O Trideísmo: Uma Análise Teológica e Histórica
O Triteísmo: Uma Análise Teológica e Histórica
Por Pr. Kleiton Fonseca
Resumo
Este artigo explora o conceito de triteísmo, uma heresia anti-trinitária que postula a existência de três deuses distintos, em contraste com a doutrina cristã ortodoxa da Trindade. Aborda suas origens históricas, os principais expositores, a condenação pelos concílios ecumênicos e o combate pelos Pais da Igreja. Além disso, analisa como manifestações inadvertidas do triteísmo podem surgir em igrejas evangélicas contemporâneas e oferece uma refutação teológica fundamentada em textos bíblicos e na teologia trinitária clássica.
1. Introdução
A doutrina da Trindade é um dos pilares centrais da fé cristã, afirmando que Deus é um em essência, subsistindo em três Pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. No entanto, ao longo da história da Igreja, diversas interpretações desviantes surgiram, buscando explicar a natureza divina. Entre elas, o triteísmo representa uma das heresias mais significativas, pois, ao tentar compreender a distinção das Pessoas divinas, acaba por fragmentar a unidade de Deus, resultando na crença em três divindades separadas. Este artigo visa desmistificar o triteísmo, traçando sua trajetória histórica, analisando sua condenação e oferecendo uma refutação bíblico-teológica, além de alertar para suas manifestações sutis no cenário eclesiástico atual.
2. O Triteísmo: Definição e Origens Históricas
O triteísmo é a crença em três deuses distintos, em oposição direta à doutrina trinitária que defende um único Deus em três Pessoas co-iguais e co-eternas. Essencialmente, nega a unidade da essência divina, transformando a Trindade em uma tríade de divindades independentes [1].
2.1. Primeiros Expositores
As raízes do triteísmo podem ser identificadas em diferentes períodos:
- Século VI: Entre os primeiros a serem associados a ideias triteístas estão os monofisitas João Filopono (falecido por volta de 570 d.C.) e seus seguidores, como Eugênio e Conon de Tarso. Suas formulações teológicas, ao separar as Pessoas da Trindade de forma excessiva, foram interpretadas como triteístas por seus oponentes [1].
- Século XI: No final do século XI, o monge católico Roscelin de Compiègne, na França, também defendeu uma forma de triteísmo, considerando as três Pessoas Divinas como seres independentes, divergindo da compreensão ortodoxa da Trindade [1].
3. A Condenação pelos Concílios e o Combate dos Pais da Igreja
A doutrina da Trindade foi desenvolvida e afirmada nos primeiros credos ecumênicos da Igreja para combater heresias que ameaçavam a compreensão da natureza de Deus. Embora o triteísmo não tenha sido o foco principal de concílios como Niceia e Constantinopla, a ênfase na unidade da substância divina serviu como uma barreira contra essa heresia.
3.1. Concílios Ecumênicos
Os grandes concílios ecumênicos, como o Primeiro Concílio de Niceia (325 d.C.) e o Primeiro Concílio de Constantinopla (381 d.C.), foram cruciais para a formulação da doutrina trinitária ortodoxa. Eles combateram principalmente o arianismo (que negava a divindade plena de Cristo) e o sabelianismo (que via as Pessoas da Trindade como meros modos ou manifestações de um único Deus). Ao afirmar a consubstancialidade (homoousios) do Filho com o Pai e a divindade do Espírito Santo, esses concílios estabeleceram um fundamento que, por implicação, refutava o triteísmo, pois defendiam a unidade essencial de Deus [2].
3.2. Pais da Igreja Diversos Pais da Igreja
Desempenharam um papel fundamental na defesa da Trindade e na refutação de heresias, incluindo aquelas que se assemelhavam ao triteísmo:
Tertuliano (c. 160-220 d.C.): Em sua obra Contra Práxeas, Tertuliano combateu o modalismo, mas ao fazê-lo, estabeleceu a distinção entre as Pessoas da Trindade sem comprometer a unidade divina. Sua formulação de "uma substância, três pessoas" (una substantia, tres personae) foi crucial para a teologia trinitária e, consequentemente, para a refutação do triteísmo [2].
