Entre a Sentinela e a Escritura: Expondo as Heresias das Testemunhas de Jeová
Entre a Sentinela e a Escritura: Expondo as Heresias das Testemunhas de Jeová
Introdução
Por Pr. Kleiton Fonseca
1. O Problema da Autoridade Religiosa
Desde os primeiros séculos, a Igreja Cristã lidou com o desafio dos falsos mestres que buscavam se colocar como mediadores da interpretação da Palavra de Deus (cf. Atos 20:29-30; 2 Pedro 2:1). A Reforma Protestante reafirmou que a Escritura é a única regra de fé (Sola Scriptura), mas o século XIX testemunhou o surgimento de grupos religiosos que deslocaram essa autoridade para líderes humanos ou organizações.
As Testemunhas de Jeová representam um desses movimentos. Para seus adeptos, a organização e não a Bíblia em si, tornou-se a chave exclusiva para a interpretação da verdade. Raymond Franz sobrinho de Frederick W. Franz (presidente da Sociedade Torre de Vigia), ex-membro do Corpo Governante, denuncia em Crisis of Conscience:
“A organização é apresentada como o ‘canal de Deus’, e o leal seguidor é instruído a confiar mais nela do que em sua própria leitura das Escrituras.” (FRANZ, 1983, p. 53).
Essa afirmação mostra o deslocamento da fé: da Escritura para uma instituição.
2. O Surgimento de um Movimento Apocalíptico
As raízes das Testemunhas de Jeová estão no contexto religioso norte-americano do século XIX, saturado de movimentos milenaristas e marcado pelas falhas das previsões adventistas (como o “Grande Desapontamento” de 1844).
Charles Taze Russell (1852–1916), fundador do movimento, herdou diretamente essa mentalidade. Seus escritos iniciais como Studies in the Scriptures (Estudos das Escrituras) eram permeados por cálculos cronológicos e datas para a vinda de Cristo. O historiador M. James Penton, em Apocalypse Delayed, afirma:
“Russell combinou a expectativa adventista com uma interpretação própria das profecias, criando um sistema escatológico no qual o retorno invisível de Cristo em 1874 se tornaria o pilar de sua teologia.” (PENTON, 1997, p. 21).
Logo se percebe que o movimento não nasceu de uma leitura exegética saudável, mas de especulações apocalípticas.
3. A Sentinela: Voz Oficial da Organização
Fundada em 1879, a revista A Sentinela tornou-se o canal oficial da organização, funcionando como o órgão de ensino central. Seus artigos são tratados não como simples reflexões, mas como revelações quase infalíveis.
Em 1917, a própria publicação declarou:
“A Sentinela é, sem dúvida, o meio escolhido por Jeová para transmitir instruções à sua organização.” (The Watch Tower, 15 de novembro de 1917, p. 6150, ed. em inglês).
O próprio corpo dirigente declara em suas publicações:
“A Sentinela não é a palavra inspirada de Deus. Contudo, é dirigida por Ele para dar a Sua interpretação das Escrituras.” (A Sentinela, 15 de junho de 1957, p. 370).
Essa contradição é central: a revista admite não ser inspirada, mas exige que suas interpretações sejam aceitas como se fossem a própria voz divina. Aqui se estabelece o terreno para o sectarismo.
A contradição, porém, é evidente: ao mesmo tempo em que afirma não ser inspirada, exige que seus ensinamentos sejam seguidos com obediência absoluta. Raymond Franz descreve essa tensão:
“Mesmo quando admitiam erros, a mensagem sempre era que a lealdade à organização devia permanecer inabalável, como se questionar suas direções fosse questionar o próprio Deus.” (FRANZ, 1983, p. 65).
Aqui se estabelece o coração do problema sectário: a substituição da Palavra pela voz institucional.
4. Contradições Iniciais e a Construção da Autoridade
O movimento não demorou a acumular profecias fracassadas: 1874, 1914, 1918, 1925, e posteriormente 1975. Cada decepção, em vez de enfraquecer o grupo, era reinterpretada como “mais luz” que Jeová fornecia progressivamente.
O sociólogo Bryan R. Wilson, especialista em novos movimentos religiosos, nota:
“A habilidade da Torre de Vigia em reinterpretar suas falhas proféticas sem perder credibilidade entre os adeptos é uma das marcas de sua eficácia em manter autoridade institucional.” (WILSON, The Noble Savages, 1976, p. 152).
Essa dinâmica fortaleceu a dependência dos membros em relação à organização, alimentando um ciclo de lealdade mesmo diante de evidências de erro.
5. Justificativa e Objetivo da Pesquisa
Não se trata aqui de uma análise superficial ou meramente apologética. A proposta é desenvolver um estudo teológico e investigativo, embasado em fontes acadêmicas e em relatos de ex-membros, para demonstrar como a organização das Testemunhas de Jeová se sustenta sobre um edifício de contradições, falhas proféticas e manipulações doutrinárias.
