MULHER DE PASTOR NÃO É PASTORA: O PASTORADO FEMININO E A AGENDA IDEOLÓGICA FEMINISTA NAS IGREJAS EVANGÉLICA
MULHER DE PASTOR NÃO É PASTORA:
O PASTORADO FEMININO E A AGENDA IDEOLÓGICA FEMINISTA NAS IGREJAS EVANGÉLICA
Por Pr. Kleiton Fonseca
RESUMO'
Este artigo investiga a questão do pastorado feminino sob a ótica da teologia reformada clássica, contrastando a visão bíblica com as influências do feminismo contemporâneo nas igrejas evangélicas. O problema central abordado é a crescente aceitação da ordenação de mulheres ao ofício pastoral, prática que, segundo a tese defendida, carece de fundamento bíblico e histórico. A metodologia empregada consiste em uma análise bíblico-teológica dos textos pertinentes (e.g., 1 Timóteo 2-3; Tito 1), um levantamento histórico sobre o papel das mulheres na Igreja Primitiva e na Reforma, e uma análise crítica do surgimento do pastorado feminino como um fenômeno atrelado ao liberalismo teológico e à agenda feminista. O objetivo é reafirmar a distinção bíblica entre a igualdade ontológica de homens e mulheres e a diferença funcional nos ofícios eclesiásticos, defendendo que o ofício pastoral, por sua natureza de autoridade e ensino público, é biblicamente reservado a homens qualificados. A conclusão reitera que, embora as mulheres sejam indispensáveis para a vida e o serviço da igreja, o pastorado feminino representa um desvio da ordem criacional e da autoridade das Escrituras, impulsionado por ideologias seculares.
Palavras-chave: Pastorado feminino; Feminismo; Teologia reformada; Igreja; Autoridade bíblica.
1 INTRODUÇÃO — A MULHER E SUA IMPORTÂNCIA NA IGREJA
A discussão sobre os papéis ministeriais na Igreja de Cristo exige um retorno sóbrio e reverente às Escrituras, fonte de toda a fé e prática. Em um cenário de intensos debates culturais, a questão do pastorado feminino emergiu como um divisor de águas teológico. Antes, porém, de adentrar a análise dos ofícios, é imperativo estabelecer uma verdade fundamental: o profundo valor e a dignidade indispensável da mulher no plano redentor de Deus. Longe de ser uma figura secundária, a mulher é apresentada desde a Gênese até o Apocalipse como uma participante essencial na história da salvação.
A base para a antropologia bíblica é firmada na criação. Em Gênesis 1:27, a Escritura declara: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. A expressão *imago Dei* (imagem de Deus) é aplicada a ambos, sem distinção ou hierarquia de essência. Essa igualdade ontológica é reforçada na nova aliança, onde Paulo afirma que, em Cristo, as barreiras que dividem a humanidade são superadas no que tange à justificação: “Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28). Este texto, contudo, refere-se à paridade na salvação, e não à anulação das distinções funcionais estabelecidas na criação e reafirmadas no Novo Testamento (GRUDEM, 2012).
O ministério de Jesus foi marcadamente contra-cultural na forma como elevou e incluiu as mulheres. Em uma sociedade que frequentemente as marginalizava, Cristo lhes ofereceu dignidade, ensino e um papel ativo em Sua missão. Mulheres como Maria Madalena, Joana e Susana o "serviam com seus bens" (Lucas 8:1-3), atuando como patrocinadoras ativas do ministério. Maria de Betânia sentou-se aos pés de Jesus como discípula (Lucas 10:39), e foram as mulheres as primeiras testemunhas comissionadas a anunciar a ressurreição (João 20:11-18).
A igreja primitiva seguiu este exemplo. Paulo elogia suas colaboradoras, como Priscila, que, junto a seu marido, instruiu Apolo (Atos 18:26) e é chamada de "cooperadora" (*synergos*) em Cristo (Romanos 16:3). Febe é recomendada como *diakonos* (serva) e *prostatis* (protetora) da igreja em Cencréia (Romanos 16:1-2), um serviço honroso e vital, mas distinto do ofício de presbítero. Embora a mulher tenha um papel vital na Igreja, as Escrituras e a tradição reformada não reconhecem o pastorado feminino como ofício legítimo. Esta tese será defendida ao longo deste artigo, demonstrando que a distinção não é de valor, mas de função, um princípio divinamente ordenado.
