O Lado Ateu dos Cristãos Contemporâneos

 



O Lado Ateu dos Cristãos Contemporâneos

Quando a profissão de fé é contradita pelas obras

Por Kleiton Fonseca

Existe uma forma de ateísmo que não precisa de manifesto, não escreve livros, não organiza debates públicos e jamais ocuparia um púlpito para negar a existência de Deus. Ela não se declara. Ela simplesmente vive. E, com frequência, vive dentro da igreja.

Quando ouvimos a palavra ateísmo, o reflexo natural é pensar em alguém que afirma, com todas as letras, que Deus não existe — o cético declarado, o filósofo naturalista, o crítico da religião. Mas as Escrituras descrevem uma realidade mais inquietante e mais próxima de nós. O Salmo 14 não começa denunciando um sistema filosófico. Começa apontando para o coração: "Diz o insensato no seu coração: Não há Deus" (Sl 14.1). E o apóstolo Paulo, escrevendo a Tito sobre falsos mestres dentro da comunidade cristã, formula uma acusação ainda mais desconcertante: "Professam conhecer a Deus, mas negam-no por suas obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda boa obra" (Tt 1.16).

Esses dois textos, lidos em conjunto, abrem uma fresta perigosa e necessária. Perigosa, porque nenhum crente confortável deseja ser confrontado com ela. Necessária, porque sem essa fresta a fé cristã corre o risco de se tornar apenas um vocabulário — um conjunto de palavras corretas pronunciadas por uma vida que, na prática, já decidiu governar-se a si mesma.

Este artigo não pretende afirmar que todo cristão contemporâneo é, no sentido pleno, um ateu. Seria uma generalização tão injusta quanto teologicamente imprecisa. A proposta é mais cirúrgica: examinar a possibilidade de que exista, mesmo entre pessoas que professam sinceramente a fé cristã, um padrão de vida que funciona, na prática, como se Deus não existisse, não governasse e não julgasse. Entre a negação explícita da existência de Deus e a obediência plena à sua soberania, há um vasto território intermediário — e é nele que este texto pretende caminhar.

O ateísmo do coração: a leitura de Salmo 14:1

O texto hebraico do Salmo 14 não descreve primariamente um debate intelectual. A expressão "diz no seu coração" ('āmar bəlibbô) não indica um argumento silencioso de filosofia natural, mas uma disposição interior — um pensamento que nasce da vontade antes de nascer da razão. Na antropologia bíblica, o coração (lēb) não é apenas a sede das emoções, como tende a sugerir o uso contemporâneo da palavra; é o centro integrador da pessoa, onde convergem intelecto, vontade e afeto. Dizer algo "no coração" é assumi-lo como convicção prática, como princípio que orienta a existência, ainda que jamais seja verbalizado publicamente.

Isso muda substancialmente o alcance do versículo. O "insensato" (nābāl) do Salmo 14 não é, antes de tudo, alguém que fracassou num silogismo sobre a existência de Deus. É alguém moralmente desviado, que usa sua capacidade racional a serviço de uma rebelião previamente decidida. A tradição interpretativa reformada, apoiada em boa parte da exegese clássica, associa o termo nābāl a uma insensatez de natureza ética e espiritual — algumas propostas lexicográficas ligam a raiz à ideia de murchar ou definhar, sugerindo uma vida que perdeu vitalidade e fecundidade moral diante de Deus. É importante, contudo, reconhecer os limites dessa aproximação etimológica: associações desse tipo pertencem ao campo da hipótese linguística, não a uma certeza incontestável, e o sentido da palavra deve ser determinado, sobretudo, pelo seu uso no contexto imediato do Salmo e no restante do Antigo Testamento, onde nābāl designa reiteradamente uma insensatez moral, não uma mera limitação cognitiva.

O que o Salmo 14 apresenta, portanto, não é primeiro um problema de evidências insuficientes, mas um problema de coração corrompido que produz um pensamento interessado. O salmista não está descrevendo um ateísmo puramente teórico: ele descreve uma negação que nasce da vontade e se disfarça de conclusão racional. E é justamente por isso que o versículo continua sem transição abrupta: "Corromperam-se e praticaram obras abomináveis; não há quem faça o bem." A negação de Deus, no Salmo 14, não é um ponto de partida neutro — é, ao mesmo tempo, causa e sintoma de uma vida moralmente corrompida.

