Ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei: quando a Igreja precisa olhar para si mesma
Ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei: quando a Igreja precisa olhar para si mesma
Vivemos em um tempo em que é fácil encontrar motivos para reclamar. Olhamos para a corrupção, para a injustiça, para a violência, para a imoralidade, para a degradação das instituições e para a crise de valores que atravessa a sociedade brasileira. E, naturalmente, muitas dessas coisas precisam ser denunciadas.
A Igreja não pode ser indiferente ao pecado.
Entretanto, Miquéias 7 nos coloca diante de uma pergunta mais desconfortável: e se parte daquilo que tanto reclamamos também revelar a nossa própria infidelidade?
Talvez precisemos, antes de perguntar “o que há de errado com o Brasil?”, perguntar: “o que há de errado conosco?”
O pecado não está somente “lá fora”
Miquéias não descreve uma sociedade moralmente saudável enfrentando problemas externos. O profeta denuncia a corrupção existente no próprio povo de Deus.
O capítulo 7 apresenta uma realidade dolorosa: faltavam homens piedosos, os governantes buscavam vantagens, os relacionamentos estavam deteriorados e a injustiça havia contaminado a sociedade.
E, diante desse cenário, o profeta não assume uma postura de superioridade moral.
Ele se inclui.
Por isso diz:
“Ainda que eu tenha caído...”
Essa pequena expressão deveria nos fazer parar.
A Bíblia não nos autoriza a olhar para a corrupção do mundo como se nós, cristãos, fôssemos naturalmente incorruptíveis. A doutrina do pecado nos lembra que o problema do coração humano não está restrito aos políticos, aos empresários, aos artistas, aos incrédulos ou às instituições.
O pecado também habita em nós.
Podemos denunciar a corrupção e, ao mesmo tempo, ser desonestos em nossas pequenas coisas.
Podemos condenar a arrogância dos poderosos e cultivar orgulho dentro da igreja.
Podemos criticar a falta de amor da sociedade e sermos incapazes de demonstrar compaixão ao nosso próximo.
Podemos defender a verdade publicamente e, na prática, viver de maneira incoerente com aquilo que professamos.
Podemos falar muito sobre Deus e orar pouco.
Podemos defender a Bíblia e negligenciar a santidade.
Podemos discutir teologia durante horas e permanecer indiferentes diante das necessidades daqueles que estão ao nosso redor.
Esse também é o nosso pecado.
Quando Deus disciplina o seu próprio povo
As Escrituras apresentam repetidamente uma realidade que não devemos ignorar: Deus, em sua soberania, pode utilizar instrumentos humanos — inclusive governantes e povos ímpios — para executar juízo e disciplinar seu povo.
O exemplo dos caldeus em Habacuque é particularmente impressionante. Deus diz ao profeta que levantaria os caldeus como instrumento de juízo contra Judá (Hc 1:5–11).
Isso não significa que Deus aprovasse a impiedade dos caldeus. Posteriormente, o próprio Deus julgaria a Babilônia por sua arrogância e violência.
O mesmo princípio aparece na história de Israel: Deus levantava nações para disciplinar seu povo e, depois, julgava também essas nações por sua própria maldade.
Há aqui uma verdade que deveria produzir temor em nós:
não devemos presumir que toda dificuldade nacional seja simplesmente consequência do pecado dos “outros”.
Não podemos afirmar irresponsavelmente que determinado governo é uma punição divina por determinado pecado. A Escritura não nos dá autorização para interpretar cada acontecimento político dessa maneira.
Mas podemos, biblicamente, fazer uma pergunta muito mais humilde:
“Senhor, há algo em nós que precisa ser corrigido?”
Essa é uma pergunta muito mais apropriada para a Igreja.
Talvez estejamos reclamando da escuridão enquanto apagamos nossa própria luz
É possível que a Igreja reclame das trevas da sociedade enquanto vive, ela mesma, de maneira indiferente à luz que recebeu.
Quantos cristãos praticamente abandonaram a oração?
Quantos conhecem discursos sobre Deus, mas não cultivam comunhão com Deus?
