🌻 SETEMBRO AMARELO — A DOR QUE NINGUÉM VÊ / ARTIGO 08 — QUANDO A DOR PROCURA UMA SAÍDA Automutilação: quando as marcas do corpo revelam uma dor que ninguém vê

 


🌻 SETEMBRO AMARELO — A DOR QUE NINGUÉM VÊ

ARTIGO 08 — QUANDO A DOR PROCURA UMA SAÍDA

Automutilação: quando as marcas do corpo revelam uma dor que ninguém vê

“Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido.”
Salmo 34.18

Foi em meio a 2017 que tive minha atenção chamada para algo que, como pastor de igreja e, para ser sincero, também como cristão, eu ainda não havia observado com a devida atenção. Foi naquele período em que uma série de jogos e desafios relacionados à chamada “Baleia Azul” ganhou grande repercussão, e comecei a perceber uma realidade que me chamou profundamente a atenção: vários jovens estavam sendo levados a comportamentos de risco, atentando contra a própria vida e, algo que para mim foi ainda mais doloroso, praticando a automutilação.

Essa realidade me afetou de tal maneira que começamos a ter contato e a acompanhar algumas pessoas que descobrimos estar praticando esse tipo de ato. Isso acabou despertando em mim algo que eu ainda não havia percebido. Começamos uma série de programações na igreja e também palestras e atividades educativas em centros sociais e escolas, procurando conscientizar pais e jovens sobre essa prática. Eu não imaginava que aquela realidade fosse muito mais comum do que eu pensava.

Tivemos a oportunidade de acompanhar de perto uma jovem que praticava automutilação, e reconheço, com toda sinceridade, que nós, pastores, também não estávamos preparados para lidar com uma situação como aquela. Quando você prega ou fala sobre o assunto, é muito diferente de ter alguém próximo de você carregando aquelas marcas. Você ora, exorta, conversa, chama a pessoa ao arrependimento e, muitas vezes, percebe uma melhora durante algum tempo. Mas depois aquilo pode voltar. E é nesse momento que percebemos que estamos diante de uma dor muito mais profunda do que imaginávamos.

Aquelas marcas ficaram tão profundas em nossa experiência que, depois que essa jovem que estava sob nossa orientação mudou-se para outro estado, tivemos uma nova experiência muito dolorosa dentro da nossa própria família, envolvendo uma de nossas filhas. E foi então que compreendemos ainda mais de perto que falar sobre automutilação é muito diferente de conviver com alguém que está passando por isso.

Uma conclusão que podemos tirar dessa experiência é que uma pessoa que pratica automutilação precisa, com urgência, ser cercada de cuidado, amor e compreensão. A recuperação não acontece simplesmente porque encontramos uma palavra certa ou fazemos uma única oração. É um processo que pode exigir muito amor, entendimento, oração, acompanhamento e persistência. Muitas vezes, amar, compreender e permanecer ao lado daquela pessoa pode comunicar muito mais do que qualquer palavra isolada poderia fazer.

Aos pais que têm filhos passando por isso, talvez seja necessário, em alguns momentos, abrir mão da autoridade exercida apenas por meio da cobrança e aprender a se aproximar pela compreensão. É necessário amar mais do que simplesmente corrigir verbalmente. É necessário aprender aquilo que Paulo escreveu: “Chorai com os que choram” (Rm 12.15). E somente quem já passou por uma situação assim sabe o quanto isso pode ser difícil.

Como cristão reformado, eu sei e confesso que o pecado entrou no mundo e que, por causa da Queda, toda a criação está marcada pelo sofrimento e pela morte. Mas também aprendi que tratar uma pessoa que está sofrendo exige mais do que simplesmente dizer palavras corretas. O chamado ao arrependimento continua sendo parte da mensagem cristã, mas ele não pode ser reduzido a uma frase lançada de longe para alguém que está ferido. Há momentos em que o chamado é para caminhar junto, amar, ouvir, orar, compreender, perseverar e ajudar aquela pessoa a encontrar o cuidado de que necessita.

