Deus e o Pecado: A Questão da Autoria do Mal

 



Deus e o Pecado: A Questão da Autoria do Mal

Por Kleiton Fonseca

🔗 ORCID: https://orcid.org/0009-0006-3665-5924  

A existência do pecado constitui uma das questões mais difíceis de toda a teologia cristã. Se Deus é soberano sobre todas as coisas, se nada acontece fora de seu governo providencial e se ele possui poder absoluto para impedir qualquer acontecimento, por que o pecado existe? Por que Deus permitiu a entrada do mal no mundo? E, em uma formulação ainda mais difícil, se Deus decretou soberanamente tudo quanto acontece, isso não faria de Deus, de alguma maneira, o autor do pecado? (Dt 32.4; Sl 115.3; Is 46.9-10; Ef 1.11)

Essas perguntas não são meramente exercícios de filosofia abstrata. Elas surgem diante da realidade concreta do sofrimento humano. Aparecem quando contemplamos a violência, a injustiça, a morte, a corrupção, a traição e todas as consequências da queda. (Gn 3.16-19; Rm 5.12; Rm 8.20-22) Tornam-se ainda mais difíceis quando lembramos que a teologia reformada afirma, com grande ênfase, a soberania absoluta de Deus. Se Deus governa todas as coisas, inclusive os acontecimentos da história humana, como podemos afirmar que o pecado é realmente responsabilidade da criatura e, ao mesmo tempo, está incluído no decreto soberano de Deus? (At 2.23; At 4.27-28; Ef 1.11)

A dificuldade se torna ainda maior porque existem duas afirmações bíblicas que, quando isoladas de seu contexto teológico, parecem entrar em conflito. De um lado, as Escrituras afirmam que Deus é soberano e que nada escapa ao seu propósito. (Jó 42.2; Pv 16.9; Is 46.10; Ef 1.11) De outro, afirmam categoricamente que Deus é santo, que não pratica o mal, que não tenta ninguém ao pecado e que não pode ser culpado pela transgressão humana. (Hc 1.13; Tg 1.13; 1Jo 1.5) A solução cristã não está em abandonar nenhuma dessas verdades, mas em compreender como elas se relacionam.

A teologia reformada sempre reconheceu que estamos diante de um mistério profundo. Entretanto, mistério não significa contradição. Não somos obrigados a escolher entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. A Escritura apresenta ambas as realidades simultaneamente. (Gn 50.20; At 2.23; At 4.27-28) O desafio teológico consiste em não explicar uma delas de maneira que destrua a outra.

O primeiro ponto que precisa ser estabelecido é absolutamente fundamental: Deus não é o autor moral do pecado. A Bíblia não deixa espaço para qualquer concepção segundo a qual Deus seja pecador, aprove moralmente o pecado ou tente suas criaturas a praticá-lo. Tiago afirma de maneira explícita: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1.13). Poucos textos poderiam ser mais claros. (Dt 32.4; Sl 92.15; 1Jo 1.5)

A santidade de Deus não é um atributo secundário que possa ser colocado em suspensão para preservar uma determinada concepção de soberania. Deus é essencialmente santo. (Is 6.3; Ap 4.8) Seu ser é absolutamente puro, sua vontade é perfeitamente justa e suas obras são sempre compatíveis com sua natureza. (Dt 32.4; Sl 145.17; Hc 1.13). Portanto, qualquer modelo teológico que transforme Deus em pecador, enganador ou agente moralmente culpável do mal deve ser rejeitado.

Isso, contudo, não resolve imediatamente a dificuldade. Alguém poderia responder: se Deus não é o autor do pecado, por que decretou que ele aconteceria? Se Deus poderia impedir a queda, mas decidiu não fazê-lo, não seria ele responsável pelo resultado? (Gn 3.1-24; Rm 9.18-23)

Essa pergunta nos obriga a distinguir cuidadosamente entre decreto divino, providência divina, causalidade e responsabilidade moral. Sem essas distinções, a discussão rapidamente se transforma em uma simplificação inadequada da doutrina reformada. (Dt 29.29; Ef 1.11; At 17.24-28)

A teologia reformada confessa que Deus, em sua providência, governa todas as coisas. Nada acontece independentemente de sua vontade soberana. (Mt 10.29-30; Pv 16.9; Pv 19.21; Ef 1.11) A Confissão de Fé de Westminster afirma que Deus ordenou tudo quanto acontece e que, ao mesmo tempo, essa ordenação não faz de Deus o autor do pecado, nem viola a vontade das criaturas. A doutrina não apresenta dois deuses — um soberano e outro responsável pelo mal —, mas procura compreender como o Deus soberano governa acontecimentos que, considerados do ponto de vista moral da criatura, são verdadeiramente pecaminosos.