Quantos reclamam da situação do país, mas não intercedem por ele?
Quantos exigem justiça, mas não praticam misericórdia?
Quantos defendem a verdade, mas vivem em constante disputa?
Quantos são rápidos para atacar e lentos para perdoar?
Quantos conhecem a doutrina da graça, mas não demonstram graça?
Quantos desejam uma sociedade transformada, mas não demonstram o evangelho dentro de sua própria casa?
A questão não é diminuir a gravidade dos pecados da sociedade.
É reconhecer que a Igreja também precisa se arrepender.
Jesus não chamou sua Igreja simplesmente para vencer debates culturais. Chamou-nos para sermos sal e luz.
E não podemos ser luz apenas por aquilo que dizemos. Precisamos viver aquilo que pregamos.
A verdadeira restauração começa com arrependimento
É justamente nesse contexto que Miquéias 7:8 se torna tão precioso:
“Ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei.”
O profeta não está negando a queda. Ele está reconhecendo-a.
A esperança bíblica não começa quando fingimos que não pecamos. Ela começa quando reconhecemos nosso pecado diante de Deus.
A Igreja não precisa de uma nova maquiagem espiritual.
Precisa de arrependimento.
Precisamos voltar à oração.
Precisamos voltar às Escrituras.
Precisamos voltar à santidade.
Precisamos voltar à compaixão.
Precisamos voltar à verdade.
Precisamos voltar a viver diante de Deus com temor.
Precisamos parar de transformar toda divergência em guerra.
Precisamos aprender novamente a chorar com os que choram, carregar os fardos uns dos outros e anunciar a verdade sem abandonar o amor.
Precisamos olhar menos para os homens e mais para o Senhor.
“O SENHOR será a minha luz”
A esperança de Miquéias não está na capacidade humana de reconstruir aquilo que foi destruído.
Está em Deus.
“Se morar nas trevas, o SENHOR será a minha luz.”
Que declaração extraordinária.
O profeta não diz que nunca haverá trevas.
Ele diz que, mesmo nas trevas, Deus será sua luz.
Essa é a esperança da Igreja.
Nossa esperança não está em políticos.
Não está em partidos.
Não está em líderes religiosos.
Não está em instituições humanas.
Não está em nossa capacidade intelectual.
Não está em nossa força.
Nossa esperança está no Senhor.
Se caímos, precisamos nos arrepender.
Se nos afastamos, precisamos voltar.
Se fomos indiferentes, precisamos despertar.
Se perdemos a compaixão, precisamos pedir que Deus transforme nosso coração.
Se abandonamos a oração, precisamos voltar a dobrar os joelhos.
Se conhecemos a verdade, precisamos voltar a vivê-la.
E então poderemos compreender a beleza da promessa:
“Ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei.”
Não porque somos fortes.
Não porque somos melhores.
Não porque merecemos.
Mas porque o Deus da aliança é misericordioso e fiel.
Miquéias termina olhando para esse Deus e perguntando:
“Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniquidade e te esqueces da transgressão do restante da tua herança?” (Mq 7:18).
Essa é a nossa esperança.
Talvez o Brasil precise de mudanças políticas, econômicas e institucionais. Certamente precisamos de justiça, honestidade e responsabilidade pública.
Mas a Igreja precisa lembrar de algo ainda mais fundamental:
antes de pedirmos que Deus transforme a sociedade, precisamos estar dispostos a pedir que Ele transforme a nós mesmos.
Porque talvez uma das maiores tragédias do nosso tempo seja esta: estarmos tão preocupados com as trevas ao nosso redor que já não percebemos as trevas que precisam ser removidas de dentro de nós.
Por isso, hoje, antes de reclamar, ore.
Antes de acusar, examine-se.
Antes de exigir arrependimento dos outros, arrependa-se.
Antes de perguntar onde está Deus no meio das trevas, volte-se para Ele.
Porque quando a Igreja cai de joelhos em arrependimento, ela descobre novamente aquilo que Miquéias já sabia:
“O SENHOR será a minha luz.”
Por Kleiton Fonseca

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