🌻 SETEMBRO AMARELO — A DOR QUE NINGUÉM VÊ / ARTIGO 02 — Tristeza não é falta de fé: quando o coração sofre
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ARTIGO 02 — Tristeza não é falta de fé: quando o coração sofre
“𝗣𝗼𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗲𝘀𝘁á𝘀 𝗮𝗯𝗮𝘁𝗶𝗱𝗮, ó 𝗺𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗮𝗹𝗺𝗮? 𝗘 𝗽𝗼𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗲 𝗽𝗲𝗿𝘁𝘂𝗿𝗯𝗮𝘀 𝗱𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼 𝗱𝗲 𝗺𝗶𝗺? 𝗘𝘀𝗽𝗲𝗿𝗮 𝗲𝗺 𝗗𝗲𝘂𝘀...” — 𝗦𝗮𝗹𝗺𝗼 𝟰𝟮.𝟱
Existe uma frase que, embora muitas vezes seja dita com boa intenção, pode produzir uma ferida ainda maior em quem já está sofrendo: “Você precisa ter mais fé”. Em determinados contextos, essa frase pode até carregar uma verdade importante afinal, o cristão é chamado a confiar em Deus, mas o problema está em transformar a fé em uma espécie de antídoto contra toda tristeza. Como se um cristão verdadeiro não pudesse chorar, sentir-se abatido, experimentar angústia ou atravessar períodos de profunda tristeza. Quando fazemos isso, acabamos criando uma espiritualidade na qual as pessoas aprendem a esconder aquilo que realmente sentem. Sorriem na igreja, dizem que está tudo bem, levantam as mãos, cantam os hinos, cumprimentam os irmãos e, quando voltam para casa, continuam lutando sozinhas contra uma dor que ninguém conhece.
A Bíblia, porém, não apresenta esse tipo de espiritualidade artificial. As Escrituras não têm vergonha das lágrimas dos seus personagens. Pelo contrário, elas nos permitem enxergar homens e mulheres de Deus enfrentando momentos de profunda tristeza. Davi conheceu o abatimento da alma. Jeremias chorou diante da destruição e da dor do seu povo. Jó experimentou uma dor tão profunda que chegou a amaldiçoar o dia do seu nascimento. Elias, depois de uma extraordinária experiência no monte Carmelo, entrou em um período de exaustão e desânimo. E o próprio Senhor Jesus, diante do túmulo de Lázaro, chorou. Se a tristeza fosse simplesmente falta de fé, teríamos um problema muito sério diante do testemunho das próprias Escrituras.
É necessário, portanto, começar fazendo uma distinção importante. A tristeza faz parte da experiência humana. Ela pode surgir diante de uma perda, de uma frustração, de uma separação, de uma injustiça, de uma enfermidade, de uma decepção ou de inúmeras outras circunstâncias. Sentir tristeza não significa automaticamente estar doente, muito menos estar espiritualmente afastado de Deus. Há momentos em que a tristeza é uma resposta humana legítima diante de uma realidade dolorosa. O problema não está simplesmente em sentir tristeza, mas em compreender o que está acontecendo conosco e perceber quando aquela tristeza se torna persistente, intensa ou acompanhada de outros sinais que exigem atenção e, eventualmente, avaliação profissional.
Como cristãos reformados, não podemos compreender a experiência humana sem levar a sério a doutrina da Queda. O pecado trouxe uma profunda desordem à criação. A morte entrou no mundo, os relacionamentos foram quebrados, a criação passou a gemer e a experiência humana passou a ser marcada por sofrimento. Isso significa que não devemos esperar encontrar neste mundo caído a ausência completa de dor. Vivemos entre a realidade da Queda e a esperança da redenção. Ainda experimentamos lágrimas, mas aguardamos o dia em que Deus enxugará definitivamente toda lágrima. Ainda enfrentamos a morte, mas sabemos que Cristo ressuscitou e que a morte não terá a palavra final.
Essa compreensão é importante porque nos protege de dois erros. O primeiro é tratar a tristeza como se fosse sempre pecado. O segundo é tratar a tristeza como se fosse sempre um problema puramente psicológico, sem qualquer relação com nossa condição espiritual e com a realidade de um mundo caído. O ser humano não pode ser dividido em compartimentos completamente independentes. Somos criaturas feitas por Deus, corpo e alma, inseridas em relacionamentos, famílias, comunidades e circunstâncias concretas. Por isso, quando alguém sofre, precisamos olhar para essa pessoa com uma visão integral, sem reduzir sua experiência a uma única explicação.