A automutilação é uma realidade que precisa ser levada a sério. Não devemos olhar para uma pessoa que se machuca e imediatamente concluir que ela está simplesmente procurando chamar atenção, que não tem fé ou que precisa apenas “parar com isso”. Muitas vezes, aquilo que vemos no corpo é apenas a parte visível de uma dor que não conseguimos enxergar. A pessoa pode estar enfrentando sentimentos, conflitos, traumas, desesperança, ansiedade, vergonha ou outras dificuldades que precisam ser compreendidas e avaliadas com cuidado. Somente um profissional qualificado poderá avaliar clinicamente o que está acontecendo.

Isso também nos ajuda a compreender por que a automutilação não deve ser automaticamente confundida com uma tentativa de suicídio. São comportamentos diferentes, embora possam estar relacionados e ambos mereçam atenção. Uma pessoa que pratica automutilação pode não estar tentando morrer, mas isso não significa que devemos minimizar o que está acontecendo. Pelo contrário: qualquer comportamento de autolesão é um sinal de sofrimento que merece ser levado a sério. E quando houver fala sobre morte, desejo de desaparecer, intenção de tirar a própria vida ou qualquer situação de risco imediato, não devemos esperar que aquilo simplesmente passe. É necessário buscar ajuda de emergência.

É aqui que a igreja precisa aprender uma importante lição. Nós não fomos chamados para escolher entre oração e cuidado profissional. Não precisamos colocar a Bíblia de um lado e a medicina ou a psicologia do outro. Podemos orar e também procurar ajuda. Podemos abrir as Escrituras e também procurar um psicólogo, um psiquiatra ou um serviço de saúde quando isso for necessário. Procurar ajuda não significa abandonar a fé. Deus continua sendo Deus quando buscamos os meios de cuidado que Ele permite que existam.

A Bíblia nunca apresenta o sofrimento humano como algo que devemos tratar com indiferença. Quando Paulo diz: “Chorai com os que choram” (Rm 12.15), ele não está dizendo para resolvermos rapidamente o sofrimento de alguém. Ele está nos ensinando a permanecer próximos. Gálatas 6.2 diz: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo.” Isso significa que a igreja não deve apenas falar sobre quem sofre; ela precisa aprender a caminhar com quem sofre.

Talvez essa seja uma das maiores dificuldades que enfrentamos como cristãos. É muito fácil dar uma resposta quando estamos olhando o sofrimento de longe. É fácil dizer “ore mais”, “tenha fé”, “confie em Deus”, “isso vai passar”. Todas essas palavras podem ter seu lugar, mas uma pessoa ferida nem sempre precisa primeiro de uma explicação. Algumas vezes ela precisa encontrar alguém disposto a sentar ao seu lado e dizer: “Eu estou aqui. Vamos passar por isso juntos.”

Isso não significa abandonar a verdade bíblica. Pelo contrário. Significa aplicar a verdade bíblica de maneira cristã. Cristo nunca nos ensinou uma fé sem compaixão. O próprio Senhor Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro (Jo 11.35). Ele viu pessoas sofrendo e não tratou suas lágrimas como uma inconveniência. Ele teve compaixão dos que estavam aflitos.

Por isso, quando uma pessoa chega até nós carregando marcas que não conseguimos compreender, precisamos ter cuidado para não transformar imediatamente aquela pessoa em um problema que precisa ser corrigido. Antes de perguntar “o que há de errado com você?”, talvez devêssemos perguntar: “O que está acontecendo com você?” Existe uma diferença enorme entre essas duas perguntas. A primeira pode produzir vergonha. A segunda pode abrir uma porta para a conversa.

E aos pais eu gostaria de dizer algo com muito carinho: se seu filho ou sua filha está passando por isso, não transforme a casa em um tribunal. A disciplina continua tendo seu lugar, a autoridade dos pais continua sendo importante, mas existe uma hora em que a autoridade precisa saber se aproximar da dor. Seu filho não precisa apenas saber que aquilo está errado; ele precisa saber que, mesmo diante daquilo que está errado, ele não deixou de ser amado por você.

Isso não significa aprovar a automutilação. Amar não é concordar com tudo. Compreender não é chamar o errado de certo. Ter compaixão não significa abandonar a verdade. Significa tratar uma pessoa ferida como alguém que precisa de cuidado enquanto enfrenta aquilo que está acontecendo. Podemos corrigir sem humilhar. Podemos orientar sem ameaçar. Podemos estabelecer limites sem destruir a confiança. Podemos dizer “isso precisa parar” e, ao mesmo tempo, dizer “eu não vou abandonar você enquanto procuramos ajuda”.

