Natal, Ressignificação E A Redenção Da Cultura: Uma Análise Bíblica, Teológica E Histórica
Natal, Ressignificação E A Redenção Da Cultura: Uma Análise Bíblica, Teológica E Histórica
Instituto de Teologia John Wycliffe — Pesquisador
São Bernardo do Campo – São Paulo, Brasil
📧 kleitonfonseca10@gmail.com
🔗 ORCID: https://orcid.org/0009-0006-3665-5924
📅 Publicado em: 2025
Introdução
A afirmação de que o Natal é uma festividade essencialmente pagã tem sido recorrente em determinados círculos cristãos contemporâneos. Tal argumento, contudo, revela uma compreensão limitada tanto da história da Igreja quanto da própria teologia bíblica da redenção. O cristianismo histórico jamais afirmou que os elementos culturais do mundo são, em si mesmos, ontologicamente maus, mas sim que o mundo caído se encontra em rebelião contra Deus, usurpando Sua glória e distorcendo os fins para os quais todas as coisas foram criadas. O evangelho de Cristo, portanto, não apenas salva indivíduos, mas reivindica toda a criação para a glória de Deus, ressignificando símbolos, linguagens e práticas culturais.
Este artigo propõe demonstrar, com amparo bíblico, teológico e histórico, que o Natal não deve ser entendido como uma concessão ao paganismo, mas como um exemplo concreto da missão do Reino de Deus: tomar aquilo que foi deturpado pelo pecado e reconduzi-lo ao seu propósito original — a glorificação do Criador.
A Teologia Bíblica da Redenção Cultural
Desde as primeiras páginas das Escrituras, observa-se que Deus criou todas as coisas boas (Gn 1:31). A queda não criou uma nova realidade, mas corrompeu a existente. O pecado não possui criatividade própria; ele parasita, distorce e se apropria daquilo que Deus fez para o bem. Essa perspectiva é fundamental para compreender a relação entre cristianismo e cultura.
O mandato cultural (Gn 1:28) jamais foi revogado. Pelo contrário, ele é restaurado e aprofundado em Cristo. O apóstolo Paulo afirma que todas as coisas foram criadas por meio de Cristo e para Cristo (Cl 1:16) e que, pela cruz, Deus reconciliou consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão nos céus (Cl 1:20). A redenção, portanto, é cósmica em seu alcance.
À luz dessa verdade, o cristianismo não abandona o mundo simbólico e cultural, mas o confronta, purifica e redime. O que o pecado usurpou, Cristo reivindica.
A Cruz: De Instrumento Pagão de Morte a Símbolo da Redenção
Um dos exemplos mais contundentes de ressignificação histórica é a cruz. No contexto romano do primeiro século, a cruz era um instrumento de tortura e execução, associado à vergonha, maldição e exclusão social. Fontes arqueológicas e históricas, como inscrições romanas e relatos de autores clássicos, confirmam que a crucificação era reservada a escravos, rebeldes e criminosos considerados indignos de honra.
Do ponto de vista judaico, a cruz carregava ainda um estigma teológico adicional, pois a Lei afirmava que “maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Dt 21:23). No entanto, o Novo Testamento apresenta uma inversão radical desse significado. O apóstolo Paulo declara que Cristo se fez maldição por nós (Gl 3:13), transformando o símbolo máximo de vergonha no instrumento da salvação.
A arqueologia cristã primitiva confirma essa ressignificação. Inscrições, grafites e símbolos encontrados nas catacumbas romanas demonstram que, já nos primeiros séculos, a cruz passou a ser associada à vitória, à esperança e à vida eterna. O que era pagão e opressor foi redimido e reintegrado à narrativa da glória de Deus.
O Evangelho: De Proclamação Imperial a Boa-Nova de Salvação
Outro exemplo relevante é a própria palavra “evangelho” (euangelion). No mundo greco-romano, esse termo era amplamente utilizado para anunciar eventos considerados salvadores, como o nascimento de um imperador ou uma vitória militar decisiva. Inscrições arqueológicas, especialmente do período augustano, utilizam a linguagem do “evangelho” para exaltar César como portador de paz e ordem.
O Novo Testamento se apropria deliberadamente desse vocabulário político e cultural, subvertendo-o. Quando os evangelistas anunciam o “evangelho de Jesus Cristo” (Mc 1:1), estão proclamando que a verdadeira boa-nova não vem de Roma, mas do Reino de Deus. Trata-se de uma confrontação teológica direta: Cristo, e não César, é o verdadeiro Senhor.
Esse uso não representa uma capitulação ao paganismo, mas uma estratégia redentiva. O cristianismo ressignifica uma linguagem conhecida para revelar sua verdadeira finalidade. A glória atribuída ao poder humano é devolvida ao Deus verdadeiro.
O Natal e a Encarnação como Ato Redentor
Dentro dessa lógica bíblica e histórica, a celebração do Natal deve ser compreendida. O Novo Testamento não ordena explicitamente a celebração do nascimento de Cristo, mas afirma com clareza a centralidade da encarnação: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1:14). A Igreja, ao longo da história, reconheceu a importância teológica desse evento e passou a celebrá-lo liturgicamente.
O argumento de que a data do Natal coincide com festividades pagãs do solstício de inverno ignora um dado essencial: o cristianismo primitivo não absorveu tais festas em seu significado original, mas as confrontou simbolicamente. Cristo é apresentado como o verdadeiro “Sol da Justiça” (Ml 4:2), aquele que dissipa as trevas do mundo caído. A luz que antes era atribuída aos astros é agora reconhecida como proveniente do Criador.