Aqui precisamos fazer uma distinção importante entre causalidade soberana e culpa moral. Deus pode ordenar soberanamente que determinado acontecimento ocorra sem que, por isso, a maldade moral presente na ação pertença a Deus. A criatura realiza o ato com suas próprias intenções, desejos e disposições. Deus, por sua vez, permanece soberano sobre o acontecimento e o dirige segundo seus propósitos. (Gn 50.20; At 2.23; At 4.27-28)

Essa distinção aparece de maneira extraordinariamente clara em Gênesis 50.20. José, falando aos seus irmãos depois de toda a história de sofrimento e escravidão, declara: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem”. O texto não dissolve uma intenção na outra. Os irmãos realmente intentaram o mal. Deus realmente governou o acontecimento. O mesmo acontecimento possuía, portanto, duas dimensões intencionais distintas. (Gn 45.5-8; Gn 50.20)

Os irmãos foram responsáveis pelo mal que desejaram e praticaram. Deus, entretanto, não compartilhou dessa intenção pecaminosa. Seu propósito era diferente: utilizar aquele mesmo acontecimento para preservar vidas e cumprir seu propósito providencial. (Gn 45.7-8; Gn 50.20)

Essa estrutura bíblica é extremamente importante. Deus não precisa cometer o mal para governar um acontecimento mau. Ele não precisa aprovar a intenção pecaminosa da criatura para utilizar a ação da criatura em seus próprios propósitos. A criatura pode agir com uma intenção má, enquanto Deus dirige soberanamente o acontecimento para um propósito justo. (1Rs 22.19-23; At 2.23; At 4.27-28)

O exemplo supremo dessa realidade encontra-se na cruz de Cristo.

A crucificação do Senhor Jesus Cristo é, simultaneamente, o maior crime cometido pela humanidade e o centro do plano redentor de Deus. (At 2.23; At 4.10-12,27-28) Os homens que entregaram Jesus agiram pecaminosamente. Judas traiu Cristo. (Mt 26.14-16,47-50) Os líderes religiosos conspiraram contra ele. (Mt 26.3-4; Mc 14.1-2) Pilatos entregou um inocente. (Lc 23.4,14-16,20-24) A multidão clamou por sua crucificação. (Mc 15.12-15; Jo 19.14-16) Todos esses atos envolveram responsabilidade humana real.

Entretanto, quando a igreja primitiva interpretou esses acontecimentos, não os apresentou como uma derrota inesperada de Deus. Em Atos 4.27-28, os cristãos oram reconhecendo que Herodes, Pôncio Pilatos, os gentios e os povos de Israel se reuniram contra Jesus, “para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram”.

Aqui encontramos uma das afirmações mais impressionantes de toda a Escritura sobre a relação entre soberania divina e responsabilidade humana. O acontecimento foi determinado pelo propósito de Deus, mas os agentes humanos continuaram sendo moralmente culpáveis. A soberania divina não anulou a responsabilidade humana; tampouco a responsabilidade humana anulou a soberania divina. (At 2.23; At 3.13-15; At 4.27-28)

A mesma verdade aparece em Atos 2.23, quando Pedro afirma que Jesus foi entregue “pelo determinado desígnio e presciência de Deus”, mas imediatamente responsabiliza os ouvintes: “vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos”. Pedro não vê contradição entre essas duas afirmações. A cruz estava no plano soberano de Deus e, simultaneamente, os homens que praticaram o crime eram culpáveis. (At 2.23; At 3.14-15)

Esse é um dos pontos nos quais a teologia reformada encontra sua fundamentação bíblica mais forte. Não estamos diante de uma especulação construída para salvar uma doutrina previamente estabelecida. Estamos diante de uma estrutura interpretativa presente na própria narrativa bíblica.

