🌻 SETEMBRO AMARELO — A DOR QUE NINGUÉM VÊ/ ARTIGO 01 Quando a Alma Está Cansada: Compreendendo o Sofrimento Humano à Luz da Bíblia

 


Quando a Alma Está Cansada: Compreendendo o Sofrimento Humano à Luz da Bíblia

Existem dores que aparecem no corpo e existem dores que permanecem escondidas atrás de um sorriso. Há pessoas que chegam à igreja, conversam com os irmãos, trabalham, cuidam da família, participam dos cultos e continuam aparentemente vivendo uma vida normal, mas que, quando ficam sozinhas, enfrentam batalhas que quase ninguém conhece. Nem todo sofrimento pode ser visto. Algumas pessoas estão simplesmente cansadas; outras carregam uma tristeza profunda; algumas perderam a esperança; outras lutam contra a dependência química, contra pensamentos destrutivos, contra a automutilação ou contra uma sensação constante de vazio. E talvez uma das coisas mais difíceis seja admitir: “Eu não estou bem”.

Vivemos em uma sociedade que frequentemente valoriza a aparência de força. Precisamos parecer bem, mesmo quando não estamos. Precisamos demonstrar controle, mesmo quando tudo parece desmoronar por dentro. Infelizmente, esse problema também pode aparecer dentro da própria igreja. Algumas pessoas aprenderam que demonstrar sofrimento é sinal de pouca fé, como se um cristão verdadeiro nunca pudesse experimentar tristeza profunda, angústia, medo ou desânimo. Mas basta abrirmos as Escrituras para perceber que a Bíblia não apresenta seres humanos invulneráveis. Ela apresenta homens e mulheres reais, pessoas que choraram, tiveram medo, experimentaram solidão, enfrentaram perdas e chegaram a momentos de profunda angústia.

A perspectiva cristã sobre o sofrimento começa necessariamente com a realidade do pecado. A Bíblia nos ensina que Deus criou todas as coisas boas e que a criação não nasceu marcada pela morte, pela corrupção, pela violência e pela dor. O sofrimento não fazia parte da bondade original da criação. Com a entrada do pecado no mundo, porém, toda a realidade humana foi profundamente afetada. Paulo afirma em Romanos 5.12: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte...”. O pecado rompeu a comunhão do homem com Deus, trouxe a morte e introduziu na experiência humana uma realidade de corrupção que alcança toda a criação. Nosso corpo sofre, nossos relacionamentos são quebrados, a sociedade experimenta injustiça, a criação geme e o homem vive diante da realidade da morte. Por isso, uma perspectiva cristã do sofrimento não pode ignorar a Queda. O mundo está quebrado porque o pecado entrou no mundo.

Entretanto, precisamos tomar muito cuidado para não transformar essa verdade em uma explicação simplista para todo sofrimento individual. Existe uma diferença entre afirmar que o sofrimento entrou no mundo por causa da Queda e afirmar que toda pessoa que sofre está sofrendo por causa de algum pecado específico que cometeu. A própria Bíblia nos impede de fazer essa associação automática. Em João 9, por exemplo, os discípulos encontram um homem que havia nascido cego e perguntam a Jesus: “Quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?”. A pergunta revela uma tentativa de encontrar uma culpa específica para explicar imediatamente aquela situação. Jesus rejeita aquela conclusão. Isso não significa que o pecado não produza consequências. As Escrituras são claras quanto à gravidade do pecado e aos seus efeitos. Significa, porém, que não temos autorização para transformar todo sofrimento individual em um diagnóstico moral daquele que sofre.

Essa é uma distinção extremamente importante quando falamos pastoralmente sobre saúde emocional. Uma pessoa deprimida não precisa necessariamente ouvir que está deprimida porque não ora o suficiente. Alguém que enfrenta uma dependência não deve ser reduzido simplesmente à afirmação de que “não quer Deus”. Uma pessoa em profundo sofrimento emocional não precisa receber uma explicação rápida para uma dor que talvez nem ela mesma consiga compreender completamente. Há momentos em que, antes de explicar, precisamos simplesmente estar presentes.

O livro de Jó nos ensina uma grande lição nesse sentido. Jó sofreu profundamente. Perdeu seus bens, perdeu seus filhos, perdeu sua saúde e experimentou uma dor que seus amigos tentaram explicar de maneira imediata. Eles estavam convencidos de que precisavam encontrar uma causa específica para tudo aquilo que estava acontecendo. O problema é que suas explicações não correspondiam à realidade apresentada pelo próprio livro. No final, Deus repreende os amigos de Jó. Isso deveria produzir em nós uma santa cautela. Nem sempre saberemos por que determinada pessoa está sofrendo. E, quando não sabemos, é muito melhor dizer honestamente “eu não sei” do que colocar palavras na boca de Deus.