2 O TESTEMUNHO DAS ESCRITURAS SOBRE O OFÍCIO PASTORAL
A teologia reformada sustenta que a estrutura e o governo da igreja não são deixados ao arbítrio humano, mas são regulados pela Palavra de Deus. No que tange ao ofício pastoral — também referido como presbiterato ou episcopado —, as Escrituras apostólicas estabelecem qualificações e funções específicas que o definem como masculino.
O texto mais explícito sobre a restrição funcional do ensino autoritativo na igreja é 1 Timóteo 2:11-14:
A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem sobre homem, mas que permaneça em silêncio. Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.
Nesta passagem, o apóstolo Paulo proíbe duas ações por parte da mulher na assembleia pública: "ensinar" (*didaskein*) e "exercer autoridade" (*authentein*). Como argumenta John Piper, o contexto indica que o "ensino" proibido é o ato de expor e defender a doutrina cristã com autoridade sobre a congregação. A proibição não é absoluta — Priscila, por exemplo, instruiu Apolo em um contexto privado. A restrição se aplica ao ensino público e autoritativo, função inerente ao presbítero (PIPER; GRUDEM, 1991). Crucialmente, Paulo não baseia sua instrução em fatores culturais, como a falta de educação feminina em Éfeso, mas a fundamenta em dois argumentos teológicos transculturais: a ordem da criação (Adão foi criado primeiro) e as consequências da Queda (Eva foi enganada).
As listas de qualificações para o ofício de presbítero/bispo em 1 Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9 reforçam essa perspectiva. Ambas as passagens estipulam que o candidato deve ser "irpreensível, marido de uma só mulher" (*mias gynaikos andra*). A linguagem é inequivocamente masculina. Além disso, a capacidade de governar bem a própria casa é apresentada como um pré-requisito, com a lógica de que "se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?" (1 Tm 3:5). Essa analogia entre a liderança familiar e a eclesiástica pressupõe a estrutura de liderança masculina estabelecida na criação. Como afirma R. C. Sproul (2010, p. 15), "a exigência de que um presbítero seja 'marido de uma só mulher' exclui tanto polígamos quanto mulheres".
A distinção bíblica, portanto, não é de valor, mas de vocação. Homens e mulheres são ontologicamente iguais diante de Deus, mas recebem papéis distintos e complementares na igreja e na família. O ofício pastoral, que envolve o governo espiritual e o ensino autoritativo da Palavra, é uma dessas funções vocacionais que as Escrituras atribuem a homens qualificados.
3 A HISTÓRIA DA IGREJA E A AUSÊNCIA DE PASTORAS
O testemunho unânime da história da igreja, desde a era apostólica até o limiar da modernidade, corrobora a interpretação de que o ofício pastoral é masculino. Durante quase dezenove séculos, a ordenação de mulheres ao presbiterato ou episcopado foi uma prática inexistente e teologicamente inconcebível para a corrente principal do cristianismo.
Na Igreja Primitiva, o papel das diaconisas, como Febe, era focado no serviço e na caridade, especialmente no cuidado de mulheres, doentes e pobres. Elas não participavam do governo da igreja nem do ensino público. Os Pais da Igreja, como Tertuliano (c. 160-220) e João Crisóstomo (c. 347-407), embora valorizassem o serviço feminino, foram explícitos em afirmar os limites funcionais do ministério das mulheres, proibindo-as de ensinar e de exercer autoridade na igreja.
Mulheres notáveis exerceram enorme influência sem a necessidade de ordenação. Marcela de Roma (c. 325-410) transformou seu palácio em um centro de estudos bíblicos e ascetismo, tornando-se mentora de homens como Jerônimo. Macrina, a Jovem (c. 330-379), foi a mentora intelectual e espiritual de seus irmãos, os Pais Capadócios Basílio de Cesareia e Gregório de Nissa. No entanto, sua influência era exercida por meio da sabedoria, piedade e ensino informal, não através de um ofício eclesiástico.
Os reformadores do século XVI, em seu retorno às Escrituras (*Sola Scriptura*), mantiveram a visão histórica. João Calvino, em suas *Institutas*, reafirma a ordem apostólica:
[...] a função de ensinar, segundo o Apóstolo, não é permitida à mulher. [...] Pois Paulo designa duas coisas: que ela ensine e que tenha domínio sobre o marido. Ambas as coisas são proibidas à mulher, e a segunda em particular, a saber, que ela não tenha primazia ou domínio sobre o marido. (CALVINO, 2006, Livro IV, cap. 10, seção 22).
