Comentando Livro Costumes e Cultura de Bárbara Burns, juntamente com Décio de Azevedo e Paulo Barbero de Carminati.

 


Choques Culturais no Campo Missionário: Lições, Desafios e Reflexões a Partir do Capítulo 1 de Costumes e Cultura

Comentado por Kleiton Fonseca 

O trabalho missionário sempre esteve cercado de grandes desafios. Entre eles, um dos mais difíceis — e muitas vezes ignorado — é o choque cultural. O primeiro capítulo do livro Costumes e Cultura apresenta diversos exemplos curiosos, engraçados e até constrangedores vividos por missionários em diferentes partes do mundo. Contudo, por trás dessas histórias há uma lição profundamente séria: o evangelho precisa ser comunicado com humildade, sensibilidade e compreensão cultural.

Muitas vezes, missionários chegaram a determinados povos acreditando que seus costumes eram universais. Sem perceber, confundiam cultura ocidental com cristianismo. O resultado disso eram barreiras desnecessárias para a propagação do evangelho.

O perigo da superioridade cultural

O capítulo mostra que aquilo que é considerado correto em um lugar pode ser ofensivo em outro. Um exemplo marcante ocorreu entre missionários que trabalhavam no Zaire, na África. Eles insistiam que as esposas dos presbíteros usassem blusas durante os cultos. Porém, posteriormente descobriram algo surpreendente: naquela aldeia apenas as prostitutas usavam blusas, pois eram as únicas que possuíam recursos para adquirir roupas melhores.

O que os missionários consideravam “decência” estava, na verdade, causando escândalo naquela cultura.

Esse episódio revela como o desconhecimento cultural pode prejudicar a comunicação do evangelho. Muitas vezes, a igreja tenta exportar costumes humanos como se fossem mandamentos divinos.

A Escritura nos alerta contra julgamentos superficiais:

“O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração.”
1 Samuel 16:7

O evangelho não deve ser confundido com padrões culturais específicos.


Situações engraçadas que revelam profundas diferenças culturais

O livro apresenta diversos relatos curiosos que mostram como pequenos hábitos podem ser interpretados de forma completamente diferente em outras culturas.

O missionário ofendido nas Filipinas

Um missionário ficou profundamente ofendido quando visitantes limparam as cadeiras antes de sentar e também os pratos e talheres antes da refeição. Para ele, aquilo parecia um insulto à limpeza da casa feita por sua esposa.

Depois ele descobriu que aquela atitude era considerada sinal de educação e respeito entre aquele povo.

O problema não estava no povo, mas na interpretação precipitada do missionário.


As cartas cozidas nas ilhas Marshall

Um dos relatos mais curiosos do capítulo aconteceu nas ilhas Marshall, no Pacífico.

Os missionários recebiam cartas apenas uma vez por ano, quando um navio chegava à ilha. Certo dia, o navio chegou mais cedo, e o capitão deixou as correspondências com os moradores locais.

Como os habitantes percebiam que aquelas cartas deixavam os missionários muito felizes, decidiram investigar o motivo. Abriram as cartas, examinaram cuidadosamente e, não encontrando nada de especial, resolveram cozinhá-las e comê-las para descobrir qual era o segredo delas.

Quando os missionários voltaram e descobriram o “mingau de cartas”, ficaram desesperados. Já o povo da ilha não conseguiu entender a reação dos missionários.

O episódio é engraçado, mas revela algo importante: as pessoas interpretam o mundo conforme suas próprias referências culturais.


O pinheiro de Natal “adorado”

Outro caso curioso ocorreu entre os índios navajos, nos Estados Unidos. Eles acreditavam que os missionários adoravam árvores de Natal, pois dedicavam muita atenção aos enfeites, luzes e celebrações ao redor do pinheiro.

Na China aconteceu algo semelhante. Algumas pessoas pensavam que os missionários adoravam cadeiras, porque oravam ajoelhados diante delas.

Esses exemplos mostram como determinados símbolos e práticas podem ser facilmente mal interpretados quando não existe compreensão cultural adequada.


A importância da identificação cultural

O capítulo enfatiza que Jesus Cristo é o maior exemplo de identificação cultural.

Cristo não apareceu como estrangeiro distante. Ele nasceu entre os judeus:

  • falou sua língua;
  • viveu seus costumes;
  • participou de sua cultura;
  • comeu sua comida;
  • habitou entre o povo.

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós...”
Evangelho de João 1:14

A encarnação de Cristo não foi apenas física, mas também cultural.

Isso ensina que missionários e cristãos precisam aprender a se aproximar das pessoas com humildade e disposição para compreender sua realidade.

O apóstolo Paulo também expressou esse princípio:

“Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.”
1 Coríntios 9:22

Paulo não alterava a verdade do evangelho, mas adaptava sua comunicação conforme o contexto das pessoas.


O desafio da linguagem

Outro ponto muito interessante do capítulo é a dificuldade de tradução e comunicação.

Em algumas culturas africanas, as emoções não são associadas ao coração, mas ao fígado. Quando alguém está triste, pode dizer:
“Meu fígado está doente.”

Em outros lugares, a tristeza é descrita como:
“Meu olho está preto.”

Para nós essas expressões parecem estranhas, mas nossas próprias expressões também soariam estranhas para eles:

  • “estou morrendo de medo”;
  • “meu coração está triste”;
  • “estou fervendo de raiva”.

O missionário não precisa apenas aprender palavras; ele precisa compreender como aquele povo pensa.

O livro relata ainda um caso grave envolvendo tradução bíblica. Um missionário, ao traduzir um versículo, acabou dizendo:
“Pequem”
em vez de:
“Não pequem”.

Tudo por não perceber corretamente um pequeno som da língua indígena.

Isso demonstra o tamanho da responsabilidade missionária.


Quando o comportamento fecha portas para o evangelho

Outro episódio curioso ocorreu no México. Duas missionárias solteiras tomavam limonada no café da manhã. Durante muito tempo ninguém aceitou sua mensagem.

Mais tarde descobriram o motivo: naquela tribo acreditava-se que limonada era anticoncepcional. O povo passou a enxergar as missionárias como mulheres imorais.

O caso mostra como até hábitos simples podem gerar interpretações completamente diferentes.

Muitas vezes, sem perceber, missionários podem criar barreiras culturais desnecessárias.


O evangelho é universal

Apesar de todas as diferenças culturais apresentadas no capítulo, a mensagem final do autor é extremamente esperançosa: o evangelho pode alcançar todos os povos.

Nenhuma cultura é perfeita. Todas possuem limitações, pecados e valores positivos. O evangelho não destrói culturas; ele transforma pessoas dentro delas.

O Reino de Deus não será composto por uma única cultura, mas por povos diferentes unidos em Cristo.

“...de todas as nações, tribos, povos e línguas...”
Apocalipse 7:9

Essa diversidade glorifica a Deus.

Conclusão

O primeiro capítulo de Costumes e Cultura nos ensina que o maior obstáculo missionário muitas vezes não é a língua, a distância ou a pobreza, mas o orgulho cultural.

As histórias engraçadas apresentadas pelo autor nos fazem sorrir, mas também nos convidam à reflexão. Elas revelam o quanto podemos interpretar erroneamente outros povos quando enxergamos tudo apenas através da nossa própria cultura.

O verdadeiro missionário não é aquele que apenas fala, mas aquele que aprende, observa, respeita e ama.

Assim como Cristo entrou no mundo dos homens para alcançá-los, a igreja também precisa aprender a se aproximar das pessoas com humildade, graça e compreensão.

O evangelho continua sendo a mensagem para todos os povos — em todas as culturas, línguas e nações.

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