E talvez seja justamente aqui que precisamos compreender melhor o que significa falar de Cristo para alguém que sofre. A mensagem cristã não é apenas uma sequência de palavras que pronunciamos diante de uma pessoa em crise. Cristo também é apresentado através da maneira como amamos. Quando ouvimos, quando permanecemos, quando oramos, quando acompanhamos uma consulta, quando ajudamos uma família a procurar atendimento, quando nos recusamos a abandonar alguém porque seu sofrimento se tornou difícil demais, estamos demonstrando, de maneira prática, algo do amor que recebemos de Cristo.

Eu continuo acreditando, como cristão reformado, que precisamos levar o pecado a sério. A Queda explica por que vivemos em um mundo quebrado, marcado pela morte, pelo sofrimento e por tantas consequências terríveis do pecado. Mas reconhecer a realidade do pecado não nos autoriza a olhar para uma pessoa ferida e enxergar apenas um pecador que precisa ser repreendido. Nós também precisamos enxergar alguém que está sofrendo e que precisa ser amado.

O evangelho nos ensina que Cristo veio ao encontro de pecadores e sofredores. Ele não veio para nos ensinar simplesmente a esconder nossas feridas, mas para nos conduzir à verdadeira esperança. E nossa esperança não está em fingirmos que está tudo bem. Nossa esperança está em Cristo, que conhece nossa fraqueza, sustenta seu povo e caminha conosco até o dia em que toda dor será definitivamente vencida.

Por isso, meu irmão, se você está lendo este artigo e carrega marcas que ninguém conhece, eu quero que você saiba que não precisa enfrentar isso sozinho. Talvez você tenha vergonha. Talvez tenha medo de contar. Talvez pense que ninguém vai compreender. Mas procure alguém em quem possa confiar e permita que essa pessoa caminhe com você. Procure ajuda profissional. Converse com seu pastor. Converse com seus pais, familiares ou alguém de confiança. Não esconda uma dor que está ficando pesada demais para carregar sozinho.

E se você é pai, mãe, pastor, líder ou amigo de alguém que está passando por isso, não desista dessa pessoa. Talvez você não saiba exatamente o que dizer. Tudo bem. Você não precisa ter todas as respostas. Algumas vezes, o amor cristão começa simplesmente quando decidimos permanecer ao lado de alguém enquanto buscamos, juntos, o cuidado necessário.

A dor que ninguém vê também precisa ser ouvida.

E talvez seja justamente isso que Deus esteja nos ensinando neste Setembro Amarelo: que cuidar de quem sofre não é uma tarefa distante da nossa fé. Amar, ouvir, orar, acompanhar e buscar ajuda também são formas de levar as cargas uns dos outros.

Cristo é nossa esperança. E, enquanto caminhamos neste mundo marcado pela dor, somos chamados não apenas a falar sobre o amor de Cristo, mas a demonstrá-lo na maneira como cuidamos uns dos outros.

“Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo.” 

Gálatas 6.2


Kleiton Fonseca é teólogo e pesquisador de tradição reformada. Dedica-se ao estudo das Escrituras, da teologia e da história da Igreja, buscando aplicar a fé cristã às questões concretas enfrentadas pelo ser humano. Neste projeto, propõe uma reflexão bíblica e pastoral sobre sofrimento, dor, esperança e cuidado com o próximo.

ORCID: [https://orcid.org/0009-0006-3665-5924] 


Nota de cuidado

Este artigo tem caráter educativo, bíblico e pastoral e não substitui avaliação ou tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico. Automutilação é um sinal de sofrimento que merece atenção. Em situação de risco imediato, especialmente quando houver possibilidade de suicídio, procure atendimento de emergência. No Brasil, o SAMU atende pelo 192 e o CVV pelo 188, oferecendo apoio emocional 24 horas.

SETEMBRO AMARELO — A DOR QUE NINGUÉM VÊ
Porque algumas marcas aparecem no corpo, mas a dor começou muito antes.

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