Martinho Lutero, da mesma forma, não abriu espaço para a ordenação feminina. A ausência de pastoras na história da igreja até o século XIX não foi um acidente cultural, mas o resultado consistente da leitura e aplicação das Escrituras pela igreja ao longo dos séculos.
4 O SURGIMENTO DO PASTORADO FEMININO E O FEMINISMO
A prática da ordenação feminina é um fenômeno recente, cujo surgimento está intrinsecamente ligado a dois movimentos do século XIX: o liberalismo teológico e a primeira onda do feminismo. Não foi uma redescoberta de uma verdade bíblica perdida, mas uma inovação impulsionada por pressões sociais e ideológicas externas à igreja.
O liberalismo teológico, que floresceu na Alemanha e se espalhou pela Europa e América, promoveu uma hermenêutica crítica que questionava a autoridade e a inspiração divina das Escrituras. Textos apostólicos, como os de Paulo, passaram a ser vistos como culturalmente condicionados e não normativos para a igreja moderna. Como observa Gresham Machen em sua obra clássica *Cristianismo e Liberalismo*, o liberalismo não é uma variação do cristianismo, mas uma religião completamente diferente, que substitui a autoridade de Deus pela autoridade da "cultura moderna" (MACHEN, 1923).
Nesse solo fértil de relativismo bíblico, as reivindicações da primeira onda feminista encontraram eco. O movimento, que lutava por direitos civis como o sufrágio, também passou a exigir igualdade de funções dentro da igreja. A primeira mulher a ser ordenada formalmente ao ministério pastoral foi Antoinette Brown, em 1853, por uma Igreja Congregacionalista nos Estados Unidos, um epicentro do pensamento progressista e abolicionista. Sua ordenação foi um ato de protesto social, não o resultado de uma nova exegese ortodoxa.
Como documenta Mary Kassian em *The Feminist Mistake*, a agenda feminista, desde o seu início, buscou desconstruir as distinções de papéis entre homens e mulheres, vistas como uma manifestação do "patriarcado" opressor. A Bíblia, com suas exortações à submissão e à liderança masculina, tornou-se um alvo primário. A ordenação feminina, nesse contexto, representou uma vitória simbólica da ideologia igualitária sobre a teologia bíblica tradicional. O declínio da ortodoxia em denominações protestantes históricas, como metodistas, presbiterianos (PCUSA) e anglicanos, caminhou lado a lado com a aceitação do pastorado feminino, confirmando que a prática está mais associada a uma trajetória de liberalização teológica do que a uma fidelidade renovada às Escrituras.
5 O PASTORADO FEMININO NA CONTEMPORANEIDADE
No cenário contemporâneo, a influência do feminismo nas igrejas evangélicas se aprofundou, passando de uma reivindicação por "igualdade" para uma completa revisão da hermenêutica e da teologia. A teologia feminista, agora em sua terceira e quarta ondas, opera sob uma "hermenêutica da suspeita", que lê a Bíblia não como a Palavra de Deus revelada, mas como um texto patriarcal que precisa ser "libertado" de suas próprias estruturas opressivas.
Essa abordagem subverte a autoridade bíblica de várias maneiras:
1. Reinterpretação Radical: Textos claros de restrição, como 1 Timóteo 2:12, são reinterpretados como proibições estritamente locais e temporárias, ou até mesmo como interpolações não paulinas.
2. Canon dentro do Canon: Passagens que promovem a igualdade (como Gálatas 3:28) são elevadas a um status canônico superior, sendo usadas para anular e invalidar outras partes da Escritura.
3. Ênfase na Experiência: A experiência pessoal e coletiva das mulheres passa a ser uma fonte de revelação com autoridade igual ou superior à da Bíblia.
A influência dessa ideologia é visível na trajetória de grandes denominações. A Igreja Anglicana, por exemplo, após décadas de debate, passou a ordenar mulheres como bispas e, recentemente, elegeu a primeira arcebispa, um símbolo do completo afastamento da ordem eclesial histórica. O mesmo ocorreu com metodistas, luteranos e batistas progressistas, onde a aceitação do pastorado feminino frequentemente precedeu a aceitação de outras agendas contrárias à ortodoxia cristã.
O resultado prático é a relativização da autoridade pastoral, a desfiguração da estrutura bíblica da igreja e uma profunda confusão doutrinária. Quando a igreja substitui a revelação divina pela ideologia secular, ela perde sua voz profética e sua identidade como "coluna e baluarte da verdade" (1 Tm 3:15).