Da negação absoluta ao ateísmo funcional

A teologia cristã, ao refletir historicamente sobre as formas de negar a Deus, distinguiu categorias que ajudam a organizar esse fenômeno com mais precisão. Podemos falar de uma negação quoad existentiam — quando se nega que Deus exista de fato. Podemos falar também de uma negação quoad providentiam — quando se admite algum tipo de divindade, mas se nega que ela governe, sustente, observe e intervenha no mundo e na vida humana. E podemos falar, por fim, de uma negação quoad naturam — quando se preserva a ideia de um deus, mas se distorcem ou se eliminam atributos essenciais de seu caráter, como a santidade, a justiça ou a soberania.

Essa distinção, longe de ser um exercício meramente acadêmico, ilumina de maneira incômoda a experiência religiosa contemporânea. É plenamente possível — e talvez seja a experiência mais comum entre professos crentes — afirmar sinceramente "eu creio em Deus" e, ao mesmo tempo, viver segundo um pressuposto prático de que "Deus não interfere realmente na minha vida". Não há aqui negação da existência divina. Há, isso sim, uma negação silenciosa da providência: um Deus que criou, mas que se retirou; um Deus que existe, mas que não decide; um Deus real, porém irrelevante para as escolhas concretas do cotidiano.

Esse é o cerne do que este artigo chama de ateísmo prático: a coexistência entre uma teologia formalmente correta e uma vida organizada como se essa teologia não tivesse consequências reais. Deus permanece teologicamente presente — na confissão de fé, no vocabulário devocional, na liturgia — mas se torna praticamente ausente das decisões que realmente moldam a existência: como o dinheiro é administrado, como o tempo é distribuído, como as relações são conduzidas, como as ambições são hierarquizadas.

Quando Deus deixa de ser Senhor

Há uma diferença qualitativa entre crer que Deus existe e viver sob o governo de Deus. A primeira é uma proposição; a segunda é uma submissão. As Escrituras jamais apresentam a existência de Deus como um dado abstrato a ser aceito intelectualmente e depois arquivado. Deus se revela como Criador de todas as coisas, Senhor que sustenta o universo por sua palavra poderosa, Legislador que estabelece o padrão do bem e do mal, Juiz diante de quem toda vida presta contas, e — na economia da graça — Redentor que resgata um povo para si.

Quando qualquer uma dessas dimensões é silenciosamente retirada da concepção prática de Deus, o que resta já não é o Deus das Escrituras, mas uma caricatura confortável — um deus que existe sem exigir, que observa sem julgar, que ama sem disciplinar, que perdoa sem exigir arrependimento. Esse deus reduzido pode habitar tranquilamente o vocabulário religioso de uma pessoa, precisamente porque não interfere em nada.

A pergunta que emerge desse reconhecimento é desconfortável e necessária: se Deus de fato governa todas as coisas — se nada escapa à sua providência, nem mesmo o que parece mais trivial na existência humana — como é possível que tantas decisões sejam tomadas sem qualquer consulta séria à sua vontade revelada? A resposta mais honesta é que, na prática cotidiana, muitos já decidiram, sem jamais formulá-lo dessa maneira, que Deus é Senhor de algumas esferas da vida — a esfera religiosa, dominical, litúrgica — mas não de todas.

Tito 1:16: professar e negar

Se o Salmo 14 revela a raiz do problema no coração humano em geral, a carta de Paulo a Tito aplica essa mesma lógica a um contexto especificamente eclesiástico. O apóstolo não está descrevendo pagãos que jamais ouviram falar do Deus de Israel. Está descrevendo pessoas dentro da comunidade cristã que "professam conhecer a Deus" — que usam a linguagem certa, ocupam posições de ensino, participam da vida da igreja — mas cujas obras contradizem essa profissão de maneira tão flagrante que Paulo não hesita em chamá-las de "abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda boa obra".

O verbo grego traduzido por "negam" (arneomai) é o mesmo usado em outras passagens do Novo Testamento para descrever a negação explícita de Cristo. Paulo está, portanto, equiparando — em termos de gravidade espiritual — a incoerência prática à negação verbal direta. Não se trata de uma simples inconsistência moral, tolerável dentro dos limites naturais da fraqueza humana. Trata-se, na avaliação apostólica, de uma negação real, ainda que não verbalizada.

Isso estabelece uma distinção teológica fundamental: existe uma diferença entre professar conhecimento de Deus e possuir verdadeiro conhecimento de Deus. É plenamente possível falar corretamente sobre Deus, sustentar doutrinas ortodoxas, participar ativamente da liturgia, cantar hinos com sinceridade emocional, e, ainda assim, não conhecer a Deus no sentido bíblico e relacional do termo — que sempre implica submissão, reverência e obediência. O conhecimento de Deus, nas Escrituras, jamais é meramente proposicional; é sempre um conhecimento que se expressa em aliança, em temor e em obediência prática.

