Martin Chemnitz (1522–1586): O “Segundo Martim” e a Consolidação da Ortodoxia Luterana
Martin Chemnitz (1522–1586): O “Segundo Martim” e a Consolidação da Ortodoxia Luterana
Por. Pr.Kleiton Fonseca
Martin Chemnitz (1522–1586) emerge como uma das figuras teológicas mais proeminentes da segunda geração da Reforma Protestante. Sua contribuição foi decisiva para a estabilização e aprofundamento da fé luterana após a morte de Martinho Lutero e Filipe Melanchthon. Reconhecido na tradição luterana como o Alter Martinus (o "Outro Martinho") ou o "Segundo Martim", sua importância é resumida no ditado popular: "Si Martinus non fuisset, Martinus vix stetisset" ("Se Martinho [Chemnitz] não tivesse existido, Martinho [Lutero] dificilmente teria permanecido"). Este artigo examina sua vida, obras centrais (em particular o Examen Concilii Tridentini), sua relevância na Reforma e sua firme conexão teológica com as Cinco Solas.
Contexto Histórico e Biográfico
Nascido em Treuenbrietzen, em Brandemburgo, Chemnitz teve uma formação marcada pela dificuldade financeira, o que o levou a conciliar estudos e trabalho, atuando em Wriezen antes de retornar aos estudos. Sua trajetória acadêmica incluiu passagens pelas Universidades de Frankfurt (Oder) e, crucialmente, Wittenberg, onde pôde absorver diretamente os ensinamentos de Melanchthon e, por um breve período, de Lutero. Embora não tenha estudado teologia formalmente de início (focando-se em gramática e astrologia), sua sede por conhecimento o levou a um estudo aprofundado e autodidata das Escrituras, dos Pais da Igreja e da teologia reformada.
Após servir como bibliotecário e assistente em Königsberg, em 1554, foi ordenado em Wittenberg e assumiu o cargo de coadjutor e, mais tarde, Superintendente em Braunschweig. Sua vocação teológica floresceu nesse período, tornando-se o principal baluarte contra os desafios internos (disputas entre luteranos) e externos (oposição católica).
Obras Centrais e a Consolidação da Ortodoxia
Chemnitz é fundamental para a consolidação da ortodoxia luterana (ou Confessionalismo Luterano) no final do século XVI. Sua pena produziu obras que se tornaram padrões doutrinários e apologéticos.
Examen Concilii Tridentini (Exame do Concílio de Trento, 1565–1573)
A obra-prima de Chemnitz é o Examen Concilii Tridentini, uma refutação em quatro volumes dos decretos do Concílio de Trento (1545–1563), a resposta formal da Igreja Católica Romana à Reforma. Como observa o tradutor Fred Kramer, o Examen é "a maior obra polêmica da literatura luterana e a refutação protestante mais abrangente do Concílio" (Kramer, Examination of the Council of Trent, Prefácio).
Sua estrutura e conteúdo seguem a ordem dos tópicos abordados por Trento, analisando os decretos e cânones com profundidade exegética e patrística. As quatro principais áreas de refutação são:
Escritura e Tradição (Sola Scriptura): Chemnitz desmantela a justificação tridentina para a Tradição oral, insistindo que a Escritura é a única fonte e regra infalível de fé (o princípio formal da Reforma). Ele utiliza vasto conhecimento dos Pais da Igreja para mostrar que a autoridade que eles atribuíam à "tradição" se referia ao ensino apostólico já preservado na Bíblia ou no Credo Niceno, e não a um corpo de doutrinas orais equivalentes.
Justificação (Sola Fide e Sola Gratia): Esta é a seção mais crucial. Chemnitz defende a justificação forense – a declaração de justiça de Deus ao pecador mediante a imputação da justiça de Cristo, recebida somente pela fé. Ele refuta a ênfase tridentina na justificação como um processo de infusão de graça, que torna o crente intrinsecamente justo. Para Chemnitz, a justiça que salva é aliena (de outro), a de Cristo.
Sacramentos (Batismo, Ceia do Senhor, etc.): Ele aborda os sete sacramentos romanos, aceitando apenas o Batismo e a Ceia do Senhor, e rejeitando a doutrina católica da transubstanciação.
A Igreja (Eclesiologia): O Examen defende uma eclesiologia reformada, contrastando a autoridade papal com o sacerdócio de todos os crentes.
O Examen se tornou o texto-padrão luterano para o diálogo e a polêmica com o Catolicismo Romano, sendo a defesa teológica mais respeitada da fé protestante contra a contra-Reforma.
Formula of Concord (Fórmula de Concórdia, 1577)
Chemnitz foi o principal autor, juntamente com Jakob Andreae, da Fórmula de Concórdia, que em 1580 se tornou parte do Livro de Concórdia (The Book of Concord, edição de Robert Kolb & Timothy J. Wengert). A Fórmula resolveu as intensas disputas internas (Adiaforísticas, Sinergísticas, Osiandristas, Antinomistas, Criptocalvinistas) que ameaçavam dividir o Luteranismo após a morte de Lutero. Seu objetivo era estabelecer uma confissão unificada e teologicamente sólida, garantindo que o Luteranismo do final do século permanecesse fiel ao legado de Wittenberg.
Importância Teológica e a Conexão com as Cinco Solas
A teologia de Chemnitz está intrinsecamente ligada à defesa e elucidação do que seriam mais tarde chamadas as Cinco Solas da Reforma.