Os Salmos nos oferecem um dos melhores exemplos disso. O salmista pergunta: “Por que estás abatida, ó minha alma? E por que te perturbas dentro de mim?” (Salmo 42.5). Observe que ele não está simplesmente fingindo que está bem. Ele reconhece o abatimento. Ele reconhece a perturbação. Ele reconhece que existe uma luta acontecendo dentro dele. E, ao mesmo tempo, ele fala com sua própria alma: “Espera em Deus”. Há algo muito bonito nesse movimento. A fé não elimina magicamente a tristeza; ela nos ensina para onde levar a tristeza.
Isso é muito diferente de dizer a uma pessoa: “Você não deveria estar triste”. O salmista está triste, mas não está sem esperança. Ele está abatido, mas continua falando com Deus. Ele não nega sua realidade emocional, mas também não permite que sua tristeza seja transformada na autoridade final sobre sua vida. Sua alma está abatida, mas Deus continua sendo Deus.
Talvez essa seja uma das coisas que precisamos recuperar em nossas igrejas: o direito de lamentar biblicamente. Existe uma diferença entre lamentação e incredulidade. A incredulidade rejeita Deus; a lamentação bíblica corre para Deus com a dor. O salmista não diz: “Estou sofrendo, portanto Deus não existe”. Ele pergunta: “Até quando, Senhor?”. Ele continua dirigindo suas palavras ao Senhor. Isso significa que uma pessoa pode estar profundamente triste e, ainda assim, estar exercendo fé.
Precisamos também ter cuidado com o uso de versículos. É possível utilizar a própria Bíblia de maneira inadequada. Quando alguém está chorando, dizer imediatamente “Alegrai-vos sempre no Senhor” pode ser teologicamente verdadeiro, mas pastoralmente insuficiente se aquilo for usado para impedir a pessoa de expressar sua dor. Quando alguém está passando por uma perda, talvez a primeira atitude cristã não seja explicar Romanos 8, mas sentar-se ao lado daquela pessoa e chorar com ela. Afinal, Romanos 12.15 nos ensina: “Chorai com os que choram”. Existe uma profundidade pastoral nessa ordem que muitas vezes esquecemos. Paulo não diz apenas para ensinar aqueles que choram. Ele diz para chorar com eles.
Jesus também nos oferece um exemplo extraordinário. Em João 11, diante da morte de Lázaro, encontramos uma das frases mais conhecidas das Escrituras: “Jesus chorou”. E precisamos parar diante dessas duas palavras. Jesus sabia que ressuscitaria Lázaro. Sabia o que estava prestes a fazer. Sabia que a morte não teria a palavra final naquele episódio. Mesmo assim, chorou. Isso nos mostra que saber que Deus é soberano não significa tornar-se emocionalmente indiferente ao sofrimento. A soberania de Deus não elimina a compaixão; pelo contrário, a verdadeira compreensão da soberania divina deveria nos tornar mais confiantes e, ao mesmo tempo, mais compassivos.
O cristão não precisa escolher entre confiar em Deus e reconhecer sua dor. Podemos fazer as duas coisas. Podemos dizer: “Senhor, eu sei que tu és soberano” e, ao mesmo tempo, confessar: “Senhor, eu estou sofrendo”. Podemos afirmar a providência de Deus sem fingir que a situação não dói. Podemos confiar na bondade de Deus enquanto choramos diante de uma perda. Podemos esperar na promessa da ressurreição enquanto sentimos profundamente a ausência daqueles que amamos.
É justamente por isso que precisamos tomar cuidado quando alguém apresenta sinais de sofrimento prolongado. Tristeza e depressão não são palavras que devemos utilizar como sinônimos. Uma pessoa pode estar triste sem apresentar um transtorno depressivo, e somente profissionais habilitados podem realizar uma avaliação adequada. Ao mesmo tempo, não devemos banalizar uma tristeza que se prolonga e começa a comprometer significativamente a vida da pessoa. Quando percebemos mudanças persistentes no comportamento, isolamento, perda de interesse pelas atividades, alterações importantes no sono ou na alimentação, desesperança intensa, sentimento de inutilidade ou falas relacionadas à morte, precisamos deixar de lado respostas simplistas e levar aquela situação a sério.
