SETEMBRO AMARELO — A DOR QUE NINGUÉM VÊ /ARTIGO 06 — QUANDO A AUSÊNCIA TAMBÉM MACHUCA
SETEMBRO AMARELO — A DOR QUE NINGUÉM VÊ
ARTIGO 06 — QUANDO A AUSÊNCIA TAMBÉM MACHUCA
“Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido.” — Salmo 34.18
Há dores que começam no momento em que alguém vai embora. Outras começam quando recebemos uma notícia que muda completamente a nossa vida. Há perdas que acontecem de repente e outras que vão acontecendo aos poucos, até que percebemos que aquilo que fazia parte da nossa vida já não está mais ali. Perdemos pessoas que amamos, relacionamentos, amizades, sonhos, oportunidades, empregos, saúde, segurança e tantas outras coisas que, de alguma maneira, davam sentido à nossa caminhada.
E algumas dessas perdas deixam uma ausência que ninguém consegue preencher.
O problema é que nem sempre as pessoas ao nosso redor entendem isso. Às vezes, depois de alguns dias, elas esperam que voltemos à rotina como se nada tivesse acontecido. A vida continua, as responsabilidades continuam, as pessoas continuam conversando, trabalhando e sorrindo. Mas quem sofreu a perda sabe que alguma coisa mudou.
Por dentro, existe um vazio.
Existe uma cadeira que continua no mesmo lugar, mas agora está vazia.
Existe um telefone que não vai mais tocar daquela maneira.
Existe uma voz que não será mais ouvida.
Existe uma história que terminou antes do que gostaríamos.
E existe uma saudade que não pode simplesmente ser mandada embora.
É nesse momento que precisamos falar sobre o luto.
Porque chorar uma perda não significa falta de fé.
Essa talvez seja uma das coisas que a igreja precisa aprender novamente.
Há pessoas que sofrem porque, além de enfrentarem a própria dor, sentem que precisam esconder essa dor para provar que confiam em Deus. Algumas têm medo de chorar porque alguém pode dizer que “quem tem fé não fica assim”. Outras se culpam por ainda estarem sofrendo meses depois de uma perda. Há quem pense que deveria estar melhor porque sabe que a pessoa que morreu está com o Senhor.
Mas a esperança cristã não elimina a saudade.
Ela nos ensina a sofrer de uma maneira diferente, mas não nos transforma em pessoas incapazes de sentir a ausência daqueles que amamos.
A própria Bíblia nos mostra isso.
Quando Lázaro morreu, Jesus sabia o que aconteceria. Sabia que ressuscitaria Lázaro. Sabia que aquela morte não teria a palavra final. Mesmo assim, quando chegou diante do túmulo, Jesus chorou.
Esse pequeno versículo de João 11.35 é conhecido por praticamente todo cristão: “Jesus chorou”.
Mas talvez estejamos tão acostumados com essas palavras que deixamos de perceber a profundidade delas.
Jesus chorou diante da morte.
O Filho de Deus não tratou o sofrimento humano como algo insignificante. Ele não chegou diante daquela família dizendo simplesmente: “Não chorem, eu sei o que estou fazendo”.
Ele chorou com os que choravam.
Isso nos ensina algo precioso sobre o cuidado com quem sofre. Nem sempre precisamos chegar com uma explicação. Às vezes, antes de explicar qualquer coisa, precisamos simplesmente estar presentes.
Existe um tempo para falar.
E existe um tempo para permanecer em silêncio.
Existe um momento para ensinar.
E existe um momento para abraçar.
Existe um momento para lembrar as promessas de Deus.
E existe um momento em que talvez a pessoa precise apenas saber que não está sozinha.
A Bíblia não trata o luto como uma experiência estranha à fé. Pelo contrário, encontramos nela homens e mulheres que choraram profundamente diante das perdas.
Davi chorou por pessoas que amava. Jó experimentou perdas devastadoras. Noemi conheceu a dor de perder o marido e os filhos e chegou ao ponto de pedir que não a chamassem mais de Noemi, mas de Mara, porque, segundo suas próprias palavras, o Todo-Poderoso havia lhe dado grande amargura.
A Bíblia não esconde essas histórias.
Ela não tenta maquiar o sofrimento dos seus personagens para transformá-los em exemplos de pessoas que nunca quebraram por dentro.
E isso é importante porque precisamos compreender que o luto não é uma interrupção da fé; muitas vezes, ele se torna um dos lugares onde nossa fé é profundamente confrontada e exercitada.
Quando perdemos alguém, perguntas aparecem.