Diante desse panorama, torna-se necessário examinar de forma crítica e investigativa as heresias, contradições e manipulações doutrinárias das Testemunhas de Jeová. Não se trata apenas de discordar de um sistema teológico, mas de avaliar as consequências espirituais e sociais que decorrem da substituição da Escritura por uma autoridade humana.
Mais uma vez, Franz nos alerta:
“O problema não é a sinceridade dos membros, mas o sistema que os mantém aprisionados por meio do medo, da lealdade institucional e de uma visão distorcida das Escrituras.” (FRANZ, 1983, p. 125).
Assim, a presente série — Entre a Sentinela e a Escritura — buscará expor, com base bíblica, histórica e teológica, as heresias e contradições desse movimento, oferecendo um contraponto que reafirme a centralidade da Palavra de Deus como única regra infalível de fé e prática.
6. Um Chamado Pastoral
Diante desse quadro, a Igreja de Cristo é chamada a exercer discernimento espiritual. O apóstolo Paulo advertiu:
“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregue outro evangelho além do que já vos pregamos, seja anátema.” (Gl 1:8).
E Judas exorta:
“Amados, enquanto empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, senti a necessidade de vos escrever, exortando-vos a batalhar pela fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos.” (Jd 3).
Pr. Kleiton Fonseca
São Paulo, 8 de agosto de 2025
II. Fundação e Criação do Movimento
Charles Taze Russell (1852–1916)
O presente estudo busca traçar um panorama teológico-investigativo sobre Charles Taze Russell (1852–1916) e as origens do movimento dos Estudantes da Bíblia, que viria a se consolidar como as Testemunhas de Jeová. Ao invés de uma mera biografia, o objetivo é analisar as influências, o contexto e as ênfases doutrinárias iniciais que moldaram a cosmovisão de Russell, examinando-as à luz da ortodoxia cristã histórica. Partir de Russell é fundamental, pois ele foi a figura catalisadora de um novo paradigma de interpretação bíblica e organização, cujos pressupostos ainda ressoam nas doutrinas e práticas do movimento hoje.
O Ambiente Religioso Norte-Americano no Século XIX
A paisagem religiosa dos Estados Unidos no século XIX foi um terreno fértil para o surgimento de novas interpretações e movimentos. A Segunda Grande Ressurgência (c. 1800–1840) gerou um fervor revivalista que enfatizava a experiência pessoal, o estudo bíblico leigo e uma certa desconfiança em relação às hierarquias e credos estabelecidos. Esse ambiente propiciou o florescimento de diversas correntes milenaristas, que se dedicavam a calcular a iminente volta de Cristo e o fim dos tempos.
Um dos movimentos mais significativos foi o Adventismo pós-Miller, que surgiu após a falha da profecia de William Miller de que Cristo retornaria em 1843/1844. A "Grande Decepção" não extinguiu o fervor escatológico, mas o fragmentou em vários grupos que reinterpretaram as profecias e as cronologias, buscando novas datas para a "presença" (parousia) do Senhor. A crença na pre-milenarismo — de que Cristo retornaria antes do milênio — era comum, e a ênfase na cronologia bíblica como uma chave para desvendar o plano de Deus era um pressuposto compartilhado.
Além do revivalismo, o século XIX viu a ascensão de uma cultura de massa impulsionada pela industrialização e pela imprensa religiosa. Publicações como revistas e folhetos podiam alcançar um público vasto e disperso, permitindo que líderes como Russell difundissem suas ideias de forma rápida e direta, contornando a autoridade das igrejas estabelecidas. A urbanização, especialmente em cidades como Pittsburgh/Allegheny, onde Russell cresceu, criou uma nova dinâmica social e religiosa, com pessoas buscando respostas em um mundo em rápida mudança.
Que fatores do ambiente religioso norte-americano (séc. XIX) favoreceram o surgimento de leituras cronológicas/escatológicas como as de Russell? O ambiente de liberdade religiosa e o fervor milenarista, em conjunto com o desencanto pós-Miller e a capacidade de disseminação de ideias através da imprensa, criaram um caldo cultural e religioso no qual as propostas de Russell, centradas em uma cronologia detalhada, puderam encontrar eco. Ele se encaixou em um padrão preexistente de busca por certezas no fim dos tempos.
Vida e Formação de Charles Taze Russell (1852–1875)
Charles Taze Russell nasceu em 16 de fevereiro de 1852, em Allegheny, Pensilvânia. Ele cresceu em uma família presbiteriana, mas ainda na adolescência abandonou a fé por estar atormentado pela doutrina do inferno literal. Sua crise de fé o levou ao ceticismo. No entanto, sua busca por significado o fez voltar-se para o estudo das Escrituras, mas com uma perspectiva de “rejeição dos credos” (Penton 2015, p. 19).
Russell não tinha formação teológica formal, tendo cursado apenas o ensino fundamental. No entanto, demonstrou grande habilidade para os negócios, ajudando seu pai, Joseph L. Russell, a expandir uma rede de lojas de roupas em Pittsburgh. Em sua juventude, já era um parceiro e um gerente eficaz, o que lhe proporcionou uma base financeira sólida. Quando decidiu dedicar-se integralmente à sua obra religiosa, vendeu seus negócios, obtendo uma quantia considerável que ele e sua esposa, Maria, usaram para financiar a produção e distribuição de literatura religiosa (Penton 2015, p. 22).
