🌻 SETEMBRO AMARELO — A DOR QUE NINGUÉM VÊ / ARTIGO 10 — “COMO EU CHEGUEI ATÉ AQUI?”

 


🌻 SETEMBRO AMARELO — A DOR QUE NINGUÉM VÊ

ARTIGO 10 — “COMO EU CHEGUEI ATÉ AQUI?”

Quando você sabe o que é certo, mas percebe que não consegue mais encontrar o caminho de volta

Meu irmão, talvez uma das perguntas mais difíceis que alguém possa fazer para si mesmo seja: “Como eu cheguei até aqui?” Não estou falando apenas de chegar a um lugar físico, mas de olhar para a própria vida e perceber que você está muito distante da pessoa que um dia imaginou que seria. Existem momentos em que olhamos para nossas escolhas, para nossos relacionamentos, para nossos vícios, para aquilo que perdemos e para as consequências dos nossos próprios caminhos e simplesmente não conseguimos compreender em que momento tudo começou a desmoronar.

Eu conheço essa pergunta porque um dia precisei fazê-la para mim mesmo.

Houve um período muito difícil da minha vida em que eu já havia perdido a esperança de viver e também havia perdido, de alguma maneira, a razão pela qual eu existia. Certa manhã, por volta das seis horas, depois de passar a noite inteira bebendo e usando drogas, sentei-me em um beco que ficava de frente para a empresa Volkswagen. Não havia ninguém comigo. Eu estava sozinho, olhando para aquela paisagem, tentando compreender como minha vida havia chegado àquele ponto. E foi ali, naquele momento, que uma pergunta surgiu dentro de mim: “Como eu cheguei até aqui?”

Talvez o que mais doesse naquela pergunta fosse saber quem eu havia sido. Eu já tinha um bom conhecimento das Escrituras. Já havia sido pastor. Já havia pregado a Palavra. Já havia sido, aos olhos de muitas pessoas, um crente exemplar. Eu já havia sido um bom pai e um bom marido. Eu sabia quem era Jesus, conhecia aquilo que a Bíblia ensinava e, durante muito tempo, procurei viver de acordo com aquilo que cria. Mas naquele beco eu estava bêbado, drogado, envergonhado e sem saber como sair daquela situação.

O tempo havia passado sem que eu percebesse. Eu não havia planejado chegar ali. Não havia acordado certa manhã dizendo que queria destruir minha vida. Mas escolhas foram se acumulando, caminhos foram sendo percorridos, pecados foram acontecendo, e quando percebi, estava no fundo do poço. E talvez uma das coisas mais difíceis naquela situação não fosse apenas reconhecer que eu havia caído. Era perceber que eu não sabia como sair.

Eu já havia tentado de diversas maneiras. Mas não conseguia.

Existe outra cena daquela época que permanece na minha memória. Um pastor que me conhecia e para quem eu já havia pregado certa vez me encontrou naquela situação. Ele olhou para mim, desconsolado, e fez uma pergunta que talvez também esteja por trás daquilo que muitas pessoas pensam quando veem alguém cair: “Como? Eu não consigo entender. Uma pessoa com tanto conhecimento da Palavra chegar a este ponto?”

Eu olhei para ele e respondi:

“Eu também não sei, pastor.”

Hoje, depois de tudo o que aconteceu, consigo compreender um pouco melhor aquela pergunta.

Talvez o meu problema não fosse falta de conhecimento. Eu conhecia a Palavra. O que eu precisava compreender era a diferença entre conhecimento e sabedoria.

Em João 8, Jesus fala sobre pessoas que conheciam sua religião e sua própria história, mas que não percebiam a escravidão em que estavam. Ao falar sobre permanecer em sua palavra, Jesus declarou: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.31–32). E quando aqueles homens afirmaram que jamais haviam sido escravos, Jesus respondeu: “Todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8.34).

Não é difícil perceber a seriedade disso. Uma pessoa pode possuir informações corretas e, ainda assim, não compreender a realidade em que está vivendo. Pode saber muito e enxergar pouco. Pode conhecer a verdade intelectualmente e, mesmo assim, não saber como aplicá-la à própria vida.

Foi uma das coisas que precisei aprender.

Conhecimento é saber. Sabedoria é saber o que fazer com aquilo que sabemos.