A pergunta, então, precisa ser reformulada. Em vez de perguntar simplesmente “Deus causou o pecado?”, devemos perguntar: em que sentido estamos utilizando a palavra “causar”?

Se por “causar” entendemos que Deus produz em suas criaturas uma disposição moral pecaminosa, que Deus deseja o pecado enquanto pecado ou que Deus compartilha da culpa moral do pecador, a resposta deve ser categoricamente negativa. Deus não é pecador e não pode ser culpado pelo pecado. (Dt 32.4; Sl 5.4; Hc 1.13; Tg 1.13-17)

Se, entretanto, entendemos causalidade em termos de governo providencial, sustentação da existência da criatura e determinação soberana de que determinado acontecimento ocorra dentro da história, então a teologia reformada afirma que nenhum acontecimento escapa ao governo de Deus. (Ne 9.6; At 17.25-28; Ef 1.11; Hb 1.3)

Essa distinção pode parecer sofisticada, mas é necessária para preservar o testemunho bíblico. A alternativa seria cair em um dos dois extremos. O primeiro seria transformar Deus no autor moral do pecado. O segundo seria transformar o pecado em um acontecimento completamente independente de Deus, como se houvesse uma região da realidade na qual a soberania divina não penetrasse. (Sl 115.3; Sl 135.6; Is 46.9-10)

Nenhum dos dois extremos é compatível com a teologia bíblica.

A Escritura não apresenta Deus como um espectador impotente diante do mal. Ele não simplesmente observa a história humana de fora, esperando para descobrir o que suas criaturas decidirão. Deus é Senhor da história. Ele conhece o fim desde o princípio e governa todas as coisas segundo seu propósito. (Is 46.9-10; Sl 33.10-11; Ef 1.11)

Ao mesmo tempo, a Bíblia também não apresenta as criaturas como simples marionetes moralmente inocentes. Quando pecam, pecam verdadeiramente. Quando odeiam, odeiam verdadeiramente. Quando conspiram, conspiram verdadeiramente. Quando praticam injustiça, são realmente culpáveis. (Gn 3.6-13; Rm 1.18-32; Tg 1.14-15)

Essa realidade exige uma compreensão adequada da vontade humana. A tradição reformada não ensina que o ser humano seja uma máquina que age contra seus próprios desejos. Pelo contrário, o homem caído age voluntariamente. O problema é que sua vontade está corrompida pelo pecado. (Gn 6.5; Jr 17.9; Jo 8.34; Ef 2.1-3) O pecador não precisa ser coagido externamente para pecar; ele peca porque deseja pecar. (Tg 1.14-15; Jo 3.19-20)

É justamente por isso que a responsabilidade moral permanece. A incapacidade espiritual do homem caído não transforma suas ações em atos moralmente neutros. A criatura age segundo sua própria natureza e seus próprios desejos. Ela escolhe aquilo que deseja, ainda que seus desejos estejam corrompidos pelo pecado. (Rm 1.24-25,28-32; Ef 4.17-19)

Isso é diferente da ideia filosófica de uma liberdade absolutamente independente de qualquer determinação anterior. A teologia reformada não necessita dessa liberdade libertária para explicar a responsabilidade humana. O ser humano é responsável porque suas ações procedem de sua própria vontade, intenções e desejos, e não porque sua vontade seja metafisicamente independente do governo de Deus. (Mt 12.33-37; Rm 14.12; 2Co 5.10)

Essa distinção ajuda a compreender novamente a crucificação. Deus não precisou inserir maldade no coração dos homens para que eles crucificassem Cristo. Os homens já eram pecadores. Sua própria hostilidade contra Cristo os levou a agir de maneira perversa. (Jo 15.18-25; At 3.13-15) Deus, em sua providência, não precisou tornar pecadores aqueles que já eram pecadores. Ele simplesmente governou soberanamente aquilo que eles, por sua própria disposição pecaminosa, fizeram. (At 2.23; At 4.27-28)

Isso nos conduz à questão da chamada “permissão divina”. A linguagem da permissão é útil, mas precisa ser utilizada com cuidado. Se imaginarmos que Deus simplesmente “permite” acontecimentos no sentido de permanecer passivo e não exercer qualquer governo sobre eles, essa definição não corresponde à doutrina reformada da providência.