Seu ministério leigo começou por volta de 1870, quando, após ouvir uma palestra de um adventista chamado Jonas Wendell, ele e alguns amigos formaram um grupo para estudo bíblico em Allegheny. O grupo se dedicava a examinar a Bíblia “tópico por tópico” e a rejeitar as doutrinas que consideravam inconsistentes com as Escrituras, como a imortalidade da alma e a Trindade. Este grupo inicial de estudantes da Bíblia foi o embrião do movimento que ele viria a liderar.
Parceria com Barbour e o Adventismo Cronológico
A trajetória de Russell deu uma guinada crucial em 1876, quando ele conheceu Nelson H. Barbour, um adventista de Rochester, Nova York, que publicava a revista Herald of the Morning. Barbour, um ex-millerita, havia chegado à conclusão de que a "Grande Decepção" de 1844 não havia sido um erro, mas uma interpretação equivocada do evento. Ele defendia a tese de que a presença (parousia) de Cristo havia começado em 1874, de forma invisível, e que o retorno visível se daria em 1878 (Penton 2015, p. 28-29).
Como a parceria e a ruptura com N. H. Barbour moldaram a teologia e a estratégia editorial de Russell? Russell, com seus recursos financeiros, se tornou co-editor da Herald of the Morning, e a colaboração entre os dois resultou na publicação do livro Three Worlds, and the Harvest of This World (1877), um marco na história do movimento. A obra estabeleceu as bases da cronologia russellita: a vinda invisível de Cristo em 1874, a ressurreição dos "santos adormecidos" em 1878 e o fim dos "tempos dos gentios" em 1914.
Após a falha da profecia de 1878, a parceria entre Russell e Barbour se desfez. Barbour, desiludido, começou a questionar as cronologias, enquanto Russell, com a fé nas datas intacta, decidiu se separar do editor. A ruptura foi fundamental: Russell manteve a cronologia de 1874 como a data da "presença invisível" de Cristo, o que se tornou uma marca distintiva de seu pensamento. Essa separação deu a ele a oportunidade de criar sua própria plataforma editorial e, assim, controlar o desenvolvimento da doutrina sem a necessidade de negociar com outros líderes.
Nascimento do Periódico e da Sociedade
Após a separação de Barbour, Russell lançou sua própria revista em julho de 1879: Zion’s Watch Tower and Herald of Christ’s Presence. Ele se tornou o único editor, e a nova publicação se tornou o principal veículo para a disseminação de suas ideias. O nome da revista já revelava o foco: vigiar e anunciar a presença de Cristo. Quase todos os seus escritos e sermões foram publicados nas páginas desta revista (Penton 2015, p. 45).
Para gerenciar o crescente trabalho de impressão e distribuição de literatura, Russell co-fundou a Zion’s Watch Tower Tract Society em 1881, que foi formalmente incorporada em 1884 com ele como presidente. A sociedade não era uma igreja no sentido tradicional, mas uma organização de “serviço” dedicada à pregação. Isso refletia a visão de Russell de que as estruturas eclesiásticas tradicionais eram desnecessárias e que o verdadeiro cristianismo se manifestava no estudo e na disseminação das Escrituras.
Doutrinas e Cronologias Iniciais
Quais datas, termos e conceitos-chave (1874; 1878; 1879; 1881/1884; 1914) aparecem em fontes primárias, e como foram entendidos à época?
· 1874: Russell, influenciado por Barbour, adotou 1874 como a data da parousia (presença invisível) de Cristo. Ele defendia a ideia de que a volta do Senhor não seria um evento físico, mas um retorno invisível ao poder real. Em Studies in the Scriptures, Vol. II (1889), Russell escreveu: "The year 1874 is the date of our Lord’s return in the sense that he began to exercise his royal power" (p. 238). [tradução nossa: "O ano de 1874 é a data do retorno de nosso Senhor no sentido de que ele começou a exercer seu poder real."]
· 1878: Inicialmente, esta data foi associada à ressurreição dos "santos adormecidos". Quando o evento não ocorreu, Russell reinterpretou a data, afirmando que ela marcava a entronização de Cristo como Rei (Penton 2015, p. 32).
· 1881/1884: A fundação da Zion’s Watch Tower Tract Society em 1881, e sua incorporação legal em 1884, marcou a transição de um grupo de estudo para uma organização estruturada com uma estratégia clara de publicação.
· 1914: Esta é a data mais icônica da cronologia de Russell, baseada na interpretação dos "Sete Tempos" de Daniel 4. A data marcaria o fim dos "Tempos dos Gentios" e o início do Armagedom. No The Watch Tower de 1º de janeiro de 1892, Russell escreveu: “The ‘seven times’ of Daniel 4, etc., indicate that the final winding up of the affairs of this Gospel age will be fully consummated in the year 1914 A.D.” (p. 135). [tradução nossa: “Os ‘sete tempos’ de Daniel 4, etc., indicam que o encerramento final dos assuntos desta era do Evangelho será totalmente consumado no ano de 1914 D.C.”]. Após a falha das expectativas em 1914, a data foi reinterpretada como o ano de entronização de Cristo no céu e o início de uma colheita espiritual na Terra, levando a novos ajustes na escatologia.