6 CONCLUSÃO — “ESPOSA DE PASTOR NÃO É PASTORA”
Este artigo buscou demonstrar, com base nas Escrituras, na história e na análise teológica, que o ofício pastoral é, por desígnio divino, uma função masculina. A tese central, de que o pastorado feminino não encontra legitimação na tradição bíblica e reformada, foi sustentada pela análise de textos-chave, pelo testemunho unânime da história da igreja por quase 1900 anos e pela conexão direta entre o surgimento da prática e a ascensão do liberalismo teológico e do feminismo.
Isso nos leva ao corolário do tema: "esposa de pastor não é pastora". O chamado pastoral é individual, vocacional e intransferível. A esposa de um pastor tem um papel honroso e crucial como sua "ajudadora idônea" (Gênesis 2:18), uma parceira no ministério, uma conselheira e uma fonte de apoio. Seu serviço é indispensável, mas seu chamado não é o mesmo de seu marido. Confundir os papéis ou assumir uma posição de "co-pastora" é criar um ofício que não existe nas Escrituras e enfraquecer a clareza do chamado pastoral.
Ademais, a confusão de papéis gera cenários de profunda incongruência teológica e relacional, como se observa em alguns contextos contemporâneos. Não é incomum encontrar situações em que a mulher é ordenada pastora e seu marido não, criando uma inversão direta da ordem bíblica: a mulher se torna a cabeça da igreja, enquanto o homem, que é o cabeça do lar, torna-se eclesiasticamente submisso à sua esposa. Essa estrutura contraditória fragmenta a autoridade e a complementaridade ensinadas nas Escrituras, evidenciando que a prática do pastorado feminino não apenas viola os preceitos sobre o ofício, mas também desestabiliza a ordem criacional para a família e a igreja.
O perigo da distorção ministerial é afastar a igreja da fidelidade bíblica, substituindo a revelação pela ideologia e a ordem divina pela conformidade com o mundo. Em uma era de confusão, a igreja é chamada a se manter firme na Palavra.
Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. (2 Timóteo 3:16-17).
A igreja fiel não se conforma com este século (Romanos 12:2), mas busca, em tudo, fazer as coisas "com decência e ordem" (1 Coríntios 14:40), para a glória de Deus e a edificação do Seu povo.
7 REFERÊNCIAS
BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada. Vol. IV. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Ed. Clássica. Vol. 4. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
GRUDEM, Wayne. Evangelical Feminism and Biblical Truth: An Analysis of More Than 100 Disputed Questions. Wheaton: Crossway, 2012.
KASSIAN, Mary A. The Feminist Mistake: The Radical Impact of Feminism on the Church and Culture. Wheaton: Crossway Books, 2005.
LUTHER, Martin. Obras Selecionadas. Vol. 5: Ética Cristã. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1995.
MACHEN, J. Gresham. Christianity and Liberalism. Grand Rapids: Eerdmans, 1923.
PIPER, John; GRUDEM, Wayne (Eds.). Recovering Biblical Manhood and Womanhood: A Response to Evangelical Feminism. Wheaton: Crossway, 1991.
SPROUL, R. C. O Papel da Mulher na Igreja. São José dos Campos: Fiel, 2010.

É um artigo que há muito tempo procuro.
ResponderEliminarEstou em busca de uma igreja onde possa ser discipulado, batizado e crescer na fé. Como tenho procurado uma igreja bíblica e reformada, tenho estudado as características que distinguem uma congregação fiel à Palavra de Deus. Uma das convicções que tenho é a rejeição ao pastorado feminino — independentemente da organização ou ordem da igreja. Para mim, se há ‘pastora’, rejeito a congregação.
Recentemente encontrei uma igreja cujo pastor foi meu professor no ensino médio. No primeiro dia, pensei que ele abriria e fecharia o culto, mas foi uma mulher quem conduziu as primeiras atividades: leitura de um Salmo, cânticos de louvor, recolha de ofertas e dízimos. Só depois o pastor subiu para pregar. Fiquei confuso, porque para mim essas funções representam exercício de autoridade e governo espiritual sobre a congregação.
No segundo culto que frequentei, o cenário foi o mesmo. No final, conversei com ele, mostrei os textos de 1 Timóteo e Tito. Antes mesmo disso, havia chamado sua esposa de ‘pastora’ — e ela de facto se considera assim. Na conversa, tanto ele quanto ela defenderam que ‘Deus usa quem quer’.
Essa situação deixou-me desmotivado. Eu realmente preciso encontrar uma igreja fiel à doutrina bíblica. Por isso, estou a pedir orientação.