Capítulo 6 — Perpétua e Felicidade: Coragem diante dos Leões sem Exercer o Ofício de Pastora

 



Grandes Mulheres da Igreja: Fé, Sabedoria e Serviço sem Exercer o Ofício Pastoral

Capítulo 6 — Perpétua e Felicidade: Coragem diante dos Leões sem Exercer o Ofício de Pastora

Por Kleiton Fonseca Instituto de Teologia Reformada John Wycliffe


1. Introdução

Por volta de 7 de março de 203 d.C., na arena de Cartago,uma jovem mulher de família socialmente abastada e sua escrava, grávida até poucos dias antes de morrer, enfrentaram feras e o gládio romano recusando-se a oferecer incenso ao gênio do imperador. O relato de sua morte, a Passio Sanctarum Perpetuae et Felicitatis, é um dos documentos mais extraordinários que sobreviveram da Igreja Antiga: contém, em suas seções centrais, um dos mais antigos textos cristãos preservados em primeira pessoa atribuídos a uma mulher, o diário de prisão da própria Vibia Perpétua, o diário de prisão da própria Vibia Perpetua.

Perpétua e Felicidade ocupam, por isso, um lugar único nesta série. Diferentemente de Priscila, Febe, Lídia, Maria e as filhas de Filipe, cuja memória depende inteiramente do testemunho de terceiros, Perpétua fala, em grande medida, com sua própria voz, preservada por quase dezoito séculos. E, no entanto, o mesmo cuidado metodológico que aplicamos às personagens bíblicas deve ser aplicado aqui: a extraordinária autoridade espiritual que o próprio relato atribui a Perpétua e Felicidade —autoridade tão grande que, segundo uma visão narrada por Saturo, os mártires chegaram a ser apresentados como mediadores de um conflito entre um bispo e um presbítero — não equivale, como este capítulo demonstrará, ao exercício de um ofício eclesiástico formal. A honra devida às mártires, na Igreja Antiga como hoje, e a estrutura do governo eclesiástico permanecem categorias distintas, ainda que intimamente relacionadas na piedade cristã primitiva.

2. O Contexto Histórico

A perseguição sob Septímio Severo

O relato situa o martírio "no reinado de Severo" — o imperador Septímio Severo (193-211 d.C.) —, e a menção interna ao "aniversário natalício de Geta César" (filho de Severo, elevado a César em 198 d.C.) permite datar o evento com razoável precisão em torno de 7 de março de 203 d.C., embora alguns estudiosos, com base em cálculos calendáricos alternativos, prefiram o ano de 202. A tradição historiográfica antiga associou o episódio a um suposto édito geral de Severo proibindo conversões ao cristianismo e ao judaísmo; a erudição histórica contemporânea, contudo, tende a ver na perseguição de Cartago antes uma aplicação local e episódica da hostilidade administrativa romana ordinária contra os cristãos — baseada em leis anteriores contra associações ilícitas e na recusa cristã ao culto imperial — do que a execução de uma política sistemática e uniforme em todo o império. Esta é uma distinção historiograficamente relevante, e a proporcionalidade da evidência disponível recomenda cautela antes de afirmar a existência de um "edito severiano antipristão" universal como fato estabelecido.

Cartago cristã do início do século III

Cartago, uma das maiores cidades do Ocidente romano, possuía, no início do século III, uma comunidade cristã já numerosa e estruturada, com bispo, presbíteros e diáconos reconhecidos — é precisamente nesse ambiente que atuava Tertuliano, um dos mais importantes escritores cristãos latinos do período, contemporâneo exato dos eventos aqui narrados. O grupo de mártires cartagineses reunia catecúmenos de origens sociais muito diferentes: Vibia Perpetua, descrita no próprio texto como "nascida livre, educada de modo condizente com sua condição, honestamente casada", com um filho ainda em fase de amamentação; Felicidade, sua companheira de cativeiro, escrava e grávida; Revocato e Saturnino, também escravos ou libertos; Secúndulo, que morreria na prisão antes de chegar à arena; e Satouro, catequista voluntário do grupo, que se entregou às autoridades para não abandonar seus discípulos.

