrituras. Depois de perder seus filhos, seus bens e sua saúde, Jó amaldiçoou o dia do seu nascimento e perguntou: “Por que não morri eu na madre?” (Jó 3.11). Mais adiante, sua dor se torna ainda mais intensa. Jó não estava fazendo uma reflexão teórica sobre sofrimento. Ele estava sentado em meio às cinzas, vivendo uma realidade que ultrapassava aquilo que seus olhos conseguiam compreender.

E talvez aqui esteja uma das coisas mais importantes que precisamos aprender com o livro de Jó. Seus amigos passaram boa parte do tempo tentando explicar o sofrimento de Jó. Eles tinham respostas, argumentos e explicações. O problema é que suas explicações não ajudaram aquele homem. No final, Deus repreende os amigos de Jó pela maneira como falaram a respeito dele (Jó 42.7). Isso deveria nos ensinar alguma coisa quando encontramos alguém em sofrimento profundo. Nem toda pessoa que sofre precisa primeiro de uma explicação. Algumas precisam de alguém disposto a permanecer ao seu lado.

Mas existe ainda uma passagem que considero especialmente importante para este artigo. Paulo, escrevendo aos irmãos de Corinto, fala sobre uma tribulação que enfrentou na Ásia e diz algo que talvez surpreenda muita gente. Ele afirma: “Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida” (2Co 1.8).

Veja as palavras do apóstolo: “acima das nossas forças” e “desesperarmos até da própria vida”.

Paulo não está contando isso para glorificar o desespero. Ele está mostrando a gravidade daquilo que enfrentou. E logo depois explica que aquela situação o levou a confiar não em si mesmo, mas em Deus, “que ressuscita os mortos” (2Co 1.9). Isso é muito importante. Paulo não diz: “Nós somos fortes o suficiente para suportar qualquer coisa”. Ele reconhece que houve uma situação que ultrapassou suas próprias forças.

Meu irmão, talvez você esteja passando por algo parecido. Talvez você tenha chegado ao ponto em que não consegue mais enxergar uma saída. Talvez você continue trabalhando, estudando, cuidando da família, indo à igreja e conversando com as pessoas, mas por dentro esteja completamente cansado. Talvez ninguém saiba o que acontece quando você fecha a porta do seu quarto. Talvez você sorria diante dos outros e chore quando está sozinho.

Se for esse o seu caso, quero lhe pedir uma coisa: não carregue isso sozinho.

Não espere a dor ficar ainda maior para contar a alguém. Procure alguém de confiança. Converse com seu pastor, com um familiar, com um amigo maduro. Procure também ajuda profissional. Um psicólogo ou psiquiatra pode ajudar a compreender aquilo que está acontecendo e a estabelecer um caminho de cuidado. Se houver risco de você tirar a própria vida, não fique sozinho e procure imediatamente um serviço de emergência.

E aqui precisamos falar também com a igreja.

Meu irmão, quando alguém chega até nós dizendo “eu não quero mais viver”, esse não é o momento para discutirmos se aquela pessoa tem fé suficiente. Não é o momento de acusá-la de falta de oração. Não é o momento de dizer simplesmente que ela precisa pensar positivo ou que tudo vai melhorar. Também não é o momento de abandonar a verdade das Escrituras. É o momento de levar aquela pessoa a sério.

Pergunte com carinho o que está acontecendo. Ouça. Permaneça perto. Ajude a pessoa a procurar atendimento. Se houver risco imediato, não a deixe sozinha. A vida daquela pessoa é preciosa e a situação precisa ser tratada com responsabilidade.

Isso não significa que estamos substituindo a fé pelo cuidado profissional. Pelo contrário. A oração e o cuidado caminham juntos. A igreja pode interceder enquanto o profissional de saúde cuida. O pastor pode acompanhar enquanto o médico ou psicólogo avalia. A família pode permanecer próxima enquanto a pessoa recebe tratamento. Não precisamos criar uma guerra entre aquilo que Deus nos revelou em sua Palavra e os meios ordinários de cuidado que Ele permite que utilizemos.

Como cristãos reformados, confessamos a soberania de Deus. Mas a soberania de Deus nunca deve ser utilizada como uma arma contra quem está sofrendo. Dizer a alguém desesperado simplesmente “Deus está no controle” pode ser uma verdade teológica, mas uma verdade dita sem amor pode se tornar uma resposta cruel. Paulo sabia que Deus estava no controle e, ainda assim, confessou que chegou a desesperar da própria vida. A soberania de Deus não tornou sua tribulação imaginária. Ela foi justamente o fundamento sobre o qual Paulo pôde depositar sua confiança quando suas próprias forças acabaram.

Por isso, quando falamos de esperança cristã, não estamos dizendo que o cristão nunca chegará ao limite. Estamos dizendo que quando chegamos ao nosso limite, Deus não chega ao limite.