O ateísmo prático dentro da igreja

A aplicação contemporânea dessa realidade não exige exemplos extraordinários; ela aparece, com frequência, em situações rotineiras da vida religiosa. Considere-se a oração recitada sem qualquer expectativa real de que Deus responda — um exercício verbal desprovido de dependência genuína. Considere-se o culto conduzido com correção litúrgica, porém sem qualquer senso vivo de reverência diante da santidade divina. Considere-se o conhecimento bíblico acumulado como capital intelectual, sem que produza a menor mudança de comportamento — um saber sobre Deus que nunca se converte em obediência a Deus.

Há também a tolerância consciente ao pecado, cuidadosamente disfarçada por um vocabulário de graça mal compreendida; a ansiedade crônica que, na prática, denuncia uma vida vivida sem confiança real na providência, mesmo quando a providência é afirmada em toda confissão de fé memorizada; o planejamento detalhado da existência — carreira, finanças, relacionamentos — conduzido sem qualquer submissão genuína à soberania divina, como se a Palavra de Deus fosse relevante apenas para as questões classificadas como "espirituais".

Some-se a isso o amor ao dinheiro revestido de linguagem espiritual, a busca de reconhecimento humano disfarçada de zelo pela glória de Deus, o discurso sobre perdão que convive, sem incômodo aparente, com o cultivo silencioso de ressentimento e vingança. Em nenhum desses casos há necessariamente hipocrisia consciente e calculada. Na maioria, há algo mais sutil e mais perigoso: uma dissociação gradual, quase imperceptível, entre aquilo que se confessa nos lábios e aquilo que efetivamente governa as decisões da vida.

Nenhum desses exemplos deve ser lido como acusação universal e definitiva. São, antes, espelhos para autoexame — porque a mesma dinâmica denunciada em Tito 1.16 não pertence a uma categoria exótica de falsos mestres distantes; ela é uma possibilidade real para qualquer coração humano, inclusive o mais instruído teologicamente.

O desejo de um Deus que não interfira

Há uma explicação teológica para essa tendência recorrente, e ela toca diretamente na doutrina do pecado. A existência de um Deus santo, soberano e juiz representa, para o coração caído, uma ameaça constante à autonomia que o pecado sempre desejou preservar desde o Éden. A lógica bíblica é implacável: se Deus vê, existe responsabilidade; se Deus governa, existe autoridade legítima sobre a vida; se Deus julga, existe prestação de contas inevitável; se Deus é santo, o pecado jamais pode ser tratado como algo moralmente neutro.

Por isso, reduzir Deus a uma presença distante — teologicamente afirmada, mas praticamente inofensiva — pode funcionar como um mecanismo de defesa da autonomia humana. Não é necessário negar toda e qualquer forma de divindade para alcançar esse objetivo; basta neutralizar sua interferência real. Muitas pessoas, dentro e fora da igreja, não desejam propriamente um universo sem Deus. Desejam, isso sim, um Deus que não interfira em seus planos, que não questione suas prioridades, que não perturbe suas escolhas mais íntimas. Um Deus assim é compatível com qualquer estilo de vida, porque deixou de exercer, na prática, a função que as Escrituras lhe atribuem: a de Senhor.

Que Deus confessamos, que Deus obedecemos?

Diante desse quadro, algumas perguntas pastorais merecem ser formuladas com honestidade, ainda que produzam desconforto. Que Deus confessamos: o Deus soberano revelado nas Escrituras, ou um deus reduzido às proporções de nossos próprios desejos e conveniências? Que Deus adoramos: o Deus santo que convoca ao arrependimento genuíno, ou uma divindade que serve apenas para reforçar nossa autoestima e validar nossas escolhas? Que Deus obedecemos, de fato, nas decisões concretas da semana: a Palavra que ele revelou, ou a nossa própria vontade, disfarçada de discernimento espiritual? Que Deus tememos verdadeiramente: aquele que um dia julgará todas as coisas, ou a opinião das pessoas ao nosso redor, cujo julgamento imediato costuma pesar mais em nossas escolhas do que a eternidade? Que Deus esperamos, na prática, quando a vida se torna incerta: o Deus providente que sustenta todas as coisas, ou apenas nossa própria capacidade de resolver os problemas por conta própria?