Outras doutrinas iniciais incluíam a rejeição da Trindade (Cristo seria um ser criado, não Deus), do inferno de fogo literal (a punição para os ímpios seria o aniquilacionismo) e da imortalidade da alma humana. Ele também popularizou o uso da piramidologia, uma pseudociência que buscava nos alinhamentos da Grande Pirâmide de Gizé confirmação para suas cronologias bíblicas.
Controvérsias e Seus Efeitos Públicos
O ministério de Russell não foi isento de controvérsias, que por vezes mancharam sua reputação. Uma das mais notórias foi o caso do "Trigo Milagroso" (Miracle Wheat). Em 1911, Russell estava promovendo a venda de uma semente de trigo que, segundo ele, produziria uma colheita extraordinária. A revista The Brooklyn Eagle investigou a alegação e provou que o trigo não era superior ao comum, acusando Russell de fraude. Russell processou o jornal por difamação, mas perdeu o caso. Durante o julgamento, ficou evidente que a sociedade Watch Tower estava lucrando com a venda do trigo, embora Russell alegasse que os fundos seriam para a obra missionária. A controvérsia expôs Russell e a sociedade a um escrutínio público negativo.
Outra polêmica foi a sobre seu divórcio de Maria Russell, que o acusou publicamente de se envolver em relações impróprias com outras mulheres (Penton 2015, p. 191). Embora Russell tenha negado as acusações e o divórcio tenha sido concedido por "separação por crueldade", a exposição do caso nos jornais criou um escândalo considerável e abalou a confiança de muitos de seus seguidores.
Avaliação Teológico-Pastoral
Em que medida as marcas doutrinárias de Russell contradizem consensos bíblico-teológicos históricos? As doutrinas de Russell se chocam frontalmente com a ortodoxia cristã histórica em diversos pontos.
· Cristologia: A negação da Trindade e a crença de que Cristo é um ser criado (o arcanjo Miguel) é uma heresia, em desacordo com séculos de consenso teológico, desde os concílios de Niceia (325 d.C.) e Calcedônia (451 d.C.). A Bíblia, por outro lado, apresenta Jesus com atributos divinos, sendo adorado e chamado de "Deus forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz" (Isaías 9:6).
· Soteriologia: Russell defendia o conceito de "resgate" (um sacrifício que abre a porta para a vida, mas não garante a salvação), em vez do conceito evangélico de "propiciação" (um sacrifício que satisfaz a ira de Deus e garante a salvação). Sua rejeição da imortalidade da alma e do inferno literal também é um desvio da fé histórica.
· Escatologia: A fixação de datas para a volta de Cristo, prática já condenada por Jesus em Mateus 24:36, foi uma marca central do pensamento de Russell e continua a ser um ponto de tensão no movimento. A sua insistência na cronologia, mesmo após falhas, revelava uma abordagem especulativa em vez de uma exegese fiel à Bíblia.
Pastoralmente, a ênfase na cronologia e em uma "verdade" supostamente "restaurada" pode levar a um exclusivismo doutrinário e a uma dependência da autoridade da organização, em detrimento de uma relação pessoal e de confiança com Deus.
Linha do Tempo
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Data |
Evento |
Fonte Principal |
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1852 |
Nascimento de Charles Taze Russell em Allegheny, Pensilvânia. |
Jehovah’s Witnesses—Proclaimers of God’s Kingdom, p. 42 |
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c. 1870 |
Forma um grupo de estudo bíblico em Pittsburgh. |
Penton 2015, p. 19 |
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1876 |
Encontra Nelson H. Barbour e adota a cronologia de 1874. |
Jehovah’s Witnesses—Proclaimers, p. 44 |
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1877 |
Publicação de Three Worlds, and the Harvest of This World com Barbour. |
Barbour & Russell 1877 |
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1879 |
Rompe com Barbour e inicia a publicação de Zion’s Watch Tower. |
Zion’s Watch Tower, julho de 1879 |
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1881 |
Co-funda a Zion’s Watch Tower Tract Society. |
Jehovah’s Witnesses—Proclaimers, p. 576 |
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1884 |
A sociedade é formalmente incorporada, com Russell como presidente. |
Jehovah’s Witnesses—Proclaimers, p. 576 |
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1886-1904 |
Publicação dos volumes de Millennial Dawn, depois renomeados para Studies in the Scriptures. |
Russell, Studies in the Scriptures, Vol. 1 |
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1914 |
Início da Primeira Guerra Mundial; falha da profecia do fim dos "Tempos dos Gentios". |
The Watch Tower, 1º de janeiro de 1892, p. 135 |
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1916 |
Morte de Charles Taze Russell. |
The Watch Tower, 1º de dezembro de 1916, p. 5998 |
Bibliografia Comentada
· Penton, M. James. Apocalypse Delayed. 3ª ed. Toronto: University of Toronto Press, 2015.