Catecumenato e batismo sob prisão

Um detalhe frequentemente ignorado, mas teologicamente relevante: Perpétua e seus companheiros eram, no momento da prisão, ainda catecúmenos — cristãos em processo de instrução, ainda não batizados. O relato registra que receberam o batismo formalmente durante a prisão domiciliar que precedeu seu encarceramento definitivo, um dado que documenta, de modo incidental mas valioso, a prática batismal e catequética da Igreja norte-africana do início do século III.

3. As Evidências Documentais

A fonte é única e conta com estrutura literária internamente identificável, o que a distingue notavelmente das hagiografias posteriores, mais estilizadas e distantes dos eventos que narram:

Capítulos 1-2 — prólogo escrito por um editor/redator, que anuncia o propósito do relato e apresenta os protagonistas.

Capítulos 3-10 — o diário de Perpétua, escrito, segundo a afirmação explícita do próprio texto, "por sua própria mão e segundo seu próprio entendimento" — narrando sua prisão, os confrontos com o pai (pagão, que a suplica repetidamente para que recante), a separação e depois a permissão de amamentar o filho na prisão, e quatro visões sucessivas, entre elas a célebre visão da escada guardada por um dragão e a visão, na véspera do combate, em que ela se vê transformada em atleta/gladiador, lutando e vencendo um egípcio simbólico.

Capítulos 11-13 — o relato das visões de Satouro, escrito, segundo o texto, por ele mesmo, incluindo o episódio, examinado adiante, do encontro visionário com o bispo Optato e o presbítero Aspásio.

Capítulos 14-21 — a narrativa final, retomada pelo editor/redator, descrevendo os últimos dias na prisão, o parto de Felicidade, e a execução no anfiteatro, incluindo detalhes do comportamento das mártires diante das feras e do gládio.

4. Exegese e Análise dos Textos Centrais

O diário de Perpétua: autenticidade e caráter literário

A questão da autenticidade do diário de Perpétua tem sido examinada pela erudição histórica há mais de um século, e o consenso acadêmico predominante — sustentado por historiadores como W. H. C. Frend, Peter Dronke e, mais recentemente, Brent D. Shaw e Joyce E. Salisbury — reconhece nos capítulos 3-10 um documento genuinamente antigo e plausivelmente autêntico, de autoria feminina, ainda que reconhecendo, com honestidade metodológica, que não é possível excluir totalmente a possibilidade de intervenção editorial na redação final que chegou até nós. O que distingue este documento de tantos outros relatos hagiográficos da Antiguidade Tardia é precisamente seu caráter íntimo, sem os embelezamentos literários e os topoi devocionais mais artificiais que caracterizam martirológios de composição mais tardia — um dado que reforça, embora não prove de modo absoluto, a plausibilidade de sua atribuição à própria Perpétua.

A questão da autoria editorial: Tertuliano?

Uma questão histórica genuinamente controversa, e que deve ser apresentada como tal, é a identidade do redator responsável pelos capítulos 1-2 e 14-21. Desde a Antiguidade, alguns têm atribuído esses capítulos, e mesmo a compilação de toda a obra, a Tertuliano — hipótese sustentada por semelhanças notáveis de estilo, vocabulário e ideias entre a Passio e as obras genuínas de Tertuliano, particularmente o tratado Ad Martyres e De Patientia, e reforçada pelo fato de que o próprio Tertuliano, escrevendo por volta de 210-213 em seu tratado De Anima (cap. 55), demonstra conhecer a tradição das visões associadas ao martírio de Perpétua e seus companheiros, atribuindo a Perpétua uma visão do paraíso que parece corresponder, no relato preservado, à visão de Saturo, demonstrando conhecimento direto e detalhado do relato. A Enciclopédia Católica, por outro lado, já observava há mais de um século que a atribuição a Tertuliano permanece "uma afirmação não comprovada" — e a erudição contemporânea, de modo geral, trata a hipótese como plausível e bem fundamentada estilisticamente, mas não como certeza documental estabelecida. Este capítulo, seguindo a mesma disciplina metodológica aplicada em toda a série, apresenta a hipótese com a força que a evidência estilística realmente sustenta — considerável, mas não conclusiva — sem afirmá-la como fato demonstrado.