Existe algo profundamente consolador na maneira como as Escrituras tratam o sofrimento. A Bíblia não esconde as lágrimas dos seus personagens. Os Salmos estão cheios de lamentação. O salmista pergunta: “Até quando, Senhor?”; em outro momento pergunta à própria alma: “Por que estás abatida, ó minha alma?”. O Salmo 88 chega ao final sem apresentar uma resolução emocional fácil. Isso está dentro da Bíblia. Isso significa que Deus não exige que seus filhos finjam estar bem quando não estão. A fé bíblica não é a negação da dor. A fé bíblica leva a dor para diante de Deus. O salmista não esconde sua angústia; ele conversa com Deus dentro dela. Lamentar não é necessariamente abandonar a fé. Muitas vezes, lamentar é justamente um exercício de fé, porque significa levar nossa dor àquele que continua sendo Deus mesmo quando não conseguimos compreender o que está acontecendo.

Outro episódio importante encontra-se em 1 Reis 19, quando Elias, depois de experimentar uma grande manifestação do poder de Deus no monte Carmelo, encontra-se assustado, exausto e desejando morrer. Não devemos transformar Elias em um diagnóstico clínico nem utilizar o texto como se fosse um manual moderno de tratamento psicológico. Entretanto, o relato mostra algo muito importante: Deus não trata seus servos como máquinas. Elias era uma criatura, tinha limites, precisava descansar e precisava ser cuidado. Antes de uma longa explicação, Elias dorme, recebe alimento e volta a descansar. Somente depois acontece uma nova etapa daquela experiência. Existe aqui uma verdade pastoral que não deveríamos desprezar: somos seres humanos. Temos limites. Precisamos dormir, comer, descansar, conversar, receber companhia e, em determinados momentos, receber ajuda. Reconhecer nossa fragilidade não diminui a soberania de Deus.

A teologia reformada afirma com grande convicção a soberania de Deus. Deus reina, sua providência alcança todas as coisas e nenhum sofrimento está fora do seu conhecimento. Nenhuma lágrima é invisível aos seus olhos. Entretanto, a soberania de Deus nunca deve ser utilizada como uma arma contra quem está sofrendo. Dizer que Deus é soberano não significa dizer à pessoa: “Pare de sofrer”. Significa lembrar-lhe que sua dor não está fora das mãos de Deus. Romanos 8 é particularmente precioso nesse sentido. Paulo não promete aos cristãos uma existência livre de sofrimento. Pelo contrário, ele fala dos sofrimentos do tempo presente e da criação que geme. Mas ele também afirma que o sofrimento presente não terá a palavra final. A criação aguarda a redenção, a morte será vencida e o povo de Deus aguarda o dia em que todas as coisas serão restauradas. A esperança cristã não consiste em afirmar que jamais sofreremos. Consiste em saber que o sofrimento não é o destino final daqueles que estão em Cristo.

É justamente nesse ponto que a igreja precisa compreender melhor sua responsabilidade. Talvez uma das maiores necessidades de uma pessoa em sofrimento seja descobrir que ela não está sozinha. Paulo escreve em Gálatas 6.2: “Levai as cargas uns dos outros”. É interessante perceber a linguagem utilizada pelo apóstolo. Ele não diz simplesmente “explique as cargas uns aos outros” nem “julgue as cargas uns dos outros”. Ele diz: “Levai as cargas”. Há momentos em que amar alguém significa simplesmente permanecer ao lado dessa pessoa. É ouvir, acompanhar, orar, ajudar, perceber mudanças, perguntar novamente e não desaparecer quando a situação se torna difícil. Cuidar de alguém também é uma expressão de amor cristão.

Precisamos também superar uma falsa oposição que muitas vezes aparece no ambiente religioso: a ideia de que uma pessoa precisa escolher entre oração e ajuda profissional. Não existe necessariamente uma escolha entre “vamos orar” e “vamos procurar ajuda”. Podemos fazer as duas coisas. A oração reconhece nossa dependência de Deus, enquanto profissionais capacitados podem ser instrumentos da providência divina para cuidar de pessoas que estão sofrendo. Um cristão não abandona sua fé porque procura um psicólogo, um psiquiatra ou um médico. Da mesma maneira, procurar tratamento não significa substituir Deus por um profissional. Significa reconhecer que Deus pode agir por diferentes meios.

Isso também exige que a igreja reconheça seus próprios limites. Pastores, presbíteros, diáconos e irmãos maduros podem oferecer presença, oração, encorajamento, discipulado e acompanhamento espiritual. Entretanto, existem situações que exigem avaliação e tratamento especializados. Reconhecer esse limite não é falta de fé; é responsabilidade. Uma igreja madura não tenta resolver todos os problemas com uma única ferramenta. Ela conhece a suficiência das Escrituras para aquilo que Deus revelou e, ao mesmo tempo, reconhece a importância dos meios ordinários de cuidado e da atuação de profissionais habilitados nas áreas que ultrapassam sua competência.