Atanásio de Alexandria (c. 296-373 d.C.): Grande defensor da ortodoxia nicena, Atanásio lutou contra o arianismo, que subordinava o Filho ao Pai. Sua defesa da plena divindade de Cristo e da unidade essencial com o Pai foi um baluarte contra qualquer fragmentação da Divindade [2].
Os Padres Capadócios (Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa): No século IV, esses teólogos refinaram a linguagem trinitária, distinguindo entre ousia (essência ou substância) e hypostasis (pessoa). Eles enfatizaram que há uma única ousia (um só Deus) e três hypostaseis (três Pessoas), combatendo tanto o sabelianismo quanto qualquer tendência triteísta. Gregório de Nazianzo, por exemplo, afirmou a unidade da Divindade e a distinção das Pessoas, declarando: "Pois nem o Filho é o Pai, pois o Pai é Um, mas Ele é o que o Pai é; nem o Espírito é o Filho porque Ele é de Deus, pois o Unigênito é Um, mas Ele é o que o Filho é. Os Três são Uma Divindade, e o Um, três em Suas características" [2].
4. O Triteísmo Inadvertido em Igrejas Evangélicas Contemporâneas
Embora o termo "triteísmo" seja raramente usado explicitamente hoje, a essência dessa heresia pode se manifestar de forma sutil em certas compreensões e ensinamentos da Trindade em igrejas evangélicas. Isso ocorre frequentemente por uma ênfase exagerada na distinção das Pessoas divinas, em detrimento da unidade da essência divina [3]
. 4.1. Manifestações Comuns
Separação Funcional Excessiva: Algumas pregações podem descrever o Pai, o Filho e o Espírito Santo agindo de forma tão independente que a unidade de propósito e essência divina é obscurecida. Por exemplo, ao atribuir ao Pai um papel de "chefe" que dita ordens ao Filho e ao Espírito Santo como se fossem entidades separadas com vontades potencialmente divergentes, em vez de uma vontade divina unificada [3].
Linguagem Antropomórfica Extrema: O uso de analogias humanas para explicar a Trindade, embora útil, pode levar a uma concepção triteísta se as analogias sugerirem três indivíduos completamente separados (e.g., três amigos ou um comitê). Isso falha em capturar a co-inherência e a unidade substancial da Trindade [3].
Ênfase na Individualidade em Detrimento da Unidade: Em um esforço para combater o modalismo, algumas igrejas podem ir ao extremo oposto, enfatizando a individualidade de cada Pessoa divina a ponto de sugerir que são três centros de consciência e poder divinos independentes [3].
4.2. Igrejas Evangélicas que Defendem (Inadvertidamente) o Triteísmo
Não é comum encontrar denominações evangélicas que explicitamente defendam o triteísmo. No entanto, a falta de um ensino teológico robusto sobre a unidade da essência divina, juntamente com a distinção das Pessoas, pode levar a uma compreensão popular que se aproxima do triteísmo. Isso pode ser observado em:
Sermões e literaturas populares: Onde a distinção das Pessoas é tão acentuada que a unidade de Deus é perdida, ou onde as Pessoas são retratadas como agindo em desacordo ou com propósitos distintos, em vez de uma harmonia perfeita e co-operação divina.
Músicas de adoração: Algumas letras podem, sem intenção, reforçar uma visão de três deuses ao invocar cada Pessoa da Trindade de forma isolada, sem a devida conexão com a unidade divina. É crucial que as igrejas evangélicas reforcem o ensino da Trindade de forma equilibrada, enfatizando tanto a unidade quanto a distinção, para evitar cair inadvertidamente na heresia triteísta.
5. Refutação Bíblica e Teológica do Triteísmo
A refutação do triteísmo baseia-se firmemente nas Escrituras e na teologia trinitária ortodoxa, que sustenta a unidade essencial de Deus e a distinção de Pessoas.
5.1. A Unidade de Deus nas Escrituras
A Bíblia é enfática na afirmação de que há um só Deus. O monoteísmo é um pilar fundamental da fé judaico-cristã:
Deuteronômio 6:4: "Ouve, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor." [4]
Isaías 45:5: "Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus." [4]
1 Coríntios 8:4: "[...] não há senão um só Deus." [4]
1 Timóteo 2:5: "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem." [4]
Esses textos demonstram que a essência divina é singular. Não existem três essências divinas, mas uma única essência compartilhada pelas três Pessoas da Trindade.