Considerada uma das análises acadêmicas mais completas e críticas da história das Testemunhas de Jeová. O autor, um ex-membro, documenta de forma minuciosa as origens e as mudanças doutrinárias, incluindo as controvérsias do período de Russell. Uma obra essencial para o estudo sério do movimento.
· Barbour, N. H. & Russell, C. T. Three Worlds, and the Harvest of This World. Rochester: Office of Herald of the Morning, 1877.
Fonte primária indispensável, este livro estabelece as bases da cronologia russellita e do entendimento inicial da presença invisível de Cristo em 1874 e do fim dos tempos dos gentios em 1914.
· Sociedade Torre de Vigia. Jehovah’s Witnesses—Proclaimers of God’s Kingdom. Brooklyn, NY: Watchtower Bible and Tract Society, 1993.
A história oficial do movimento, publicada pela própria organização. Embora forneça dados biográficos e datas importantes, deve ser lida com cautela, pois apresenta uma perspectiva interna e apologética, suavizando ou omitindo controvérsias e contradições.
· Franz, Raymond. Crisis of Conscience. Atlanta: Commentary Press, 1983.
Embora o foco principal do livro de Franz seja o período pós-Russell, sua obra é um valioso contraponto aos relatos oficiais. Sua análise da natureza hierárquica e das práticas do Corpo Governante oferece um contexto importante para entender a evolução do movimento a partir das sementes plantadas por Russell.
Entregáveis Adicionais
Tabela “Datas & Declarações-chave (1874–1916)”
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Data |
Declaração/Evento |
Fonte Primária |
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1874 |
O ano da "segunda vinda" ou "presença invisível" de Cristo. |
Studies in the Scriptures, Vol. II, p. 238 |
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1878 |
Inicialmente, o ano da ressurreição dos santos e da "colheita"; depois, re-interpretado como entronização de Cristo. |
Zion’s Watch Tower, janeiro de 1881, p. 195 |
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1879 |
Lançamento da revista Zion’s Watch Tower and Herald of Christ’s Presence. |
Zion’s Watch Tower, julho de 1879 |
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1914 |
A expectativa do fim dos "tempos dos gentios" e do Armagedom. |
The Watch Tower, 1º de janeiro de 1892, p. 135 |
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1916 |
Morte de C. T. Russell. A revista The Watch Tower o honra como o “servo fiel e prudente” de Mateus 24:45. |
The Watch Tower, 1º de dezembro de 1916, p. 5998 |
Apêndice: Citações Primárias Traduzidas
1. Da Zion's Watch Tower sobre a separação de Barbour:
“From this time forward, therefore, the Herald of the Morning ceases to have any influence upon our faith, and we feel no longer under obligation to recommend it. We will henceforth seek to give the truth through this channel.” (Zion's Watch Tower, julho de 1879, p. 1).
[Tradução nossa: "A partir de agora, portanto, o Herald of the Morning deixa de ter qualquer influência sobre a nossa fé, e não nos sentimos mais na obrigação de recomendá-lo. De agora em diante, buscaremos dar a verdade através deste canal."]
2. Da Studies in the Scriptures sobre 1874:
“The year 1874 is the date of our Lord’s return in the sense that he began to exercise his royal power.” (Studies in the Scriptures, Vol. II, p. 238).
[Tradução nossa: “O ano de 1874 é a data do retorno de nosso Senhor no sentido de que ele começou a exercer seu poder real.”]
3. Do The Watch Tower sobre 1914:
“The ‘seven times’ of Daniel 4, etc., indicate that the final winding up of the affairs of this Gospel age will be fully consummated in the year 1914 A.D.” (The Watch Tower, 1º de janeiro de 1892, p. 135).
[Tradução nossa: "Os 'sete tempos' de Daniel 4, etc., indicam que o encerramento final dos assuntos desta era do Evangelho será totalmente consumado no ano de 1914 D.C."]
A história de Charles Taze Russell é um lembrete do poder do contexto religioso e social na formação de movimentos e de como a busca por certezas cronológicas e interpretações particulares pode se afastar dos consensos históricos da fé cristã. Como o legado de Russell se transformou e se solidificou nas décadas seguintes, e de que forma a liderança de seu sucessor, Joseph F. Rutherford, consolidou as Testemunhas de Jeová como as conhecemos hoje?
Com certeza. O texto original pode ser ampliado e aprofundado com as informações coletadas, resultando em uma análise mais completa e detalhada da transição de poder na Sociedade Torre de Vigia.
A seguir, a versão enriquecida do texto, com os pontos adicionados sobre as obras de Rutherford e os estudos acadêmicos:
Joseph Franklin Rutherford (1869–1942)
Introdução: Da Aliança aos Alinhados
A morte de Charles Taze Russell em 1916 deixou um vácuo de poder na Sociedade Torre de Vigia de Sião, uma organização que, até então, operava sob um modelo de liderança carismática e doutrinária centralizada na figura de seu fundador. A transição de poder não foi suave. O período subsequente foi marcado por uma disputa interna que, conforme apontam estudos acadêmicos como Apocalypse Delayed, de M. James Penton, envolveu uma forte oposição de membros do conselho de diretores. O conflito central girou em torno da publicação do livro póstumo O Mistério Consumado, que gerou acusações de desvio dos ensinamentos de Russell.