A Bíblia diz que “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9.10). Tiago nos orienta a pedir sabedoria a Deus quando ela nos falta (Tg 1.5). Provérbios mostra que a sabedoria não é apenas informação acumulada; ela está relacionada ao caminho que escolhemos, à maneira como vivemos e às decisões que tomamos (Pv 3.13–18).

Jesus também contou a parábola de dois homens que ouviram suas palavras. Ambos tiveram contato com o ensino. Ambos ouviram. Mas um praticou aquilo que ouviu e o outro não. Um construiu sobre a rocha; o outro construiu sobre a areia (Mt 7.24–27).

Os dois ouviram.

A diferença estava no que fizeram com aquilo que ouviram.

Mas aqui precisamos ter cuidado para não transformar essa verdade em uma explicação simplista para todas as quedas. Nem todo sofrimento acontece porque alguém não teve sabedoria. Nem toda pessoa que está no fundo do poço chegou ali pela mesma razão. Há pessoas que sofrem por causa de suas próprias escolhas e há pessoas que sofrem por causa das escolhas pecaminosas de outros. Há doenças, perdas, traumas, injustiças e circunstâncias que não podem ser reduzidas a uma única explicação.

A Bíblia não nos permite tratar a dor humana de maneira tão simples.

O livro de Jó está aí justamente para nos lembrar disso. Os amigos de Jó tinham explicações para o sofrimento daquele homem. Tinham argumentos religiosos. Mas, no final, Deus os repreendeu pela maneira como falaram a respeito dele (Jó 42.7).

Por isso, quando olho para minha própria história, não quero dizer a você que descobri uma fórmula para explicar todas as quedas. O que posso dizer é aquilo que aprendi olhando para mim mesmo: eu tinha conhecimento, mas precisava aprender a viver sabiamente diante daquilo que conhecia.

E isso me leva a outra verdade que precisamos reconhecer: homens e mulheres que pertenciam ao povo de Deus também caíram.

Davi conhecia profundamente o Senhor. Ainda assim, pecou gravemente com Bate-Seba e participou da morte de Urias (2Sm 11). Seu pecado foi sério e produziu consequências sérias. Mas Davi também experimentou arrependimento. O Salmo 51 registra seu clamor: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável” (Sl 51.10).

Pedro andou com Jesus, ouviu seus ensinamentos e confessou que ele era o Cristo. Mesmo assim, em uma noite de pressão e medo, negou o próprio Senhor três vezes (Mt 26.69–75). Mas sua história não terminou naquela queda. Depois da ressurreição, Jesus o encontrou e o restaurou para o serviço (Jo 21.15–19).

Paulo também carregava uma história que poderia tê-lo definido para sempre. Ele perseguiu a igreja e reconheceu que havia sido “blasfemo, perseguidor e insolente” (1Tm 1.13). Mas, logo depois, declarou: “Mas obtive misericórdia.”

Isso não significa que o pecado não tenha consequências. Também não significa que toda restauração implique recuperar exatamente aquilo que foi perdido. Davi não deixou de enfrentar consequências depois de seu pecado. Pedro não apagou aquela noite da sua história. Paulo não podia voltar atrás e desfazer aquilo que havia feito.

A graça não transforma o pecado em algo pequeno. A graça mostra que Deus é capaz de salvar e transformar pecadores reais.

Foi isso que comecei a compreender também na minha própria história.

Eu não fui restaurado porque um dia finalmente consegui reunir forças suficientes para me salvar. Não fui restaurado porque possuía muito conhecimento bíblico. Não fui restaurado porque merecia uma segunda oportunidade.

Foi a graça de Deus.

Hoje, quando olho para aquele homem sentado naquele beco, consigo perceber uma coisa que naquele momento não conseguia enxergar: Deus não havia deixado de ser Deus porque eu havia perdido a esperança.

Naqueles dias, eu não conseguia enxergar uma saída.

Mas Deus conseguia.

Existe um texto de Miqueias que expressa algo muito precioso:

“Eu, porém, olharei para o Senhor e esperarei no Deus da minha salvação; o meu Deus me ouvirá. Ó inimiga minha, não te alegres a meu respeito; ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei; se morar nas trevas, o Senhor será a minha luz.”
— Miqueias 7.7–8

Observe a honestidade do profeta: “ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei.”

A Bíblia não apresenta homens e mulheres de Deus como pessoas que jamais caíram. Ela nos mostra pecadores alcançados pela graça, pessoas que foram confrontadas, quebrantadas, restauradas e novamente conduzidas por Deus.