A permissão divina não é uma espécie de retirada temporária da soberania. Deus não deixa de governar quando criaturas pecam. Ele permite o pecado no sentido de não impedi-lo, mas continua sustentando e governando o universo em que esse pecado ocorre. Nada escapa ao seu conhecimento ou ao seu governo providencial. (Sl 103.19; Mt 10.29-31; At 17.25-28; Hb 1.3)

Ao mesmo tempo, dizer que Deus permite o pecado não significa dizer que ele o aprova. Essa diferença é fundamental. (Sl 5.4; Hc 1.13; Rm 1.32)

A Bíblia frequentemente distingue aquilo que Deus determina soberanamente que aconteça daquilo que Deus ordena moralmente que suas criaturas façam. Deus pode decretar que determinado pecado aconteça sem ordenar que a criatura peque. (Gn 50.20; At 2.23; At 4.27-28)

Essa distinção pode ser observada na própria cruz. Deus determinou que Cristo seria entregue à morte. Entretanto, isso não significa que Deus tenha dado aos responsáveis pela crucificação um mandamento moral para assassinar o Filho de Deus. O acontecimento fazia parte do decreto redentor; o pecado dos agentes humanos continuava sendo pecado. (At 2.23; At 4.27-28; Is 53.10-12)

Podemos, portanto, falar em diferentes sentidos da vontade divina. A tradição reformada utiliza frequentemente a distinção entre a vontade decretiva e a vontade preceptiva de Deus. A vontade decretiva diz respeito ao que Deus soberanamente determinou que aconteceria. (Ef 1.11; Rm 8.28-30) A vontade preceptiva diz respeito aos seus mandamentos, isto é, aquilo que ele ordena moralmente às suas criaturas. (Dt 5.32-33; Mq 6.8; Mt 22.37-40)

Não existe contradição entre essas duas dimensões. Deus pode decretar que determinado pecado aconteça sem ordenar que a criatura peque. Ele pode governar providencialmente um acontecimento sem aprovar moralmente a intenção pecaminosa envolvida nele. (Gn 50.20; At 2.23; At 4.27-28)

Um exemplo simples pode ajudar. Deus pode decretar soberanamente que um determinado crime aconteça dentro da história e, posteriormente, utilizar esse acontecimento para realizar um propósito justo. Isso não significa que Deus tenha cometido o crime ou que tenha declarado o crime moralmente bom. A bondade do propósito final não transforma o pecado intermediário em virtude. (Gn 50.20; Rm 3.8)

Esse ponto precisa ser enfatizado porque uma resposta inadequada ao problema do mal pode facilmente produzir uma forma de consequencialismo teológico: a ideia de que, se Deus utiliza um pecado para produzir um bem, então o pecado deixa de ser verdadeiramente mau. A Bíblia jamais ensina isso.

José não disse aos seus irmãos: “Vocês não fizeram nada errado porque Deus usou o acontecimento para o bem”. Ele disse exatamente o contrário: “Vós intentastes o mal contra mim; Deus, porém, o tornou em bem”. O mal continuava sendo mal na intenção humana, enquanto Deus continuava sendo soberano sobre o resultado. (Gn 50.20)

Da mesma forma, a cruz não transforma a traição de Judas em um ato moralmente correto. O fato de Deus ter utilizado o pecado humano para realizar a redenção não absolve os pecadores de sua culpa. A providência divina transforma o significado histórico do acontecimento, mas não transforma moralmente o pecado em justiça. (Mt 26.24; At 2.23; At 4.27-28)

Aqui encontramos uma das maiores diferenças entre o cristianismo bíblico e certas tentativas filosóficas de solucionar o problema do mal. A fé cristã não precisa afirmar que o mal é, em si mesmo, uma ilusão, nem que o mal é necessário para que o bem exista. Tampouco precisa afirmar que Deus desconhecia o que aconteceria ou que foi surpreendido pela queda. (Is 46.9-10; At 15.18)

A teologia reformada afirma algo muito mais profundo: Deus é suficientemente soberano para governar até mesmo aquilo que ele moralmente odeia, sem se tornar moralmente culpado pelo pecado que suas criaturas praticam. (Gn 50.20; At 2.23; At 4.27-28)