Essa disputa culminou na ascensão de Joseph Franklin Rutherford, um advogado e juiz, que não apenas herdou a presidência, mas também moldou a organização de forma radical. Seu histórico profissional influenciou seu estilo de liderança mais autoritário e legalista, distanciando-a de suas raízes e solidificando a identidade moderna do movimento conhecido hoje como Testemunhas de Jeová.
A análise a seguir se debruça sobre essa transformação, focando na consolidação da liderança de Rutherford, nas mudanças estruturais e doutrinárias que implementou e, finalmente, no legado que deixou.
A Consolidação da Liderança de Rutherford e as Mudanças Radicais
A consolidação de Rutherford foi marcada por uma centralização rigorosa de poder. Ele afastou os opositores e estabeleceu um sistema teocrático, onde os anciãos e líderes das congregações passaram a ser nomeados diretamente pelo Corpo Governante, em vez de serem eleitos localmente como antes.
As mudanças doutrinárias foram ainda mais notáveis, documentadas em suas próprias obras. O livro Millions Now Living Will Never Die (1920) é um exemplo crucial, pois nele Rutherford previu o retorno de Abraão e outros patriarcas para 1925, uma profecia que, ao não se cumprir, gerou uma crise interna e a necessidade de uma reestruturação de propósito para a organização. O rompimento definitivo com o passado veio com a adoção do nome "Testemunhas de Jeová" em 1931, anunciado nas publicações da própria The Watch Tower. Essa mudança simbolizou a nova missão do grupo: focar no trabalho de "testemunhar" o nome de Deus.
Além disso, Rutherford introduziu novas práticas e proibições, como a recusa em saudar a bandeira, o serviço militar e a celebração de feriados e aniversários, elementos que se tornaram traços distintivos do movimento e frequentemente causaram atrito com a sociedade.
O Legado de Rutherford
O legado de Rutherford é a solidificação de uma organização com uma identidade doutrinária e estrutural distinta daquela de seu fundador. Ele transformou a pregação em uma atividade central e obrigatória para todos os membros, utilizando tecnologias como fonógrafos e cartões de testemunho para padronizar a mensagem de porta em porta.
Como aponta o estudo sociológico de James A. Beckford, Rutherford também fortaleceu a postura de oposição da organização em relação a outras religiões e governos, que ele chamava de "Babilônia, a Grande". Essa visão de mundo mais polarizada se tornou um aspecto fundamental do movimento, consolidando a identidade sectária das Testemunhas de Jeová e preparando o terreno para a estrutura hierárquica que elas mantêm até hoje.
A Dialética da Contradição: Análise Crítica das Falhas Proféticas e Evolução Doutrinária Inicial das Testemunhas de Jeová
O movimento religioso conhecido como Testemunhas de Jeová, originado dos Estudantes Internacionais da Bíblia, é notável por sua história de evolução doutrinária, frequentemente impulsionada por uma série de previsões escatológicas não realizadas. Esta investigação acadêmica e crítica examina as contradições fundamentais que moldaram o movimento em seus primeiros anos, desde as profecias fracassadas de seu fundador, Charles Taze Russell, até as revisões teológicas e a centralização de poder sob Joseph Franklin Rutherford. A análise se concentra em como essas falhas e mudanças influenciaram a coesão interna do grupo e estabeleceram a autoridade da revista A Sentinela como o principal órgão de controle doutrinário.
Contradições Iniciais
As Profecias Fracassadas e Suas Consequências
A pedra angular da teologia inicial de Charles Taze Russell era a cronologia bíblica, que o levou a prever datas específicas para eventos apocalípticos. A primeira data crucial foi 1874, estabelecida no livro O Plano Divino das Eras (1886), como o ano do retorno invisível de Cristo, a parousia. Russell ensinava que, a partir dessa data, Cristo já estava "presente" no mundo, governando invisivelmente. A data seguinte e mais significativa foi 1914. De acordo com suas obras, especialmente o volume Estudos nas Escrituras (Volume II), este ano marcaria o "fim dos tempos dos gentios", com a destruição completa dos governos terrestres e o estabelecimento do Reino de Deus.
O advento da Primeira Guerra Mundial em 1914 foi interpretado pelos seguidores como a confirmação do início da Grande Tribulação. No entanto, o Armagedom e a destruição dos governos não ocorreram conforme previsto. Essa falha profética gerou uma crise de legitimidade interna. Subsequentemente, sob a liderança de J.F. Rutherford, a data de 1914 foi reinterpretada não como o fim dos tempos dos gentios, mas como o início de um período de tribulação e a data de coroação de Jesus no céu. Essa reinterpretação, publicada em edições de A Sentinela de 1917 em diante, foi um ajuste crucial que permitiu ao movimento manter sua identidade profética, apesar de um fracasso monumental.