Sola Scriptura (Somente a Escritura)
Chemnitz defendeu veementemente a Sola Scriptura como o princípio normativo supremo da Igreja. Sua defesa no Examen contra a autoridade da Tradição oral católica é o maior testemunho disso. Ele não negligenciou a história da Igreja, mas subordinou-a à Palavra inspirada, ecoando a afirmação de Agostinho citada na Reforma: “Eu não acreditaria no Evangelho, a menos que a autoridade da Igreja me movesse a isso.” Chemnitz utilizou os Pais da Igreja como testemunhas da fé antiga, mas não como uma autoridade final de igual peso com a Bíblia. A Escritura é a única fonte divinamente inspirada e, portanto, inerrante e suficiente (2 Timóteo 3:16-17).
Sola Fide e Sola Gratia (Somente a Fé e Somente a Graça)
A defesa da Justificação por Chemnitz é seu maior legado teológico e o ponto central de sua refutação a Trento. Ele estabelece de forma clara e inconfundível a natureza da Sola Fide, ancorada na Sola Gratia:
"O Concílio de Trento [...] afirma que a formalidade da justificação não é somente a remissão dos pecados, mas também a santificação e a renovação interior do homem... O contraste entre a doutrina do Evangelho e a doutrina do Concílio está claramente manifesto... Nós somos justificados e aceitos por Deus por causa do mérito de Cristo, que é aplicado a nós pela fé. Esta justificação é puramente forense, a remissão dos pecados e a imputação da justiça de Cristo" (Chemnitz, Examen, adaptação de trechos da seção sobre Justificação).
Chemnitz insiste que a salvação se baseia unicamente na graça (Sola Gratia, Efésios 2:8-9), e que o instrumento de apropriação dessa justiça é a fé, que não é mérito, mas receptáculo da justiça de Cristo (Sola Fide, Romanos 3:28).
Solus Christus (Somente Cristo)
Implícita e explicitamente, a teologia de Chemnitz está centrada no Solus Christus (Somente Cristo). A doutrina da imputação é o coração desse sola: a salvação não se deve a nenhuma obra ou mérito do crente, mas unicamente à obra perfeita de Cristo (Sua vida em obediência e Sua morte sacrificial), que é creditada (imputada) ao crente. Chemnitz enfatiza que não somos justificados por uma graça infusa (dentro de nós), mas pela justiça externa de Cristo (em favor de nós), defendendo assim a suficiência absoluta do Salvador.
Soli Deo Gloria (Glória Somente a Deus)
Ao desviar a base da justificação de qualquer esforço humano ou mérito infuso, e ao fixá-la na Graça, na Fé e em Cristo, o sistema teológico de Chemnitz naturalmente desemboca no Soli Deo Gloria (Glória Somente a Deus, Isaías 42:8). Se a salvação é inteiramente a obra de Deus—desde a revelação de Sua vontade na Escritura, passando pela concessão de Sua Graça e a provisão de Seu Filho, até a apropriação pela Fé—então a Ele e somente a Ele pertence toda a glória.
Conclusão: A Relevância de Martin Chemnitz
Martin Chemnitz não foi apenas um "Segundo Martim," mas um teólogo original e indispensável. Se Lutero lançou a semente da Reforma, Chemnitz, por meio de seu rigor e profundidade, a cultivou, a defendeu e a estabilizou. Sua obra Examen Concilii Tridentini permanece a refutação clássica e mais detalhada da teologia contrarreformista, e sua participação na Fórmula de Concórdia assegurou a coesão do Luteranismo.
A relevância de Chemnitz hoje para a teologia reformada e luterana reside em sua clareza sobre o cerne do Evangelho: a justificação pela imputação da justiça de Cristo, recebida pela fé somente. Em um cenário teológico contemporâneo onde a justificação forense é frequentemente desafiada ou confundida com a santificação (a infusão de justiça), Chemnitz é um lembrete robusto e academicamente sólido do princípio material da Reforma, defendendo com profundidade bíblica e patrística que a salvação é inteiramente uma dádiva divina—uma verdade que ressoa com todas as Cinco Solas.
Seu legado desafia os teólogos a se engajarem com a tradição histórica da Igreja (ad fontes) para defender a Sola Scriptura, enquanto reafirmam a pureza da Sola Fide contra qualquer vestígio de sinergismo ou justificação intrínseca, garantindo que toda a glória seja eternamente devida a Deus.
Notas Explicativas:
Imputação (Justificação Forense): Refere-se à ideia de que a justiça de Cristo é creditada (ou "imputada") ao pecador no tribunal de Deus, fazendo com que ele seja declarado justo (forense) perante a lei divina. É o oposto da justificação como infusão ou transformação (tornar-se justo), que era a visão condenada por Trento e refutada por Chemnitz.
Ad Fontes: Expressão latina ("Às fontes") que guiava os humanistas e reformadores, incitando o retorno ao estudo das fontes originais da fé (Escritura e Pais da Igreja) em vez das tradições medievais tardias. Chemnitz exemplificou isso em seu vasto uso dos Pais.
Fontes diretas e seguras
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Chemnitz, Martin. Examination of the Council of Trent, 4 vols. Trans. Fred Kramer. Concordia Publishing House, 1971–1986.
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Kolb, Robert; Wengert, Timothy J. (eds.). The Book of Concord. Fortress Press, 2000.
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Schaff, Philip. History of the Christian Church. Vol. VII. Hendrickson, 1996.
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Bente, F. Historical Introductions to the Book of Concord. Concordia Publishing House, 1965.

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