Isso não significa que conheçamos todas as razões pelas quais Deus permite cada acontecimento específico. Aqui a humildade teológica é indispensável. Podemos afirmar com segurança aquilo que Deus revelou; não devemos inventar explicações para aquilo que ele não revelou. (Dt 29.29; Rm 11.33-36)

Sabemos que Deus é soberano. Sabemos que Deus é santo. Sabemos que o pecado é realmente mau. Sabemos que as criaturas são moralmente responsáveis. Sabemos que Deus utiliza até mesmo acontecimentos maus para cumprir propósitos bons. Sabemos, sobretudo, que a cruz demonstra de maneira suprema essa realidade. (Gn 50.20; At 2.23; At 4.27-28; Rm 8.28)

Mas não sabemos explicar exaustivamente por que Deus permitiu cada sofrimento específico da história. Não sabemos por que determinado indivíduo sofreu determinada tragédia ou por que determinada forma de mal foi incluída no curso da providência. A teologia responsável não transforma o silêncio das Escrituras em licença para especulação. (Dt 29.29; Jó 38–42; Rm 11.33-34)

Essa humildade é especialmente importante pastoralmente. Quando alguém está diante da morte de um filho, de uma doença devastadora, de uma violência ou de uma injustiça profunda, uma resposta puramente filosófica pode ser intelectualmente inadequada e espiritualmente cruel. Dizer simplesmente que “tudo acontece por uma razão” pode ser verdadeiro em determinado sentido teológico, mas pode se tornar uma frase vazia quando pronunciada sem compaixão e sem a centralidade da cruz. (Rm 12.15; 2Co 1.3-4; Gl 6.2)

O cristianismo não responde ao sofrimento apenas com uma teoria. Responde apresentando o próprio Deus que entrou na história humana em Cristo. (Jo 1.14; Hb 4.15; Hb 2.14-18)

A cruz é o centro da resposta cristã ao problema do mal porque nela vemos, simultaneamente, a gravidade do pecado, a soberania de Deus, a justiça divina, o amor de Deus e a redenção dos pecadores. (Is 53.4-6,10-12; Rm 3.21-26; Rm 5.6-11) O pior ato de injustiça humana tornou-se, pela soberania de Deus, o instrumento da maior manifestação de graça da história.

Isso não significa que a cruz explique cada sofrimento individual. Significa que ela estabelece um fundamento para confiar no caráter de Deus mesmo quando não compreendemos seus caminhos. (Rm 8.32; Rm 11.33-36)

A pergunta “Por que Deus permite o mal?” muitas vezes carrega uma segunda pergunta escondida: “Posso confiar em Deus quando não compreendo o que ele está fazendo?”. A resposta cristã encontra sua segurança não na capacidade humana de explicar todos os decretos divinos, mas no caráter daquele que decreta. (Dt 29.29; Jó 13.15; Sl 13.5-6)

O Deus que governa todas as coisas é o mesmo Deus que entregou seu próprio Filho para salvar pecadores. (Rm 8.32) O Deus cuja providência frequentemente ultrapassa nossa compreensão é o Deus cuja santidade jamais falha. (Dt 32.4; Rm 11.33) O Deus que permite acontecimentos que nos parecem inexplicáveis é o Deus que revelou suficientemente seu caráter para que possamos confiar nele. (Sl 145.17; Rm 8.28)

Isso nos impede de transformar a soberania divina em fatalismo. Fatalismo diz, em essência, que os acontecimentos simplesmente acontecem e que não há propósito pessoal ou moral por trás deles. A providência bíblica é completamente diferente. O universo não está abandonado ao acaso. A história possui um Senhor. (Sl 115.3; Sl 135.6; Ef 1.11)

Também nos impede de transformar a soberania em determinismo mecanicista. Deus não governa o mundo como uma máquina impessoal. Ele governa como o Deus sábio, santo, justo e pessoal. Sua providência não elimina a realidade das causas secundárias, das decisões humanas ou da responsabilidade moral. (At 17.24-28; Pv 16.9; Mt 10.29-31)

A doutrina reformada, portanto, não afirma que Deus seja moralmente responsável pelo pecado porque o pecado ocorre dentro de seu decreto. Afirma algo mais cuidadoso: Deus ordenou soberanamente tudo quanto acontece, mas de tal maneira que ele não é o autor do pecado, não pratica o pecado e não aprova moralmente aquilo que ele proíbe. (Tg 1.13; Dt 32.4; Ef 1.11; 1Jo 1.5)

A diferença entre essas afirmações é decisiva.