A tendência a profecias de datas persistiu com Rutherford, culminando na previsão de 1925. No livro Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão (1920), Rutherford ensinava que, nesse ano, os patriarcas bíblicos como Abraão, Isaque e Jacó seriam ressuscitados para a vida na terra. A falha desta previsão foi particularmente devastadora. O fracasso de 1925 não pôde ser facilmente reinterpretado e resultou em um êxodo significativo de membros. O historiador M. James Penton, em sua obra Apocalypse Delayed, documenta que a organização perdeu cerca de 75% de seus membros entre 1925 e 1928, um período de profunda desilusão e dissidência que forçou Rutherford a uma reestruturação radical do movimento.
A Evolução da Doutrina da Segunda Vinda de Cristo
A interpretação da segunda vinda de Cristo é um exemplo claro da evolução doutrinária forçada pelas contradições. Charles Taze Russell concebeu a vinda de Cristo como uma parousia, uma "presença invisível" que começou em 1874, seguida por uma "manifestação" mais visível nos eventos finais. A salvação era concebida em um contexto de "aliança" com Deus, onde a igreja de Cristo seria composta por indivíduos que mantinham uma relação pessoal com Ele.
Com a ascensão de Joseph F. Rutherford, a doutrina foi significativamente alterada. Rutherford re-calibrou a data da presença invisível de Cristo para 1914, e não 1874. Além disso, ele gradualmente abandonou as referências à piramidologia de Russell e redefiniu o Armagedom não como um evento geral de destruição, mas como uma batalha literal e iminente que ocorreria nos "últimos dias". A salvação, sob Rutherford, tornou-se intrinsecamente ligada à participação ativa na organização e no ministério de porta em porta, uma mudança de uma aliança de indivíduos para um alinhamento com a estrutura e a "teocracia" do movimento. Essa mudança de foco de uma fé pessoal para a obediência institucional foi fundamental para a sobrevivência e crescimento do grupo após as falhas proféticas.
A Revista A Sentinela como Instrumento de Autoridade e Controle
A revista A Sentinela e Arauto da Presença de Cristo (originalmente Zion's Watch Tower and Herald of Christ's Presence) emergiu como o principal instrumento de ensino, controle doutrinário e legitimação da liderança. Desde seus primórdios, Russell utilizou a revista para publicar suas interpretações cronológicas. No entanto, foi sob Rutherford que a revista assumiu um papel central e quase onipotente.
A autoridade da revista tornou-se a fonte primária de "verdade" para os seguidores. Artigos de A Sentinela foram usados para justificar as mudanças doutrinárias e reinterpretar as profecias fracassadas. A edição de 1º de março de 1925, por exemplo, tentou explicar o fracasso da previsão, afirmando que os seguidores deveriam ter "fé em Deus, não em datas". Essa estratégia desviou o fracasso da profecia de volta para a fé dos próprios seguidores, enquanto a revista continuava a ser vista como a única fonte de verdade.
A partir da década de 1930, a revista foi usada para solidificar a estrutura "teocrática" do movimento, conforme documentado em estudos de George D. Chryssides. As instruções dirigidas aos seguidores não eram mais meras sugestões, mas comandos diretos sobre como conduzir a pregação e a vida pessoal, garantindo um controle estrito sobre a base. O papel da revista evoluiu de um simples arauto para um órgão de comando e controle, legitimando o poder da liderança central e garantindo a coesão do grupo em um ambiente de constantes mudanças e desapontamentos.
Considerações Finais
As contradições iniciais das Testemunhas de Jeová, particularmente as previsões fracassadas, não foram apenas falhas isoladas, mas catalisadores que impulsionaram a evolução do movimento de um grupo frouxamente organizado de "estudantes da Bíblia" para uma organização rigidamente hierárquica e sectária. A transição de uma profecia fracassada para outra forçou a liderança a fazer revisões doutrinárias substanciais, reinterpretando a natureza da volta de Cristo e a salvação. Essa dialética de contradição e adaptação legitimou a revista A Sentinela como a autoridade infalível, garantindo que o controle da "verdade" permanecesse exclusivamente com a liderança. O impacto na coesão interna foi dramático, com períodos de alto turnover de membros, mas a capacidade da organização de se adaptar e redefinir sua identidade em resposta às falhas permitiu sua sobrevivência e crescimento no século XX.
III. Estudo Bíblico e Método de Interpretação
1. Rejeição da Teologia Histórica e da Ortodoxia Cristã
A ruptura com a tradição cristã
A identidade teológica das Testemunhas de Jeová é forjada, em grande medida, pela sua rejeição explícita e categórica da teologia histórica e da ortodoxia cristã. A Sociedade Torre de Vigia de Sião, que se apresenta como a única organização que restaurou a verdade bíblica após séculos de “apostasia” da igreja, construiu um sistema de crenças que se opõe diretamente aos concílios ecumênicos, aos credos, à tradição patrística e até mesmo à Reforma Protestante.