E aqui está uma responsabilidade importante da igreja. Nem sempre conseguiremos resolver o sofrimento de alguém, mas podemos ser uma comunidade que percebe. Podemos perguntar. Podemos ouvir. Podemos acompanhar. Podemos orar. Podemos ajudar a família. Podemos encorajar a pessoa a buscar ajuda. Podemos continuar presentes durante o processo. E podemos reconhecer nossos próprios limites. Nem todo problema precisa ser resolvido pelo pastor, pelo presbítero ou por um irmão da igreja. Há situações em que o encaminhamento para profissionais especializados não apenas é apropriado, mas necessário.
Procurar ajuda não significa abandonar a fé. A graça de Deus não se manifesta somente de maneira extraordinária. Deus também utiliza meios ordinários. Médicos, psicólogos, psiquiatras e outros profissionais podem exercer seu trabalho como instrumentos da providência de Deus no cuidado da vida humana. A igreja não perde sua relevância quando reconhece isso. Pelo contrário, demonstra maturidade.
Talvez você esteja lendo este artigo e pensando em alguém. Talvez tenha vindo imediatamente à sua mente aquele irmão que mudou nos últimos meses, aquela pessoa que parou de participar, aquele amigo que sempre diz “está tudo bem”, mas que parece carregar uma tristeza que não consegue explicar. Não ignore. Não faça um diagnóstico. Não tente resolver tudo em uma conversa. Mas aproxime-se. Pergunte com sinceridade: “Como você está?”. E, principalmente, esteja disposto a ouvir uma resposta diferente de “estou bem”.
Talvez, porém, este texto seja sobre você. Talvez você esteja cansado de fingir que está bem. Talvez tenha medo de que, se admitir sua tristeza, alguém diga que sua fé é fraca. Se esse for o seu caso, lembre-se de que a Bíblia não exige que você esconda suas lágrimas. Leve sua dor a Deus. Ore. Procure pessoas maduras e confiáveis. Converse com alguém. E, se perceber que o sofrimento está ultrapassando aquilo que consegue enfrentar sozinho, procure ajuda especializada. Pedir ajuda não é uma confissão de fracasso; pode ser um ato de humildade.
A tristeza não precisa ser transformada em um inimigo da fé. Ela pode ser levada para dentro da própria vida de fé. O salmista nos ensina isso. Jó nos ensina isso. Elias nos ensina isso. E, de maneira suprema, Cristo nos ensina isso. A fé cristã não é a capacidade de nunca chorar. É a confiança de que, mesmo quando choramos, Deus continua sendo nosso Deus.
Ainda vivemos em um mundo marcado pelo pecado. Ainda existem lágrimas que não conseguimos explicar. Ainda existem dias em que a alma fica cansada. Mas nossa esperança não termina naquilo que sentimos hoje. Em Cristo, aguardamos uma redenção que alcançará toda a criação. O sofrimento não será eterno. A morte será vencida. E haverá um dia em que o próprio Deus enxugará toda lágrima dos olhos de seu povo.
Até lá, a igreja precisa aprender a caminhar com aqueles que choram.
Não precisamos dizer a todo momento: “Pare de chorar”.
Às vezes, precisamos simplesmente dizer:
“Eu estou aqui. Vamos atravessar isso juntos.”
E talvez seja justamente aí que uma pessoa cansada descubra que, mesmo em meio à sua dor, ainda existem pessoas dispostas a carregar suas cargas e apontá-la para Cristo, nossa verdadeira e definitiva esperança.
“Chorai com os que choram.” Romanos 12.15
🌻 Setembro Amarelo — A Dor que Ninguém Vê
Kleiton Fonseca é teólogo e pesquisador de tradição reformada. Dedica-se ao estudo das Escrituras, da teologia e da história da Igreja, buscando aplicar a fé cristã às questões concretas enfrentadas pelo ser humano. Neste projeto, propõe uma reflexão bíblica e pastoral sobre sofrimento, dor, esperança e cuidado com o próximo.
ORCID: [https://orcid.org/0009-0006-3665-5924]
Instituto de Teologia Reformada John Wycliffe
Esta série não pretende substituir acompanhamento médico, psicológico ou psiquiátrico. Seu objetivo é promover reflexão bíblica, cuidado pastoral e conscientização sobre a importância de reconhecer o sofrimento e buscar ajuda adequada quando necessário.
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