Deus determina o acontecimento; a criatura realiza o ato pecaminoso. Deus governa a história; a criatura permanece responsável por sua intenção. Deus utiliza o mal para seus propósitos santos; o pecador continua culpável por desejar e praticar o mal. Deus dirige todas as coisas para sua glória; isso não significa que o pecado se torne bom. (Gn 50.20; At 2.23; At 4.27-28; Rm 3.8)

Gênesis 50.20 oferece uma síntese extraordinária: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem”. A mesma história contém uma intenção má e uma intenção santa, um ato pecaminoso e uma providência soberana, uma responsabilidade humana e um propósito divino.

A cruz leva essa estrutura ao seu ponto máximo. Aqueles que crucificaram Cristo não estavam fora da providência divina, mas Deus também não compartilhou de sua perversidade. O acontecimento que, do ponto de vista humano, parecia representar a derrota do Messias era precisamente o meio estabelecido por Deus para realizar a redenção. (At 2.23; At 4.27-28; 1Co 2.7-8)

Por isso, a resposta reformada ao problema do mal não consiste em explicar completamente o mistério, mas em afirmar com precisão tudo aquilo que a Escritura nos permite afirmar. Deus é soberano. Deus é santo. Deus não é autor do pecado. O pecado é verdadeiramente mau. As criaturas são verdadeiramente responsáveis. Deus governa providencialmente até mesmo os acontecimentos pecaminosos. E, finalmente, Deus é capaz de conduzir a história para um fim perfeitamente justo e glorioso. (Dt 32.4; Gn 50.20; At 2.23; Rm 8.28; Ap 21.1-5)

Devemos, contudo, evitar uma formulação excessivamente simplista segundo a qual “Deus permite o mal porque sempre existe um bem maior que podemos identificar”. Nem sempre conhecemos esse bem. Em muitos casos, talvez nunca o conheçamos nesta vida. O que a fé cristã afirma é que Deus possui razões sábias e santas para aquilo que permite e que nenhuma dessas razões pode transformar Deus em autor moral do pecado. (Dt 29.29; Rm 11.33-36)

A soberania divina não torna o mal menos doloroso. Também não torna o pecado menos grave. Ela significa que o mal não possui a palavra final. (1Co 15.25-26; Ap 21.4)

A história bíblica começa com um mundo criado bom, passa pela tragédia da queda, alcança a cruz e caminha para a consumação em que Deus fará novas todas as coisas. (Gn 1.31; Gn 3.1-24; Rm 5.12; Ap 21.1-5) O pecado é real, o sofrimento é real e a morte é um inimigo real. (Rm 6.23; 1Co 15.26) Mas nenhum deles é soberano.

Somente Deus é soberano. (Sl 103.19; 1Tm 6.15-16; Ap 19.6)

Essa talvez seja a resposta mais importante para a questão da autoria do mal. Se o pecado fosse um poder autônomo, independente de Deus, então haveria uma região da realidade na qual Deus não reina. Se Deus fosse o autor moral do pecado, então sua santidade seria destruída. A Escritura rejeita ambas as possibilidades. (Sl 115.3; Sl 135.6; Tg 1.13; 1Jo 1.5)

O Deus bíblico governa soberanamente sem ser pecador. Ele permite sem aprovar moralmente. Ele determina sem cometer. Ele utiliza sem compartilhar da culpa. Ele transforma o mal em instrumento de seus propósitos sem jamais chamar o mal de bem. (Gn 50.20; At 2.23; At 4.27-28; Rm 3.8)

E é justamente aqui que a doutrina da onipotência se conecta com a questão do mal. O poder de Deus não é um poder arbitrário separado de sua santidade. A onipotência divina é sempre o poder do Deus santo. (Sl 145.17; Is 6.3; Ap 4.8) Ele nunca precisa pecar para cumprir seus propósitos, nem precisa abandonar sua justiça para exercer sua soberania. (Dt 32.4; 2Tm 2.13)