Talvez você esteja lendo este artigo e esteja exatamente nesse lugar.

Talvez ninguém saiba.

Talvez sua família saiba apenas uma parte.

Talvez seus amigos pensem que você está bem.

Talvez você continue frequentando a igreja.

Talvez ainda consiga falar sobre Deus, ensinar a Bíblia e aconselhar outras pessoas, enquanto sua própria vida está desmoronando por dentro.

Talvez você esteja preso ao álcool.

Talvez às drogas.

Talvez ao jogo.

Talvez à pornografia.

Talvez a uma dependência sexual.

Talvez esteja vivendo uma vida dupla há anos.

Talvez tenha perdido sua família.

Talvez esteja carregando uma culpa que não consegue confessar.

Talvez tenha feito algo que nunca imaginou que seria capaz de fazer.

Talvez esteja simplesmente cansado de lutar contra aquilo que parece mais forte do que você.

E talvez, como eu naquele dia, você esteja perguntando:

“Como eu cheguei até aqui?”

Meu irmão, eu não sei qual é o seu abismo.

Mas quero lhe dizer uma coisa que aprendi: o fato de você ter chegado ao fundo não significa que Deus tenha deixado de alcançá-lo.

Talvez você não consiga sair sozinho.

Então peça ajuda.

Confesse aquilo que precisa ser confessado.

Procure alguém maduro em quem possa confiar.

Procure ajuda profissional quando for necessário.

Se existe uma dependência, trate-a com seriedade. Se existe um pecado, arrependa-se. Se existe uma ferida, não tenha vergonha de reconhecer que ela existe. Se existem consequências, enfrente-as com responsabilidade.

E não confunda arrependimento com simplesmente sentir culpa.

O arrependimento bíblico envolve mudança de direção. O filho pródigo não apenas reconheceu que estava errado. Ele se levantou e voltou para casa (Lc 15.17–20).

Essa talvez seja uma das imagens mais bonitas da graça.

O filho havia ido embora.

Havia desperdiçado.

Havia errado.

Mas chegou o momento em que “caindo em si”, ele reconheceu sua condição e disse: “Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai” (Lc 15.17–18).

Ele não resolveu tudo antes de voltar.

Ele voltou.

E encontrou um pai que correu ao seu encontro (Lc 15.20).

Isso não significa que as consequências de nossas escolhas desaparecerão magicamente. Algumas feridas precisam de tempo. Algumas relações precisarão ser reconstruídas. Algumas pessoas precisarão de tratamento. Algumas consequências permanecerão. Algumas portas talvez não voltem a se abrir.

Mas existe uma diferença enorme entre ter consequências e estar sem esperança.

Em Cristo, o pecador arrependido encontra perdão.

João escreve: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9).

Paulo declara: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).

Isso não é uma licença para continuar pecando. É justamente o contrário. É a segurança de que podemos abandonar o pecado sem precisar acreditar que nossa história terminou.

Meu irmão, talvez você esteja olhando para a sua vida e pensando que foi longe demais.

Talvez você pense que Deus não vai mais recebê-lo.

Talvez tenha vergonha de voltar para a igreja.

Talvez tenha vergonha de procurar alguém.

Talvez pense que, depois de tudo o que fez, não exista mais caminho para você.

Não permita que a vergonha o impeça de procurar a graça.

O evangelho não é a história de pessoas que conseguiram permanecer fortes o tempo todo.

É a história da graça de Deus alcançando pecadores.

Pedro caiu.

Davi caiu.

Paulo carregava uma história terrível antes de Cristo.

E muitos outros homens e mulheres encontrados nas Escrituras conheceram profundamente sua própria fraqueza.

A diferença não estava em serem pessoas incapazes de cair.

A esperança estava em quem os encontrou depois da queda.

Por isso, quando penso naquele homem sentado naquele beco, bêbado, drogado e envergonhado, lembro que eu não sabia como sair.

Mas Deus sabia.

E é por isso que hoje posso olhar para aquela história não para glorificar o que vivi, mas para glorificar aquele que me sustentou.

Eu não fui amado por Deus porque sabia muito. Fui alcançado por sua graça.

E talvez seja isso que você precise ouvir hoje.

Você pode ter perdido muitas coisas.

Pode ter cometido pecados graves.

Pode ter chegado a lugares que jamais imaginou conhecer.

