Paralelos Teológicos:Igrejas Evangélicas com Roupagem Católico Medieval.
Paralelos Teológicos:Igrejas Evangélicas com Roupagem Católico Medieval.
Catolicismo Medieval e o Evangelicalismo Contemporâneo
Por Pr.Kleiton Fonseca
Introdução
A Reforma Protestante do século XVI não foi meramente um evento histórico, mas um divisor de águas teológico que redefiniu a compreensão da fé cristã no Ocidente. Impulsionada por figuras como Martinho Lutero e João Calvino, a Reforma surgiu em um contexto de profunda crise moral e teológica na Igreja Católica Romana medieval. Práticas como a venda de indulgências, a centralidade quase absoluta do Papa, a veneração de santos e relíquias, e a acumulação de vastas riquezas pela hierarquia eclesiástica, geraram um clamor por renovação. Essas questões não apenas corroíam a credibilidade da Igreja, mas também obscureciam a mensagem central do evangelho, substituindo a graça divina por méritos humanos e a autoridade da Escritura por tradições eclesiásticas [1].
Este artigo propõe uma análise comparativa entre o Catolicismo Romano medieval e certas manifestações do Pentecostalismo e Neopentecostalismo contemporâneos. Longe de ser uma mera crítica denominacional, o objetivo é identificar paralelos surpreendentes em suas práticas, estruturas de autoridade e compreensões espirituais que, em essência, se desviam dos princípios reformados e da centralidade da Escritura. Utilizando a Bíblia, a história da Reforma e a teologia reformada como lentes, buscaremos demonstrar como, apesar das diferenças históricas e contextuais, ambos os movimentos podem, em certas instâncias, apresentar desvios teológicos semelhantes, que obscurecem a suficiência de Cristo e a autoridade da Palavra de Deus.
Autoridade e Hierarquia
Catolicismo Romano Medieval
No Catolicismo Romano medieval, a autoridade era fundamentada em uma tríade: a Tradição, os Concílios e as Escrituras, sendo que a interpretação final e infalível dessas fontes cabia ao Magistério da Igreja, liderado pelo Papa. O Papa era considerado o Vigário de Cristo na Terra, detentor de autoridade suprema e infalível em questões de fé e moral, especialmente após a formalização de sua primazia. Essa estrutura hierárquica verticalizada colocava o Papa e a cúria romana no ápice da autoridade eclesiástica, com bispos e sacerdotes exercendo poder delegado. A Tradição, entendida como a transmissão da fé e dos ensinamentos apostólicos ao longo dos séculos, muitas vezes recebia um peso igual ou até superior à Escritura, conforme criticado pelos reformadores. A obediência à hierarquia era vista como essencial para a salvação, e qualquer desvio da doutrina oficial era severamente reprimido [1].
Igrejas Pentecostais e Neopentecostais Contemporâneas
Em contraste aparente, muitas igrejas pentecostais e neopentecostais contemporâneas afirmam a Sola Scriptura como seu princípio fundamental de autoridade. Contudo, na prática, a autoridade pode ser exercida de maneiras que criam paralelos com a estrutura medieval. Frequentemente, a interpretação da Escritura é mediada por "profecias" e "revelações" dadas a líderes carismáticos, que se tornam figuras centrais e, por vezes, inquestionáveis. A "palavra do pastor" ou do "apóstolo" pode adquirir um peso normativo que, na prática, rivaliza com a própria Bíblia. Além disso, as "tradições da igreja local" ou as "normas internas" estabelecidas por esses líderes podem ter uma força vinculante sobre os fiéis, moldando a conduta e a doutrina de forma significativa. A ênfase na figura do "ungido" de Deus, que não pode ser tocado ou criticado, cria uma hierarquia de poder onde o líder se torna uma autoridade quase absoluta, exigindo obediência irrestrita e lealdade incondicional [2].
Paralelos e Críticas Reformadas
Os reformadores, como Martinho Lutero e João Calvino, criticaram veementemente a centralização da autoridade na figura do Papa e a elevação da Tradição acima da Escritura. Lutero, em seu Comentário sobre Romanos, enfatizou que a justificação é pela fé e que a autoridade final reside na Palavra de Deus, não em decretos papais ou conciliares. Ele desafiou a ideia de que clérigos eram "ungidos intocáveis", argumentando que todos os crentes têm acesso direto a Deus através de Cristo. Calvino, em suas Institutas da Religião Cristã (Livro 4), discute a natureza da Igreja e a autoridade de seus ministros, afirmando que eles são servos da Palavra, não seus senhores. Ele argumentou que a verdadeira autoridade reside na Escritura e que os líderes devem ser examinados à luz dela, assim como os bereanos que "receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim" (Atos 17:11). Paulo também resistiu publicamente a Pedro (Cefas) quando este se desviou do evangelho (Gálatas 2:11), demonstrando que mesmo apóstolos não estavam acima da correção bíblica.