“Por quê?”
“Por que agora?”
“Por que dessa maneira?”
“Por que Deus permitiu?”
Algumas dessas perguntas podem permanecer sem resposta nesta vida.
E precisamos ter humildade suficiente para admitir isso.
Existe uma espécie de espiritualidade que tenta explicar tudo imediatamente. Se alguém perde alguém, aparece uma explicação. Se uma família enfrenta uma tragédia, alguém quer encontrar rapidamente uma razão. Se uma pessoa está sofrendo, alguém procura uma causa específica.
Mas a Bíblia nos ensina a ter cuidado com isso.
Nem todo sofrimento pode ser explicado por nós.
O livro de Jó é uma advertência poderosa contra a necessidade de explicar a dor dos outros. Os amigos de Jó passaram boa parte do tempo tentando encontrar uma explicação para o sofrimento dele. O problema não foi apenas que suas explicações estavam erradas; foi também a maneira como transformaram a dor de Jó em um problema que precisava ser explicado por eles.
Há momentos em que a pessoa que sofre não precisa de alguém tentando descobrir imediatamente “por que Deus fez isso”.
Ela precisa de alguém que tenha disposição para sentar ao seu lado.
Isso não significa negar a soberania de Deus.
Muito pelo contrário.
A soberania de Deus continua sendo uma verdade preciosa justamente quando não conseguimos compreender as circunstâncias. Mas a soberania divina nunca deve ser usada como uma arma contra quem está chorando.
Dizer “Deus está no controle” pode ser uma verdade maravilhosa quando é acompanhado de amor.
Mas pode se tornar uma frase cruel quando utilizada para impedir alguém de lamentar.
O Deus soberano também é o Deus que se aproxima dos quebrantados.
O salmista não diz que Deus está distante daqueles que sofrem até que eles consigam organizar suas emoções.
Ele diz:
“Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado.”
Que palavra necessária para quem está atravessando um luto.
Perto.
Não distante.
Não indiferente.
Perto.
Talvez alguém esteja lendo este artigo carregando uma perda que aconteceu recentemente. Talvez tenha acontecido há anos. Talvez outras pessoas tenham seguido em frente, mas você ainda sente falta. Talvez exista uma data no calendário que todos os anos reabre uma ferida. Talvez você ainda encontre objetos, fotografias e lugares que trazem lembranças.
E talvez alguém já tenha dito que você precisa “superar”.
Mas talvez o problema esteja justamente nessa palavra.
Nós não precisamos tratar o luto como se fosse uma prova que precisa ser rapidamente concluída.
O luto faz parte da experiência de amar.
Sentimos falta porque amamos.
Choramos porque aquela pessoa, aquela história ou aquela realidade tinha importância para nós.
É claro que precisamos continuar vivendo. Precisamos cuidar de nós mesmos, cumprir nossas responsabilidades e, pouco a pouco, aprender a viver com aquilo que aconteceu. Mas continuar vivendo não significa esquecer.
Às vezes, significa aprender a carregar uma saudade que permanecerá conosco.
E esse processo não acontece da mesma maneira para todas as pessoas.
Não existe um calendário universal para o coração.
Não devemos olhar para alguém e determinar que ela já deveria estar bem porque “já passou muito tempo”. Cada pessoa reage às perdas de maneira diferente. Algumas conseguem falar sobre aquilo rapidamente. Outras precisam de muito tempo. Algumas choram. Outras ficam em silêncio. Algumas sentem raiva. Outras sentem culpa. Algumas experimentam uma mistura de sentimentos que nem conseguem explicar.
Por isso, precisamos ter cuidado com julgamentos.
E precisamos prestar atenção quando o sofrimento se torna tão intenso ou prolongado que começa a comprometer profundamente a vida da pessoa. Quando alguém deixa de conseguir funcionar, se isola completamente, abandona o cuidado consigo mesmo, apresenta sofrimento persistente ou começa a expressar desesperança profunda e pensamentos relacionados à própria morte, não devemos simplesmente dizer que “é o luto”.
É preciso olhar com atenção.
É preciso ouvir.
É preciso buscar ajuda.
E, quando necessário, procurar acompanhamento profissional.
A igreja tem um papel importantíssimo nesse processo, mas ela não precisa fazer aquilo para o qual não foi chamada.
A igreja pode orar.
Pode visitar.
Pode ouvir.
Pode acompanhar.
Pode preparar uma refeição.
Pode ajudar uma família que está atravessando um momento difícil.
Pode permanecer perto quando todos os outros já voltaram para suas próprias rotinas.