Relacionada a essa questão está outra, igualmente debatida: se o grupo de mártires, ou o próprio redator, mantinha vínculos com o movimento montanista, que ganhava terreno no Norte da África latina precisamente nesse período e ao qual o próprio Tertuliano viria a aderir poucos anos depois. A ênfase do relato na autoridade das visões e das novas revelações proféticas dos mártires — tema que examinaremos a seguir — é compatível com sensibilidades montanistas, mas o texto não contém nenhuma referência doutrinária explícita ao movimento, nem menção a Montano, Priscila ou Maximila. A prudência acadêmica recomenda tratar essa hipótese como possível, mas indemonstrável com os dados disponíveis — uma questão genuinamente controversa (DEB), não um fato estabelecido.

O episódio do bispo Optato e do presbítero Aspásio (cap. 13)

Este episódio, narrado por Satouro dentro de sua própria visão, merece exame cuidadoso por sua relevância direta para a questão central deste capítulo. Satouro relata ter visto, num jardim paradisíaco, o bispo Optato e o presbítero Aspásio, "muito alegres ao nos ver, mas com os rostos abatidos", que se ajoelham diante dos mártires suplicando: "Reconciliai-nos, porque saístes e nos deixastes assim." Os mártires respondem repreendendo ambos — Optato por não corrigir adequadamente seu povo, e Aspásio, aparentemente, por conflito com o próprio bispo — e os exortam a fazerem as pazes entre si antes que os mártires sejam levados aos anjos que os aguardavam.

A interpretação correta deste episódio exige precisão. O que o texto demonstra, com clareza, é o extraordinário prestígio espiritual que a Igreja Antiga atribuía aos mártires prestes a testemunhar sua fé com a própria vida — um prestígio suficientemente grande para que até mesmo um bispo, na imaginação visionária do relato, buscasse sua intercessão e reconciliação. Esse fenômeno, aliás, é bem documentado por outras fontes do período: a correspondência de Cipriano de Cartago, poucas décadas depois, atesta a prática de confessores e mártires intercederem junto ao bispo em favor de apóstatas arrependidos (os chamados libelli pacis), uma prática que o próprio Cipriano, já bispo, buscaria regular e limitar precisamente por seu potencial de rivalizar com a autoridade episcopal ordinária.

O que o texto não demonstra é que Perpétua, Satouro ou qualquer um dos mártires exercesse, por meio dessa autoridade moral extraordinária, um ofício eclesiástico formal equivalente ao do bispo ou do presbítero que os procuravam. A autoridade que os mártires exerciam nesse episódio era carismática e não institucional — fundada na honra singular atribuída ao testemunho supremo do martírio iminente — fundada na honra singular atribuída ao testemunho supremo do martírio iminente —, não institucional ou permanente. Bispo e presbítero permanecem identificados por seus títulos de ofício (episcopus, presbyter); os mártires, incluindo Perpétua, não recebem, em nenhum momento do relato, nenhum título eclesiástico equivalente.

A questão da profecia e da revelação continuada

O prólogo do redator (cap. 1) apresenta uma afirmação teológica notável, que merece registro cuidadoso: o autor defende explicitamente que as "novas visões" prometidas em Joel 2.28 (citado também em Atos 2.17, como vimos no capítulo anterior desta série) continuam a se manifestar na Igreja de seu tempo, e que o relato dos sofrimentos de Perpétua e seus companheiros deve, por isso, ser lido "para a glória de Deus" ao lado das antigas Escrituras, "para que também as coisas novas testemunhem". Trata-se de um testemunho antigo e explícito da continuidade de experiências visionárias e proféticas na Igreja do início do século III, e que a perspectiva cessacionista adotada por esta série avalia como reflexo legítimo da religiosidade profética do início do século III norte-africano, mas não como reivindicação que deva ser equiparada à autoridade revelacional das Escrituras canônicas, distinção que Agostinho, mais de dois séculos depois, aplicaria explicitamente ao próprio relato de Perpétua, deixando claro que o episódio de Dinócrates não possuía a autoridade da Escritura canônica.