Pode estar no fundo do poço.

Mas não confunda o fundo do poço com o fim da história.

Talvez hoje você esteja perguntando:

“Como eu cheguei até aqui?”

Talvez você ainda não consiga responder.

Mas você pode começar a fazer outra pergunta:

“Qual é o próximo passo que preciso dar?”

Talvez seja pedir perdão.

Talvez seja confessar.

Talvez seja procurar tratamento.

Talvez seja romper com aquilo que está destruindo você.

Talvez seja procurar ajuda.

Talvez seja voltar para casa.

E, acima de tudo, talvez seja lembrar que existe um Deus que continua sendo Deus quando nossas forças acabam.

Miqueias diz:

“Ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei.”

Meu irmão, se você caiu, levante-se.

Se pecou, arrependa-se.

Se está preso, peça ajuda.

Se está perdido, procure alguém para caminhar com você.

Se não consegue enxergar a saída, não permaneça sozinho no escuro.

E se você já não consegue acreditar que existe esperança para sua vida, olhe para Cristo.

Porque a esperança do cristão nunca esteve na força que ele possui, mas na graça daquele que o sustenta.

Eu um dia me sentei sozinho naquele beco perguntando:

“Como eu cheguei até aqui?”

Hoje, depois de tudo o que Deus fez, consigo olhar para trás e perguntar:

“Como Deus foi tão bondoso comigo?”

E a resposta continua sendo a mesma:

Graça.


Para refletir

Talvez você precise parar por alguns minutos e olhar honestamente para a sua própria vida.

Como eu cheguei até aqui?

Em que momento comecei a caminhar por esse caminho?

O que estou tentando esconder?

Existe algum pecado do qual preciso me arrepender?

Existe alguma dependência para a qual preciso buscar ajuda?

Existe alguém a quem preciso pedir perdão?

Estou tentando resolver sozinho algo que já reconheci que não consigo vencer sozinho?

E talvez a pergunta mais importante seja:

Se eu sei o que a Palavra de Deus ensina, o que preciso fazer com aquilo que já sei?

A sabedoria começa no temor do Senhor (Pv 9.10), mas ela precisa alcançar a vida. Não basta saber o caminho; precisamos caminhar nele.


Textos bíblicos para aprofundamento

João 8.31–36 — A verdade, a liberdade e a escravidão do pecado.
Provérbios 1.7 — O temor do Senhor como princípio do conhecimento.
Provérbios 3.13–18 — A sabedoria e o caminho de vida e paz.
Provérbios 9.10 — O temor do Senhor como princípio da sabedoria.
Mateus 7.24–27 — Ouvir e praticar as palavras de Cristo.
2 Samuel 11–12 — O pecado de Davi e suas consequências.
Salmo 51 — O arrependimento de Davi.
Mateus 26.69–75; João 21.15–19 — A queda e a restauração de Pedro.
1 Timóteo 1.12–16 — A misericórdia de Deus na vida de Paulo.
Miqueias 7.7–8 — A esperança daquele que caiu.
Lucas 15.11–24 — O filho que caiu em si e voltou para o pai.
Salmo 40.1–3 — O Senhor e o poço de perdição.
1 João 1.9 — Confissão e perdão.
Romanos 8.1 — Nenhuma condenação para os que estão em Cristo.


Kleiton Fonseca é teólogo e pesquisador de tradição reformada. Dedica-se ao estudo das Escrituras, da teologia e da história da Igreja, buscando aplicar a fé cristã às questões concretas enfrentadas pelo ser humano. Neste projeto, propõe uma reflexão bíblica e pastoral sobre sofrimento, dor, esperança e cuidado com o próximo.

ORCID: https://orcid.org/0009-0006-3665-5

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Nota de cuidado

Este artigo tem caráter bíblico, educativo e pastoral. Ele não substitui acompanhamento médico, psicológico, psiquiátrico ou tratamento especializado. Dependências podem exigir tratamento profissional e acompanhamento contínuo. Buscar ajuda não significa abandonar a fé.

Se você ou alguém próximo estiver em risco imediato, não permaneça sozinho e procure atendimento de emergência. No Brasil, o SAMU atende pelo 192. O CVV atende pelo 188, gratuitamente, 24 horas por dia.

Cristo é nossa esperança. E a graça de Deus não deixa de alcançar aqueles que chegaram ao fundo do poço.

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