Essas perguntas não têm como propósito produzir culpa paralisante. Têm como propósito produzir autoexame genuíno — o tipo de exame que as Escrituras sempre convidaram o povo de Deus a realizar, especialmente em momentos de aliança renovada.

Revelação geral e conhecimento natural de Deus

É importante situar toda essa discussão dentro de um quadro teológico mais amplo: o da revelação geral. A tradição reformada sustenta, com base em Romanos 1.19-20, que Deus se manifesta aos seres humanos não apenas pelas Escrituras, mas também por meio da criação — "porque o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, pois Deus lho manifestou. Pois os seus atributos invisíveis, assim o seu eterno poder, como também a sua natureza divina, claramente se reconhecem, desde a criação do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram feitas." O próprio Paulo, em seus discursos diante de gentios em Listra (At 14.15-17) e no Areópago de Atenas (At 17.22-31), argumenta a partir da ordem, da providência e da beleza da criação para apontar para o único Deus verdadeiro.

Essa revelação geral, contudo, não é suficiente para a salvação. Ela é suficiente para tornar os seres humanos "inescusáveis" (Rm 1.20), mas não é suficiente para produzir conhecimento salvífico de Deus, que depende da revelação especial das Escrituras e, sobretudo, da revelação pessoal de Deus em Jesus Cristo. Essa distinção foi historicamente objeto de debate. O movimento sociniano, surgido no século XVI a partir do pensamento de Fausto Sozzini, tende a ser lembrado nesse contexto por sustentar uma visão mais restritiva quanto à capacidade da razão natural de alcançar, por si mesma, verdades religiosas seguras, enfatizando a necessidade da revelação registrada nas Escrituras como fonte determinante do conhecimento de Deus — ainda que seja preciso reconhecer que as posições socinianas sobre esse e outros temas variaram e são objeto de discussão entre historiadores da teologia, não devendo ser simplificadas em uma fórmula única.

O ponto relevante para este artigo, entretanto, não é o debate histórico em si, mas sua implicação: o problema humano diante de Deus raramente é falta de informação. Segundo a própria Escritura, "ele não se deixou a si mesmo sem testemunho" (At 14.17). O problema descrito no Salmo 14 e em Tito 1.16 não é epistemológico — é moral e volitivo. Não é que os homens não saibam o suficiente sobre Deus; é que, sabendo, decidem viver como se não soubessem.

De um Deus para muitos, de um Deus para nenhum

Uma observação histórica amplamente repetida em círculos teológicos descreve certa transição espiritual do mundo antigo para o mundo contemporâneo como uma passagem "de um Deus para muitos" — a multiplicação de deuses e ídolos característica das culturas pagãs antigas — rumo a uma trajetória, em largos setores da sociedade moderna, "de um Deus para nenhum" — a marcha da secularização, que empurra Deus para fora do espaço público e, muitas vezes, também da consciência pessoal.

Há, porém, uma ironia teológica importante que essa observação, isoladamente, não capta: dentro da própria igreja, essa mesma dinâmica pode ocorrer sem que a linguagem cristã seja abandonada. Não se trocam as palavras — continua-se falando de Deus, de graça, de fé, de providência —, mas abandona-se, silenciosamente, a dependência prática dessas realidades. A questão contemporânea mais urgente para a igreja, portanto, não é apenas quantos deuses uma cultura reconhece, mas quem, na prática cotidiana, efetivamente governa a vida de cada crente. É plenamente possível manter um vocabulário monoteísta impecável enquanto se vive segundo uma pluralidade funcional de senhores — a carreira, a aprovação social, o conforto material, a autoimagem — nenhum dos quais recebe o nome de "deus", mas todos os quais exercem, na prática, a autoridade que pertence exclusivamente ao Deus vivo.

A corrupção do coração e da vida

É preciso retornar, ao final desse percurso, à segunda metade de Salmo 14.1: "Corromperam-se e praticaram obras abomináveis; não há quem faça o bem." O salmista não apresenta a negação de Deus e a corrupção moral como fenômenos separados, um causando o outro em sequência mecânica, mas como duas expressões de uma mesma condição interior. Há um movimento que parte do coração, passa pelo pensamento, molda os desejos, orienta as decisões e finalmente se manifesta em obras concretas — sejam elas obras de justiça e temor, sejam obras de corrupção e abominação.