Práticas e Paralelos
Indulgências vs. Dízimos e Votos
No Catolicismo Romano medieval, a prática das indulgências representava um desvio significativo da doutrina bíblica da salvação pela graça. A Igreja oferecia a remissão de penas temporais devidas pelos pecados em troca de doações monetárias, transformando o perdão divino em uma transação comercial. Essa prática, que visava financiar projetos eclesiásticos e enriquecer a hierarquia, foi um dos principais catalisadores da Reforma Protestante. Lutero e outros reformadores denunciaram a ideia de que a salvação ou a diminuição do tempo no purgatório pudesse ser comprada, enfatizando que a graça de Deus é gratuita e a salvação é recebida pela fé, sem dinheiro e sem preço (Isaías 55:1; Atos 8:20).
Relíquias Sagradas vs. Objetos Ungidos
O Catolicismo medieval atribuía grande poder e significado às relíquias sagradas – objetos físicos associados a santos, mártires ou a Cristo. Ossos, cabelos, fragmentos de vestes ou da cruz eram venerados como canais de graça, cura e proteção. A crença de que esses objetos possuíam virtudes sobrenaturais levou a um comércio e uma busca incessante por relíquias, muitas vezes de autenticidade duvidosa. Essa prática desviava a fé do Deus vivo para objetos materiais, contrariando a natureza espiritual da adoração (João 4:24) e a suficiência do sacrifício de Cristo (Hebreus 9:9-10).
De forma análoga, em muitas igrejas pentecostais e neopentecostais, observa-se o uso de objetos ungidos – lenços, óleos, copos de água, sal, rosas, etc. – aos quais se atribui poder espiritual para curar, proteger ou trazer prosperidade. Esses objetos, após serem "ungidos" por um líder religioso, são distribuídos aos fiéis com a promessa de que, ao tocá-los ou usá-los, receberão bênçãos específicas. Essa prática, embora apresentada como bíblica, carece de fundamento nas Escrituras para o uso contemporâneo e pode promover uma fé supersticiosa, onde a confiança é depositada no objeto e não diretamente em Cristo. A busca por manifestações tangíveis de poder através de objetos pode obscurecer a verdade de que Deus é Espírito e deve ser adorado em espírito e em verdade [2].
Veneração de Santos vs. Idolatria de Líderes e Cantores Gospel
A veneração de santos era uma prática central no Catolicismo medieval, onde os santos eram vistos como intercessores poderosos junto a Deus. Embora a doutrina católica distinguisse veneração de adoração, na prática popular, a devoção aos santos muitas vezes se aproximava da idolatria, com os fiéis buscando neles a intercessão e o favor que deveriam ser buscados diretamente em Cristo. Essa prática foi veementemente criticada pelos reformadores como um desvio da adoração exclusiva a Deus e da suficiência de Cristo como único mediador (1 Timóteo 2:5).
Exclusivismo Religioso
O Catolicismo medieval defendia a doutrina de que "fora da Igreja não há salvação" (Extra Ecclesiam Nulla Salus), o que significava que a adesão à Igreja Católica e seus sacramentos era vista como o único caminho para a vida eterna. Essa visão exclusivista reforçava a autoridade da Igreja e gerava um ambiente de controle e conformidade, onde a dissidência era vista como uma ameaça à salvação.
De maneira similar, algumas igrejas pentecostais e neopentecostais podem manifestar um exclusivismo religioso que sugere que a verdadeira salvação, a plenitude da vida cristã ou as bênçãos divinas só são alcançáveis dentro de sua denominação específica ou sob a liderança de seu pastor. A saída da igreja é frequentemente associada a maldições, perdas espirituais ou ao afastamento da vontade de Deus, criando um ambiente de medo e dependência institucional. Essa mentalidade contrasta com a verdade bíblica de que Jesus Cristo é o único caminho para a salvação (João 14:6), e que a fé Nele é suficiente para a justificação (Romanos 10:9-10), independentemente da afiliação denominacional. O fundamento da fé é Cristo, e não uma instituição ou um líder humano (1 Coríntios 3:11).