E também pode reconhecer quando alguém precisa de psicólogo, psiquiatra, médico ou outro profissional qualificado.
Procurar ajuda não é abandonar a fé.
Às vezes, uma das maneiras mais concretas de amar alguém é ajudá-lo a procurar o cuidado de que precisa.
Mas existe ainda uma esperança maior para o cristão.
O evangelho não promete que nunca perderemos pessoas que amamos. Também não promete que esta vida estará livre de morte, doença, separação e lágrimas.
A promessa é maior.
A promessa é que a morte não terá a palavra final.
Quando Paulo fala aos tessalonicenses sobre aqueles que morreram, ele não diz aos cristãos para não sentirem tristeza. Ele diz para não se entristecerem “como os demais que não têm esperança” (1Ts 4.13).
Observe: Paulo não diz simplesmente “não se entristeçam”.
Ele reconhece que existe tristeza.
A diferença está na esperança.
O cristão também chora.
O cristão também sente saudade.
O cristão também enfrenta o silêncio de uma casa que ficou vazia.
Mas o cristão chora olhando para uma promessa.
Cristo venceu a morte.
A ressurreição de Jesus garante que a morte não é o destino final daqueles que estão nele.
É por isso que, no meio do luto, podemos chorar e esperar.
Podemos sentir saudade e confiar.
Podemos reconhecer a dor sem abandonar a esperança.
Nossa esperança não está em fingir que não dói.
Nossa esperança está em Cristo.
Um dia, aquilo que hoje conhecemos como morte será definitivamente vencido. Um dia, não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor. A promessa de Deus aponta para uma realidade na qual a separação não terá mais lugar.
Até lá, porém, ainda choramos.
E talvez seja justamente por isso que precisamos uns dos outros.
Se você conhece alguém que está passando por um luto, não tenha pressa de fazê-lo “ficar bem”.
Não diga que ele precisa esquecer.
Não diga que já passou tempo demais.
Não tente encontrar uma explicação para tudo.
Às vezes, simplesmente diga:
“Eu sinto muito.”
“Estou aqui.”
“Você não precisa atravessar isso sozinho.”
E, se a pessoa quiser falar, escute.
Se quiser chorar, permita que chore.
Se quiser ficar em silêncio, permaneça.
Ore com ela.
Caminhe com ela.
Porque existem momentos em que o maior ato de amor não é encontrar as palavras certas, mas simplesmente não ir embora.
Talvez seja isso que precisamos recuperar como igreja: a capacidade de permanecer perto daqueles cujo coração está quebrantado.
Porque o Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado.
E se Deus se aproxima do quebrantado, nós também devemos nos aproximar.
O luto nos lembra de algo que preferimos esquecer: somos frágeis, a vida é breve e este mundo ainda carrega as marcas profundas da Queda. Mas o evangelho nos lembra também que a morte não vencerá para sempre.
Cristo ressuscitou.
E porque ele ressuscitou, nossa dor não é o capítulo final.
Ainda choramos.
Ainda sentimos saudade.
Ainda existem ausências que machucam.
Mas esperamos.
Esperamos naquele que venceu a morte e prometeu fazer novas todas as coisas.
Até aquele dia, que saibamos chorar com os que choram, carregar as cargas uns dos outros e permanecer perto daqueles que estão atravessando o vale da perda.
Porque a dor que ninguém vê também precisa ser ouvida.
E algumas vezes, antes de falar sobre esperança, precisamos simplesmente sentar ao lado de quem está chorando.
Kleiton Fonseca é teólogo e pesquisador de tradição reformada. Dedica-se ao estudo das Escrituras, da teologia e da história da Igreja, buscando aplicar a fé cristã às questões concretas enfrentadas pelo ser humano. Neste projeto, propõe uma reflexão bíblica e pastoral sobre sofrimento, dor, esperança e cuidado com o próximo.
ORCID: [https://orcid.org/0009-0006-3665-5924]
Nota pastoral: Este artigo faz parte da série Setembro Amarelo — A Dor Que Ninguém Vê e possui caráter bíblico, educativo e pastoral. O luto é uma experiência humana complexa e pode exigir diferentes formas de cuidado. Quando o sofrimento se torna intenso, persistente, incapacitante ou envolve autoagressão ou pensamentos de morte, é importante buscar avaliação e acompanhamento profissional. A fé cristã e o cuidado especializado não são inimigos; podem caminhar juntos.
🌻 SETEMBRO AMARELO — A DOR QUE NINGUÉM VÊ
A dor que ninguém vê também precisa ser ouvida.

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