A doutrina reformada da depravação humana, desenvolvida com maior amplitude a partir de textos como Romanos 3.9-18 — que cita, aliás, o próprio Salmo 14 em sua argumentação sobre a universalidade do pecado —, não pretende afirmar que cada pessoa seja tão má quanto poderia ser, mas que nenhuma faculdade humana permaneceu incontaminada pela queda, incluindo a razão e a vontade. Sem entrar em uma exposição completa dessa doutrina, o que interessa aqui é sua conexão direta com o tema deste artigo: a negação prática de Deus não é um erro isolado e neutro na vida de uma pessoa; é sintoma e, ao mesmo tempo, alimento de uma corrupção mais ampla, que compromete toda a existência.

Uma pergunta incômoda para a igreja

Chegamos, então, ao ponto para o qual todo este percurso conduzia: se retirássemos de nossa vida toda a linguagem religiosa — as orações formuladas, os hinos entoados, o vocabulário devocional que aprendemos a repetir com naturalidade — nossas decisões e nosso comportamento cotidiano ainda demonstrariam, por si mesmos, que cremos em Deus?

Essa pergunta não deveria ser dirigida apenas ao "ateu lá fora", ao cético que nunca pisou dentro de uma igreja. Ela precisa alcançar pastores que pregam a soberania de Deus, mas administram seus ministérios com ansiedade e competitividade indistinguíveis das lógicas do mercado secular. Precisa alcançar líderes que ensinam sobre confiança na providência, mas cujas agendas revelam uma vida inteiramente planejada sem espaço real para a vontade de Deus. Precisa alcançar professores de teologia que dominam categorias doutrinárias precisas, mas cuja vida familiar ou financeira desmente, silenciosamente, aquilo que ensinam. Precisa alcançar membros fiéis à frequência dominical, jovens que cresceram ouvindo a linguagem da fé desde o berço, famílias inteiras cuja identidade cristã é, ao mesmo tempo, genuína em alguns aspectos e ausente em outros.

O propósito dessa pergunta não é produzir condenação generalizada nem cultivar escrúpulos paralisantes. O propósito é bíblico e pastoral: conduzir à autoavaliação honesta, ao arrependimento sincero e ao retorno a uma fé que não seja apenas confessada, mas vivida.

Conclusão: não basta dizer que Deus existe

O ateu declarado diz, com todas as letras: "Deus não existe." O ateu prático, aquele que o Salmo 14 e a carta a Tito ajudam a identificar, pode dizer sinceramente "eu creio em Deus" e, simultaneamente, organizar sua existência como se essa afirmação não tivesse nenhuma consequência real. A diferença entre os dois não está necessariamente na sinceridade da confissão verbal, mas na coerência entre o que se professa e o que se vive.

As Escrituras jamais consideram suficiente a mera afirmação da existência de Deus. Tiago é direto quanto a isso: "Também os demônios o creem, e estremecem" (Tg 2.19) — a ortodoxia proposicional, por si só, não distingue a fé salvadora da mais completa rebelião espiritual. É necessário reconhecer Deus não apenas como uma proposição verdadeira, mas como Senhor que governa, Criador a quem se deve gratidão, Juiz diante de quem haverá prestação de contas e Salvador a quem se deve entrega irrestrita. A fé bíblica sempre produz — não como mérito humano, mas como fruto necessário da graça que regenera o coração (Ez 36.26-27; Jo 14.15) — obediência, temor reverente, santidade prática, dependência genuína e amor que se expressa em ação concreta.

A pergunta que Salmo 14.1 e Tito 1.16 dirigem, no fundo, não é apenas "você crê que Deus existe?". É uma pergunta mais penetrante: "você vive diante daquele que existe?" Não basta dizer que Deus existe. É preciso viver como se ele reinasse — porque, de fato, ele reina. E essa é, talvez, a mais urgente e mais pastoral das convocações que a igreja contemporânea precisa ouvir: que a confissão dos lábios e a prática da vida deixem de caminhar em direções opostas, e voltem a formar aquilo que sempre deveriam ter sido — um só testemunho, coerente e vivo, da soberania do Deus que se revelou nas Escrituras e que, um dia, julgará todas as coisas.


Kleiton Fonseca, é diretor e pesquisador teológico do Instituto de Teologia Reformada John Wycliffe. 

Nota metodológica: este artigo constitui uma reflexão teológico-pastoral original, desenvolvida a partir da meditação sobre Salmo 14.1 e Tito 1.16 e informada pela tradição exegética e histórica reformada. Referências à etimologia hebraica e a debates históricos, como o movimento sociniano, foram apresentadas com as devidas ressalvas quanto ao seu grau de certeza acadêmica, distinguindo interpretação teológica tradicional de conclusão lexicográfica definitiva.

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