A cruz permanece como a demonstração suprema dessa verdade. O maior ato de maldade praticado pelos homens foi, simultaneamente, o cenário no qual Deus realizou o maior ato de graça da história. Aqueles que agiram contra Cristo foram culpáveis; Deus, porém, estava cumprindo seu propósito redentor. (At 2.23; At 4.27-28; Rm 3.25-26)

Por isso, diante do problema do mal, a teologia reformada não oferece uma explicação que elimine todo mistério. Ela oferece uma estrutura bíblica na qual as verdades aparentemente difíceis permanecem juntas: Deus é absolutamente soberano, o homem é moralmente responsável, o pecado é verdadeiramente mau e Deus continua sendo perfeitamente santo. (Gn 50.20; At 2.23; At 4.27-28; Tg 1.13)

Talvez nunca consigamos responder plenamente à pergunta “por que Deus permitiu este mal específico?”. Mas podemos responder a uma pergunta ainda mais fundamental: podemos confiar no Deus que governa todas as coisas?

A resposta cristã encontra-se não em nossa capacidade de compreender todos os decretos eternos de Deus, mas naquilo que Deus revelou de si mesmo. O Deus que governa a história é o Deus que se revelou em Cristo. (Jo 1.18; Jo 14.9; Hb 1.1-3) O Deus cujo propósito não podemos sondar completamente é o Deus cuja bondade foi demonstrada na cruz. (Rm 5.8; Rm 8.32)

Por isso, a soberania de Deus não deve levar o cristão ao desespero diante do mal, mas à confiança. O pecado não é soberano. O sofrimento não é soberano. A maldade humana não é soberana. O acaso não é soberano. (Sl 103.19; Ef 1.11)

Deus é soberano.

E se a cruz nos ensina alguma coisa sobre sua providência, é que aquilo que parece, aos olhos humanos, ser o triunfo definitivo do mal pode estar sendo conduzido pelas mãos do Deus Todo-Poderoso para a realização de um propósito que ultrapassa completamente nossa compreensão. (Gn 50.20; At 2.23; At 4.27-28; Rm 8.28)

A pergunta sobre a autoria do mal permanece difícil. E uma teologia séria não deve fingir que ela é simples. Mas a dificuldade não nos autoriza a abandonar aquilo que as Escrituras afirmam claramente. Deus continua sendo santo. Deus continua sendo soberano. O pecado continua sendo pecado. A criatura continua sendo responsável. E a providência divina continua conduzindo a história para o propósito estabelecido pelo próprio Deus. (Dt 29.29; Dt 32.4; Ef 1.11; Ap 21.1-5)

No fim, a resposta cristã não é a negação do mistério, mas a confiança no caráter daquele que está acima dele. (Rm 11.33-36; Jó 42.2)

O Deus que não nos revelou todas as razões de sua providência revelou-nos suficientemente quem ele é. E isso é suficiente para que, mesmo quando não compreendemos seus caminhos, possamos afirmar com Jó: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2).


Continue a Série: Objeções e Questões Difíceis

A questão do pecado e do mal está longe de ser a única dificuldade enfrentada pela teologia cristã. Ao longo desta série, continuaremos examinando algumas das objeções mais conhecidas e as perguntas mais difíceis levantadas contra a fé cristã e, particularmente, contra a doutrina bíblica da soberania e da onipotência de Deus.

Nos próximos artigos, abordaremos outras questões que exigem não apenas respostas rápidas, mas reflexão teológica séria, fundamentação bíblica e honestidade intelectual. Nosso objetivo não é esconder as dificuldades da fé, mas enfrentá-las à luz das Escrituras, distinguindo aquilo que podemos compreender daquilo que permanece como mistério diante da grandeza de Deus.

Se este artigo foi útil para você, não pare por aqui. Continue acompanhando a série “Objeções e Questões Difíceis” e aprofunde-se conosco nas perguntas que desafiam a mente, fortalecem a fé e nos conduzem a uma compreensão mais cuidadosa da revelação de Deus.

Leia os próximos artigos e acompanhe toda a série no blog do Instituto de Teologia Reformada John Wycliffe.

Porque uma fé sólida não teme perguntas difíceis; ela aprende a respondê-las com verdade, reverência e fidelidade às Escrituras.

Instituto de Teologia Reformada John Wycliffe
Soli Deo Gloria.

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