5. Questão Teológica Central: Autoridade Espiritual e Ofício Eclesiástico

O caso de Perpétua e Felicidade oferece um laboratório teológico particularmente rico para a distinção que estrutura toda esta série. É necessário reconhecer, com toda a força que a evidência permite, que essas mulheres exerceram uma autoridade espiritual real, pública e profundamente reconhecida pela comunidade cristã de Cartago — visível não apenas no episódio de Optato e Aspásio, mas em toda a estrutura do relato, que trata as visões de Perpétua como dignas de registro e veneração duradoura.

Essa autoridade, contudo, era de natureza carismática e circunstancial, ligada ao dom extraordinário da revelação visionária e, sobretudo, à honra singularíssima do testemunho martirial — categoria distinta, na própria estrutura conceitual da Igreja Antiga, do ofício eclesiástico ordinário de presbítero-bispo, que envolvia processo de reconhecimento formal pela comunidade, qualificações específicas (1Tm 3.1-7; Tt 1.5-9) e responsabilidade contínua de ensino e governo doutrinário — responsabilidade que, no próprio relato, permanece explicitamente associada a Optato e Aspásio, e não às mártires.

Mais uma vez, como em todos os capítulos anteriores, é necessário evitar dois erros simétricos: minimizar a autoridade espiritual genuína que essas mulheres exerceram seria uma leitura empobrecida do próprio texto; mas transformar essa autoridade carismática e martirial em prova de ofício eclesiástico formal seria uma inferência que o relato simplesmente não sustenta e que nenhuma fonte histórica do período — nem mesmo os relatos hagiográficos posteriores que viriam a venerá-las como santas — jamais fez.

6. O Testemunho da História da Igreja

Agostinho de Hipona (354-430)

O testemunho mais significativo sobre a recepção posterior de Perpétua e Felicidade vem de Agostinho, que lhes dedicou ao menos três sermões (280, 281 e 282), pronunciados por ocasião de sua festa litúrgica, mais de dois séculos após o martírio. Agostinho as trata com veneração profunda, celebrando sua coragem e sua fé como exemplo permanente para a Igreja de seu tempo. Ao mesmo tempo — e este é o dado historicamente mais relevante para os propósitos deste capítulo, Agostinho, em De Anima et Eius Origine (I.10.12), ao discutir a visão de Dinócrates registrada no relato de Perpétua, observa explicitamente que aquela narrativa não constitui Escritura canônica É um testemunho precioso, vindo de dentro da própria tradição que venerava essas mártires: mesmo reconhecendo plenamente sua santidade e a autenticidade de seu testemunho, a Igreja Antiga, em sua vertente teologicamente mais criteriosa, já distinguia entre a honra devida aos mártires e a autoridade normativa reservada exclusivamente ao cânon das Escrituras — precisamente a distinção que a tradição reformada, treze séculos mais tarde, viria a sistematizar sob o princípio da suficiência das Escrituras.

Tertuliano

Como já indicado, Tertuliano, em De Anima 55, demonstra conhecimento direto do relato da visão de Perpétua sobre o paraíso, tratando-a com aprovação e como testemunho relevante para sua própria argumentação teológica sobre o estado intermediário da alma — evidência valiosa da rápida circulação e do prestígio imediato que o relato alcançou entre os cristãos cultos de Cartago, ainda dentro da primeira década após o martírio.