Desde os primórdios, A Sentinela expressava essa rejeição. Em sua primeira edição (julho de 1879), afirma-se:
“Cremos que todos os credos do chamado cristianismo são cheios de erro; que sua fé não é a fé ensinada na Bíblia, mas sim tradições humanas.” (A Sentinela, julho de 1879, p. 1).
Essa denúncia incluía tanto a Igreja Católica quanto o Protestantismo histórico. O cristianismo tradicional era rotulado como “Babilônia, a Grande”, um sistema religioso apóstata que havia se corrompido por influências pagãs.
A rejeição explícita da tradição cristã histórica
1. A Patrística e os Credos
Ecumênicos
A doutrina da Trindade, formalizada no Credo Niceno (325) e defendida pelos
pais da igreja como Atanásio e Agostinho, é tratada pela Torre de Vigia como a
maior evidência da apostasia. A
publicação Raciocínios à Base das Escrituras
(1985) declara:
“A palavra ‘Trindade’ não é encontrada na Bíblia” e a doutrina foi “incorporada sob a influência de apóstatas e de filósofos pagãos.” (p. 405).
Do mesmo modo, o livro Deve-se Crer na Trindade? (1989) afirma que a doutrina é resultado da filosofia grega, e não da revelação bíblica.
2.
A
Reforma Protestante
Ainda que partilhasse o princípio de sola
Scriptura, a Reforma não é vista como restauração da verdade. Para a Torre
de Vigia, Lutero e Calvino apenas romperam parcialmente com Roma, mantendo
doutrinas “pagãs” como a Trindade, a imortalidade da alma e o inferno. Assim, a
Reforma é considerada um movimento incompleto, deixando o “trabalho de
restauração” aos Estudantes da Bíblia no século XIX.
Método de interpretação bíblica exclusivo
O cerne dessa rejeição encontra-se no método hermenêutico próprio da Torre de Vigia: um sistema fechado e centralizado. Enquanto a tradição cristã histórica utiliza a análise histórico-gramatical e a exegese teológica, a Torre de Vigia adota uma leitura seletiva da Escritura, controlada por sua liderança.
Raymond Franz, ex-membro do Corpo Governante, descreve esse processo como uma “hermenêutica de gabinete”:
“Os textos não eram estudados a partir de seu contexto histórico ou linguístico, mas apenas em conformidade com o que já havia sido publicado nas revistas oficiais. O resultado era uma interpretação circular, em que a Bíblia nunca falava por si mesma, mas sempre pela voz da organização.” (Crise de Consciência, 2002, p. 52).
Rutherford reforçou esse princípio em Riches (1936):
“A interpretação correta da Bíblia só pode vir através do canal visível de Jeová, a organização teocrática guiada pelo espírito.” (p. 111).
Esse modelo desloca a autoridade da Escritura para o magistério da organização, anulando o livre exame das Escrituras (cf. At 17:11).
Consequências doutrinárias da rejeição
A consequência direta desse sistema hermenêutico é a formulação de doutrinas que se colocam em oposição frontal à ortodoxia cristã:
· Cristologia e Trindade: Jesus não é homoousios com o Pai, mas o arcanjo Miguel, primeira criatura de Deus; o Espírito Santo é apenas uma força ativa.
· Antropologia e Escatologia: a alma não é imortal; o inferno não existe; os ímpios são aniquilados.
· Soteriologia: a salvação não é pela graça mediante a fé (sola fide, sola gratia), mas condicionada à obediência à organização e ao seu programa de evangelização.
Essas doutrinas distanciam radicalmente as Testemunhas de Jeová da cristandade histórica, criando um corpo teológico exclusivo que depende da autoridade central da Torre de Vigia.
Conclusão
A rejeição da teologia histórica e da ortodoxia cristã não é periférica, mas um pilar fundamental da identidade das Testemunhas de Jeová. Ao repudiar dois milênios de herança cristã, a Sociedade Torre de Vigia cria uma narrativa de restauração que legitima sua própria existência como “único canal de Deus”.
Como analisa M. James Penton:
“O método interpretativo das Testemunhas de Jeová não é nem protestante, nem católico, nem ortodoxo. É uma construção organizacional, criada para legitimar o controle central e a autoridade da Torre de Vigia.” (Apocalypse Delayed, 1997, p. 45).
O resultado é um sistema de crenças fechado, no qual a Escritura é mediada pelo Corpo Governante, e a coesão comunitária é garantida pela obediência, e não pelo diálogo com a tradição cristã histórica.
Bibliografia Geral do Estudo (Parcial)
1. Fontes Bíblicas e Textos Antigos
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RUTHERFORD, Joseph Franklin. Millions Now Living Will Never Die. Brooklyn, NY: Watch Tower Bible and Tract Society, 1920.
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RUTHERFORD, Joseph Franklin. The Harp of God. Brooklyn, NY: Watch Tower Bible and Tract Society, 1921.
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The Watch Tower and Herald of Christ’s Presence. Brooklyn: Watch Tower Bible and Tract Society (edições históricas, 1879–1940).
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3. Ex-Membros e Obras Críticas
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4. Teologia Reformada e História da Igreja
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