5.2. A Pluralidade de Pessoas na Unidade Divina
Ao mesmo tempo em que afirma a unidade de Deus, a Bíblia revela a pluralidade de Pessoas dentro dessa unidade:
Gênesis 1:26: "E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança..." O uso do plural ("Façamos", "nossa") sugere uma deliberação interna na Divindade [4].
Mateus 28:19: "Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo." A fórmula batismal apresenta as três Pessoas em igualdade de divindade e autoridade [4]
. 2 Coríntios 13:14: "A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós. Amém." Esta bênção apostólica distingue as três Pessoas, mas as une em um contexto de graça e comunhão, indicando sua co-operação e unidade [4].
João 1:1-3: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez." Este texto afirma a divindade do Filho (o Verbo) e sua coexistência eterna com o Pai, refutando qualquer ideia de que o Filho seja uma divindade separada ou inferior [4].
5.3. Teólogos que Combateram o Triteísmo (e Heresias Relacionadas)
Além dos Pais da Igreja já mencionados, muitos teólogos ao longo da história continuaram a defender a ortodoxia trinitária contra desvios:
Agostinho de Hipona (354-430 d.C.): Sua obra De Trinitate é um tratado monumental que explora a natureza de Deus como Trindade, enfatizando a unidade essencial e a inter-relação das Pessoas. Agostinho utilizou analogias psicológicas (memória, intelecto, vontade) para ilustrar a unidade na pluralidade, combatendo qualquer tendência a fragmentar a Divindade.
João Calvino (1509-1564): Em suas Institutas da Religião Cristã, Calvino dedicou seções significativas à doutrina da Trindade, defendendo a unidade de Deus e a distinção das Pessoas contra os antitrinitários de sua época. Ele enfatizou a necessidade de se ater à revelação bíblica e evitar especulações que levassem a um triteísmo ou modalismo.
Karl Barth (1886-1968): Um dos mais influentes teólogos do século XX, Barth reafirmou a doutrina da Trindade como a chave para a compreensão de Deus. Em sua Dogmática Eclesiástica, ele descreveu Deus como o Revelador, a Revelação e o Revelado, enfatizando a unidade de Deus em seu ato de auto-revelação em três modos de ser, combatendo tanto o modalismo quanto o triteísmo.
6. Conclusão
O triteísmo, em sua essência, representa uma falha em manter o delicado equilíbrio da doutrina da Trindade: a unidade de Deus e a distinção de suas Pessoas. Desde suas manifestações históricas com João Filopono e Roscelin até as compreensões inadvertidas em algumas igrejas evangélicas contemporâneas, essa heresia distorce a natureza de Deus. A Igreja, através dos concílios e do trabalho incansável dos Pais da Igreja e teólogos posteriores, sempre defendeu a ortodoxia trinitária, fundamentada nas Escrituras. A compreensão correta da Trindade – um só Deus em três Pessoas co-iguais e co-eternas – é vital para a adoração, a teologia e a prática cristã, protegendo a fé de concepções que, em última instância, levariam ao politeísmo.
Referências
[1] Wikipedia. Tritheism. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Tritheism. Acesso em: 30 set. 2025.
[2] VOLTEMOS AO EVANGELHO. Heresias e concílios – A batalha pela doutrina da Trindade. Disponível em: https://voltemosaoevangelho.com/blog/2025/06/heresias-e-concilios-a-batalha-pela-doutrina-da-trindade/. Acesso em: 30 set. 2025.
[3] REDDIT. How common is the Tritheism Heresy in the modern day?. Disponível em: https://www.reddit.com/r/TrueChristian/comments/1eytyhe/how_common_is_the_tritheism_heresy_in_the_modern/. Acesso em: 30 set. 2025.
[4] GOTQUESTIONS.ORG. O que a Bíblia ensina a respeito da Trindade?. Disponível em: https://www.gotquestions.org/Portugues/Trindade-Biblia.html. Acesso em: 30 set. 2025

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