A veneração litúrgica subsequente

Perpétua e Felicidade tornaram-se, nos séculos seguintes, duas das mártires mais veneradas de toda a Igreja Antiga, ocidental e oriental — seus nomes foram inseridos no Cânon Romano da missa (uma das únicas mulheres, além de Maria, mencionadas nominalmente nesse texto litúrgico antiquíssimo), e sua festa continua sendo celebrada até hoje em diversos calendários litúrgicos cristãos, geralmente em 7 de março. Essa veneração duradoura documenta, de modo inequívoco, a memória de sua fé e coragem — mas, é digno de nota, em nenhum momento dessa longuíssima tradição de veneração litúrgica qualquer fonte histórica conhecida as identificou como tendo exercido ofício presbiteral ou episcopal.

7. Recepção Histórica

Igreja Antiga: veneração imediata e duradoura, atestada por Tertuliano poucos anos após o martírio e consolidada na liturgia romana antiga; reconhecimento de sua autoridade espiritual extraordinária como mártires, distinta do ofício eclesiástico ordinário.

Antiguidade Tardia: Agostinho, dois séculos depois, mantém a veneração ao mesmo tempo em que estabelece com clareza os limites da autoridade de seu testemunho em relação ao cânon das Escrituras — um equilíbrio que esta série reconhece como paradigmático.

Reforma e tradição reformada: A tradição reformada, embora tenha rejeitado boa parte do aparato de veneração dos santos desenvolvido ao longo da Idade Média, pode reconhecer o valor histórico e exemplar do testemunho dos mártires da Igreja Antiga, os relatos de Perpétua e Felicidade permanecem, até hoje, referência histórica valorizada em obras de história da Igreja de tradição protestante e reformada, como testemunho da fidelidade cristã sob perseguição, sem que isso implique qualquer forma de veneração cultual dirigida a elas, reservada, na teologia reformada, exclusivamente à adoração devida a Deus.

Estudos contemporâneos: o diário de Perpétua tornou-se, nas últimas décadas, objeto de intensa atenção acadêmica interdisciplinar — não apenas da história da Igreja, mas também dos estudos clássicos, de gênero e da história social romana —, sendo reconhecido amplamente como um dos testemunhos mais valiosos que sobreviveram sobre a experiência religiosa, familiar e psicológica de uma mulher cristã do início do século III.

8. A Contribuição de Perpétua e Felicidade

A contribuição dessas duas mulheres para a história da Igreja dificilmente poderia ser exagerada, mesmo dentro dos limites metodológicos que este capítulo se impõe: Perpétua legou à posteridade um dos raríssimos documentos autobiográficos femininos de toda a Antiguidade greco-romana, cristã ou pagã — testemunho de fé, de conflito familiar, de maternidade interrompida e de coragem diante da morte que continua a comover leitores quase dois mil anos depois. Felicidade, escrava grávida que deu à luz na prisão dias antes de sua própria execução, entregando a filha aos cuidados de outra cristã, oferece um testemunho de fé que atravessa as barreiras sociais mais rígidas do mundo romano — lembrando à Igreja de todos os tempos que a dignidade cristã diante do sofrimento não reconhece distinção de classe social. Juntas, tornaram-se símbolo permanente da fidelidade da Igreja perseguida,sem que as fontes históricas antigas disponíveis apresentem essa honra como consequência do exercício de um ofício pastoral formal.

9. Lições para a Igreja Contemporânea

O testemunho de Perpétua e Felicidade ensina, antes de tudo, sobre o custo real da fidelidade cristã em contextos de hostilidade — um lembrete pertinente para a Igreja em qualquer época e lugar em que a confissão pública de Cristo acarreta risco genuíno. Ensina também sobre a distinção necessária, que este capítulo procurou demonstrar com cuidado, entre honra espiritual reconhecida pela comunidade e ofício eclesiástico formal — distinção que protege tanto a dignidade do testemunho extraordinário de mulheres como Perpétua quanto a integridade da ordem que as Escrituras estabelecem para o governo da Igreja. Ensina, com o exemplo de Agostinho, sobre o equilíbrio entre venerar genuinamente o testemunho dos santos do passado e manter, ao mesmo tempo, a autoridade normativa e singular das Escrituras canônicas  um princípio que a Reforma haveria de recuperar com vigor renovado. E ensina, por fim, através do vínculo materno de Perpétua com seu filho lactente e de Felicidade com a filha recém-nascida, que a fé cristã não exige o apagamento dos afetos humanos mais profundos, mas os situa, com dor real e reconhecida, sob a lealdade suprema devida a Cristo.