Por isso, precisamos aprender a observar aqueles que estão ao nosso redor. Não podemos diagnosticar alguém simplesmente olhando para seu comportamento, mas podemos perceber mudanças significativas. Uma pessoa que começa a se isolar repentinamente, abandona atividades que antes apreciava, apresenta alterações importantes no sono ou na alimentação, muda drasticamente de comportamento, passa a utilizar álcool ou drogas com maior frequência, manifesta desesperança constante ou fala repetidamente sobre morte e desaparecimento pode estar enfrentando um sofrimento que precisa ser levado a sério. Um único sinal não permite concluir que alguém tenha determinado transtorno, mas mudanças importantes merecem atenção. E quando alguém manifesta pensamentos relacionados à morte ou à vontade de não continuar vivendo, jamais devemos tratar isso simplesmente como drama ou tentativa de chamar atenção. É necessário ouvir com seriedade, permanecer próximo e procurar ajuda adequada.

Talvez uma das primeiras coisas que a igreja precisa aprender seja simplesmente ouvir. Existe uma tentação muito comum entre os cristãos: quando alguém começa a contar sua dor, imediatamente procuramos um versículo. A Palavra de Deus é verdadeira e preciosa, mas não devemos transformar um versículo em uma resposta automática para qualquer sofrimento humano. Às vezes, a pessoa precisa primeiro ser ouvida. Depois podemos abrir as Escrituras, orar, caminhar juntos e, quando necessário, procurar ajuda profissional. Existe uma diferença entre oferecer uma resposta verdadeiramente bíblica e utilizar a Bíblia para silenciar alguém. A Bíblia não foi dada para nos tornar indiferentes à dor do próximo, mas para nos ensinar a amar a Deus e ao próximo.

E aqui chegamos ao centro da esperança cristã. O cristianismo não olha para o sofrimento humano com ingenuidade. Sabemos que o mundo está marcado pelo pecado. Sabemos que a morte é um inimigo. Sabemos que a criação geme. Sabemos que existem dores que não conseguimos explicar. Mas também sabemos que Deus entrou na história para redimir pecadores. Jesus Cristo não permaneceu distante do sofrimento humano. Ele chorou, experimentou angústia, foi rejeitado, traído e sofreu. Caminhou até a cruz. Ali, de maneira única e irrepetível, Cristo carregou a culpa do seu povo e abriu o caminho da reconciliação com Deus. E, na ressurreição, venceu a morte.

Por isso, a esperança cristã não é uma frase bonita para colocar sobre a dor. Ela está fundamentada em uma pessoa: Jesus Cristo. Porque Cristo ressuscitou, sabemos que a morte não terá a palavra final. Porque Cristo reina, sabemos que o sofrimento não escapou das mãos de Deus. Porque Cristo voltará, sabemos que haverá um dia em que Deus fará novas todas as coisas.

Talvez exista alguém perto de você que esteja sofrendo em silêncio. Pode ser alguém da sua família, um amigo, um irmão da igreja ou até mesmo você. Não tenha vergonha de reconhecer que está sofrendo. Não transforme automaticamente sua dor em culpa. Não tenha medo de pedir ajuda. E, se você conhece alguém que está sofrendo, não se apresse em julgá-lo. Aproxime-se. Pergunte como aquela pessoa realmente está e esteja disposto a ouvir a resposta.

Às vezes, uma pessoa não precisa inicialmente de uma grande explicação. Ela precisa descobrir que alguém percebeu sua dor. Precisa saber que não foi esquecida. Precisa de alguém que caminhe com ela enquanto busca ajuda. E nós, como igreja, precisamos aprender novamente a carregar as cargas uns dos outros.

O Setembro Amarelo não deve ser apenas um mês de campanhas. Para a igreja, pode ser uma oportunidade de recuperar algo que sempre esteve no coração do evangelho: cuidar de pessoas reais, quebrantadas e necessitadas da graça de Deus. Não podemos resolver todas as dores humanas, mas podemos acolher, ouvir, orar, caminhar, encaminhar quando necessário e apontar para aquele que continua sendo nossa única esperança definitiva.

Cristo é nossa esperança em meio à dor. E cuidar daquele que sofre também é uma maneira de cumprir o mandamento de amar o próximo.

Kleiton Fonseca é teólogo e pesquisador de tradição reformada. Dedica-se ao estudo das Escrituras, da teologia e da história da Igreja, buscando aplicar a fé cristã às questões concretas enfrentadas pelo ser humano. Neste projeto, propõe uma reflexão bíblica e pastoral sobre sofrimento, dor, esperança e cuidado com o próximo.

ORCID: [https://orcid.org/0009-0006-3665-5924]

Instituto de Teologia Reformada John Wycliffe

Comentários

Popular Posts

Introdução ao Curso Básico de Teologia Reformad- Educação Cristã

🌻 SETEMBRO AMARELO — A DOR QUE NINGUÉM VÊ / ARTIGO 08 — QUANDO A DOR PROCURA UMA SAÍDA Automutilação: quando as marcas do corpo revelam uma dor que ninguém vê

Aula 01 Introdução a teologia- Definições Etimológicas