Análise Teológica: Desvios do Evangelho Puro
A análise comparativa entre o Catolicismo Romano medieval e certas vertentes do Pentecostalismo e Neopentecostalismo contemporâneos revela um padrão preocupante de desvios do evangelho puro, muitas vezes mascarados por uma linguagem de piedade ou busca espiritual. Em ambos os contextos, observa-se uma tendência a acrescentar tradições humanas à Palavra de Deus, comprometendo a suficiência de Cristo e a autoridade da Escritura, princípios tão arduamente defendidos pela Reforma Protestante.
A Centralidade de Cristo e da Escritura
A teologia reformada, através de seus expoentes clássicos e contemporâneos, sempre insistiu na centralidade de Cristo e na suficiência da Escritura. João Calvino, em suas Institutas, argumentou que a verdadeira piedade consiste em conhecer a Deus e a nós mesmos, e que esse conhecimento é mediado unicamente pela Palavra revelada. Ele alertou contra a invenção de novas formas de adoração ou a adição de preceitos humanos que desviam da simplicidade do evangelho. Martinho Lutero, por sua vez, combateu a ideia de que a salvação poderia ser alcançada por qualquer outro meio que não a fé em Cristo, o único mediador e salvador.
Teólogos reformados como Herman Bavinck e G.C. Berkouwer aprofundaram a compreensão da revelação divina, enfatizando a inerrância e a autoridade final da Escritura como a Palavra de Deus. Bavinck, em sua Dogmática Reformada, defende que a Escritura é a norma normativa para toda a fé e vida cristã, e que qualquer autoridade que se coloque acima dela é ilegítima. Berkouwer, em seus Estudos em Dogmática, reforça a ideia de que a Escritura é a única fonte de conhecimento salvífico, e que a fé deve estar ancorada nela, e não em experiências subjetivas ou tradições humanas.
Mais recentemente, R.C. Sproul e J.I. Packer continuaram a defender a Sola Scriptura e a Sola Gratia, alertando contra a superficialidade teológica e a tendência de diluir o evangelho para torná-lo mais palatável. Sproul, em sua defesa da santidade de Deus, frequentemente criticava qualquer teologia que diminuísse a soberania divina ou a exclusividade de Cristo. Packer, em Knowing God, enfatiza que o verdadeiro conhecimento de Deus vem através de Sua Palavra e que a piedade genuína é moldada pela verdade bíblica. Esses teólogos nos lembram que a fé cristã não é construída sobre "fábulas engenhosas" ou "interpretação particular" (2 Pedro 1:20-21), mas sobre a revelação objetiva e inerrante de Deus na Escritura.
O problema, portanto, não é meramente institucional ou denominacional, mas fundamentalmente teológico e espiritual. Quando a glória de Deus é dividida com homens, quando a suficiência de Cristo é complementada por rituais ou objetos, e quando a autoridade da Escritura é suplantada por "profecias" ou "revelações" humanas, o evangelho é pervertido. A exortação de Judas 3 permanece relevante: "Amados, enquanto eu empregava toda a diligência para vos escrever acerca da salvação que nos é comum, senti a necessidade de vos escrever, exortando-vos a batalhar diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos."
Conclusão
Ao longo deste artigo, examinamos paralelos notáveis entre o Catolicismo Romano medieval e certas manifestações do Pentecostalismo e Neopentecostalismo contemporâneos. Embora separados por séculos e contextos culturais distintos, ambos os movimentos, em suas expressões desviantes, demonstram uma tendência comum de obscurecer a pureza do evangelho ao adicionar tradições humanas, hierarquias autoritárias e práticas que desviam a atenção da suficiência de Cristo e da autoridade da Escritura. Seja na venda de indulgências medievais ou na teologia da prosperidade contemporânea, na veneração de relíquias ou no uso de objetos ungidos, na centralidade do Papa ou na idolatria de líderes carismáticos, o perigo reside em substituir a graça gratuita de Deus por um sistema de obras, méritos ou manipulações espirituais.
Que possamos ouvir o convite de Cristo: "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo." (Apocalipse 3:20). A verdadeira comunhão e salvação são encontradas Nele, e não em rituais, objetos ou líderes que buscam usurpar Sua glória.
Referências

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