10. Conclusão

Perpétua e Felicidade permanecem, por qualquer critério histórico e teológico honesto, duas das testemunhas mais extraordinárias de toda a história da Igreja Antiga — sua coragem diante das feras e do gládio na arena de Cartago, preservada na própria voz de Perpétua através de um dos documentos mais preciosos que a Antiguidade cristã nos legou, continua a instruir e comover a Igreja quase dezoito séculos depois. A evidência disponível demonstra, com clareza rara para uma fonte tão antiga, que sua autoridade espiritual foi genuína, pública e profundamente reconhecida — capaz até de ser invocada, na estrutura visionária do relato, para mediar o próprio bispo de Cartago. Essa mesma evidência, contudo, não demonstra, e nenhuma fonte histórica antiga jamais afirmou, que essa autoridade equivalesse ao exercício do ofício presbiteral ou episcopal. Como Agostinho soube distinguir, dois séculos depois, entre a honra devida aos mártires e a autoridade suprema das Escrituras, esta série distingue, capítulo após capítulo, entre a grandeza do serviço, do testemunho e do sofrimento fiel das mulheres da Igreja e o exercício formal do ofício pastoral — sem que a segunda distinção jamais diminua a primeira honra.

No próximo capítulo, a série seguirá para a Capadócia do século IV, para conhecer uma mulher cuja influência teológica moldou diretamente dois dos maiores teólogos da história da Igreja: Macrina, a Jovem: Mestra de Basílio e Gregório sem Exercer o Ofício Pastoral.


Kleiton Fonseca, professor de teologia e diretor-pesquisador do Instituto de Teologia Reformada John Wycliffe. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-3665-5924


Bibliografia e Fontes

Fontes primárias: Passio Sanctarum Perpetuae et Felicitatis (texto latino e grego), caps. 1-21, em Herbert Musurillo (ed. e trad.), The Acts of the Christian Martyrs (Oxford: Clarendon Press), texto crítico padrão; tradução inglesa também disponível em Ante-Nicene Fathers, vol. 3 (ed. A. Roberts e J. Donaldson); Tertuliano, De Anima, cap. 55; Agostinho de Hipona, Sermões 280, 281 e 282 (na festa de Perpétua e Felicidade); Agostinho, De Anima et Eius Origine, Livro I, cap. 10.12; Cipriano de Cartago, Epistulae (sobre a intercessão de confessores e a prática dos libelli pacis), como testemunho comparativo do período imediatamente posterior.

Estudos históricos e críticos: Herbert Musurillo, The Acts of the Christian Martyrs (introdução e notas críticas); W. H. C. Frend, Martyrdom and Persecution in the Early Church (Oxford: Blackwell); Peter Dronke, Women Writers of the Middle Ages (Cambridge University Press), capítulo sobre Perpétua; Joyce E. Salisbury, Perpetua's Passion: The Death and Memory of a Young Roman Woman (Routledge); Brent D. Shaw, "The Passion of Perpetua," artigo em Past & Present; Timothy D. Barnes, Tertullian: A Historical and Literary Study (Oxford: Clarendon Press), sobre a questão da autoria editorial.

Teologia reformada e história da Igreja: João Calvino, referências ao valor histórico-exemplar do martírio da Igreja Antiga; Everett Ferguson, Church History, Volume One: From Christ to the Pre-Reformation; J. N. D. Kelly, Early Christian Doctrines.

Nota metodológica: a atribuição da redação editorial da Passio a Tertuliano, e a possível vinculação do grupo martirial a círculos montanistas, foram apresentadas como hipóteses academicamente debatidas (DEB), sustentadas por evidência estilística e circunstancial considerável, mas não demonstradas de modo conclusivo pelas fontes disponíveis.

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