Elias chegou ao limite, mas Deus continuou cuidando dele. Jeremias conheceu dias em que sua própria existência parecia insuportável, mas a Palavra de Deus continuou sustentando aquele profeta. Jó passou por uma dor que não conseguia compreender, mas Deus não havia deixado de governar sua história. Paulo chegou ao ponto de desesperar da própria vida, mas aprendeu a depositar sua confiança naquele “que ressuscita os mortos” (2Co 1.9).

Isso não significa que devemos romantizar o sofrimento. Não precisamos dizer que é bom sofrer, nem que quem pensa em morrer está simplesmente passando por uma “prova espiritual”. O sofrimento é doloroso. A morte é inimiga. Vivemos em um mundo quebrado pelo pecado e aguardamos o dia em que Cristo finalmente vencerá a morte de maneira definitiva (1Co 15.26; Ap 21.4).

Até lá, porém, Deus nos chama a carregar uns aos outros.

Talvez você nunca tenha passado por uma crise dessa natureza, mas alguém próximo de você pode estar passando. Um filho. Uma esposa. Um marido. Um amigo. Um irmão da igreja. Talvez até alguém que você considera muito forte. Não suponha que porque alguém sorri está bem. Não suponha que porque alguém serve na igreja não pode estar sofrendo. Não suponha que porque alguém conhece a Bíblia não possa atravessar uma profunda crise.

Aprenda a perguntar: “Como você realmente está?”

E quando essa pessoa responder, procure ouvir de verdade.

Talvez você não tenha uma resposta para aquilo que ela está vivendo. Tudo bem. Você não precisa ter. Talvez você não consiga resolver aquela situação. Tudo bem. Você não precisa resolver sozinho. Seu papel pode ser simplesmente permanecer perto, buscar ajuda e lembrar aquela pessoa de que ela não está abandonada.

Meu irmão, se hoje você está cansado de viver, eu não quero tratar sua dor com uma frase pronta. Quero lhe dizer algo muito simples: permaneça. Procure ajuda. Conte a alguém. Não tome sozinho uma decisão definitiva em meio a uma dor que pode mudar. O que hoje parece sem saída pode ser visto de outra maneira quando você não estiver carregando tudo sozinho.

E se você está pensando em tirar a própria vida neste momento, não fique sozinho. Procure imediatamente alguém de confiança e um serviço de emergência. No Brasil, você pode ligar para o SAMU, pelo 192, em situações de emergência. O CVV, pelo 188, oferece apoio emocional gratuitamente, 24 horas por dia. Também é possível procurar uma unidade de saúde do SUS.

A Bíblia não promete que nunca choraremos. Ela não promete que nunca conheceremos dias difíceis. Ela não promete que nossa fé nos tornará emocionalmente invulneráveis. Mas ela nos apresenta um Deus que permanece conosco em meio à aflição.

“Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado.” (Sl 34.18)

Talvez hoje você não consiga enxergar uma saída. Talvez sua força tenha acabado. Talvez você esteja, como Paulo, olhando para uma situação que parece estar acima das suas forças. Mas não confunda o fim da sua força com o fim da ação de Deus.

Você pode não conseguir carregar sozinho. Então permita que alguém carregue com você.

Você pode não conseguir enxergar esperança. Então caminhe perto daqueles que podem ajudá-lo enquanto seus olhos ainda não conseguem vê-la.

E, acima de tudo, lembre-se de que nossa esperança final não está na capacidade que temos de permanecer fortes, mas em Cristo, que morreu, ressuscitou e há de fazer novas todas as coisas.

A dor pode ser profunda. O desespero pode ser real. As lágrimas podem ser muitas. Mas Cristo continua sendo nossa esperança.

E enquanto esperamos o dia em que Deus enxugará definitivamente toda lágrima dos nossos olhos (Ap 21.4), que a igreja seja encontrada fazendo aquilo que Cristo nos ensinou: levando as cargas uns dos outros (Gl 6.2), chorando com os que choram (Rm 12.15) e permanecendo perto daqueles que atravessam os vales mais escuros.

Porque a dor que ninguém vê também precisa ser ouvida.


Kleiton Fonseca é teólogo e pesquisador de tradição reformada. Dedica-se ao estudo das Escrituras, da teologia e da história da Igreja, buscando aplicar a fé cristã às questões concretas enfrentadas pelo ser humano. Neste projeto, propõe uma reflexão bíblica e pastoral sobre sofrimento, dor, esperança e cuidado com o próximo.

ORCID: [https://orcid.org/0009-0006-3665-5924] 



Nota de cuidado

Este artigo tem caráter bíblico, educativo e pastoral. Ele não substitui avaliação ou tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico. Se você ou alguém próximo estiver em risco imediato de suicídio, não permaneça sozinho e procure atendimento de emergência. No Brasil, o SAMU atende pelo 192. O CVV atende pelo 188, gratuitamente, 24 horas por dia.

Cristo é nossa esperança, mas buscar ajuda também faz parte do cuidado que recebemos de Deus.

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