Do ponto de vista histórico, não há evidência arqueológica ou documental conclusiva de que a Igreja tenha adotado práticas pagãs em seu conteúdo religioso. O que se observa é uma reinterpretação cristológica do tempo, da história e dos símbolos. O calendário, assim como a linguagem e os objetos, é submetido ao senhorio de Cristo.
Paganismo como Usurpação da Glória de Deus
Biblicamente, o paganismo não é apresentado como uma alternativa legítima de culto, mas como uma distorção da verdade revelada. Paulo afirma que os homens “mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível” (Rm 1:23). O problema não está na existência dos símbolos, mas na direção da adoração.
Tudo o que existe foi criado para glorificar a Deus (Sl 19:1; Is 43:7). Quando tais elementos são usados para outro fim, ocorre uma usurpação da glória divina. O evangelho, portanto, não destrói a criação, mas a liberta de seus usos idólatras. Celebrar o nascimento de Cristo é afirmar que Deus entrou na história para restaurar aquilo que foi corrompido.
Considerações Finais
À luz das Escrituras, da teologia cristã histórica e das evidências arqueológicas, o argumento de que o Natal é uma festa pagã não se sustenta. Ele parte de uma compreensão reducionista da cultura e de uma visão empobrecida da redenção. O cristianismo não nega o mundo, mas o reconquista para Cristo.
A cruz, o evangelho e o próprio calendário testemunham que aquilo que o pecado tentou sequestrar para si é reivindicado pelo Reino de Deus. Celebrar o Natal, portanto, não é celebrar o paganismo, mas proclamar que Jesus Cristo é o Senhor da história, da cultura e de toda a criação, e que tudo existe para a glória de Deus somente.
Respostas às Objeções Comuns sobre o Natal
Uma das objeções mais recorrentes afirma que elementos associados ao Natal — como a data, símbolos naturais ou costumes culturais — invalidariam a legitimidade cristã da celebração. Tal crítica, contudo, incorre em anacronismo histórico e em reducionismo teológico.
1. A data de 25 de dezembro. Não existe consenso absoluto entre os estudiosos sobre a fixação dessa data, e a própria Escritura não a determina. Todavia, a ausência de mandamento explícito não invalida a legitimidade de uma celebração teológica. A Igreja primitiva compreendeu o tempo como pertencente a Deus (Sl 31:15) e, ao organizar o calendário cristão, submeteu o fluxo histórico ao senhorio de Cristo. Mesmo que houvesse coincidência com festividades pagãs, isso não implica assimilação de significado, mas confrontação simbólica. A proclamação de Cristo como Luz do mundo (Jo 8:12) subverte qualquer culto às forças naturais.
2. Símbolos naturais e culturais. A crítica aos símbolos ignora que a criação pertence a Deus (Sl 24:1). Árvores, luzes e ciclos naturais não são intrinsecamente pagãos; tornam-se idólatras apenas quando desviados de seu fim original. A teologia bíblica não demoniza a matéria, mas a reconhece como boa, ainda que caída (Gn 1:31; Rm 8:20–22).
3. A acusação de sincretismo. Sincretismo ocorre quando conteúdos teológicos incompatíveis são mesclados. O Natal, ao contrário, afirma de modo inequívoco a encarnação do Verbo (Jo 1:14). O conteúdo cristológico permanece intacto, ainda que expresso em linguagem culturalmente inteligível.
Considerações Metodológicas e Teológicas Finais
A rejeição do Natal com base em sua suposta origem pagã revela, muitas vezes, uma teologia da fuga, e não da redenção. A Escritura aponta para uma escatologia restauradora, na qual as nações trazem sua glória para a Nova Jerusalém (Ap 21:24). Isso pressupõe purificação, não aniquilação da cultura.
Abraham Kuyper corretamente afirmou que não há um centímetro sequer da existência humana sobre o qual Cristo não declare: “É meu”. Essa afirmação resume a lógica do Natal: o Deus eterno entra na história para reclamar aquilo que lhe pertence.
Notas de Rodapé (Modelo Acadêmico – ABNT)
A compreensão da redenção como restauração da criação pode ser observada em Gênesis 1–3 e desenvolvida em Colossenses 1:15–20.
Sobre a cruz como instrumento romano de execução e sua ressignificação cristã, ver MARTIN, Hengel. Crucifixion. Filadélfia: Fortress Press, 1977.
A maldição associada ao madeiro encontra-se em Deuteronômio 21:23, reinterpretada cristologicamente em Gálatas 3:13.
Sobre o uso político do termo euangelion no Império Romano, ver WRIGHT, N. T. Paul and the Faithfulness of God. Minneapolis: Fortress Press, 2013.
Inscrições do período augustano utilizam o termo “evangelho” para anunciar o nascimento de César, conforme registrado no Priene Calendar Inscription.
A encarnação como fundamento teológico do Natal é central em João 1:14 e Filipenses 2:6–11.
A crítica paulina à idolatria como troca da glória de Deus encontra-se em Romanos 1:21–23.
A visão escatológica da redenção das nações é apresentada em Apocalipse 21:24–26.
Bibliografia Comentada
BÍBLIA SAGRADA. Traduções Almeida Revista e Atualizada / ESV. Base primária para toda a argumentação teológica.
HENGEL, Martin. Crucifixion. Estudo clássico histórico-arqueológico sobre a prática romana da crucificação e seu impacto cultural.
WRIGHT, N. T. Paul and the Faithfulness of God. Análise histórica e teológica do vocabulário político do Novo Testamento, incluindo o termo “evangelho”.
KELLER, Timothy. Cristianismo Puro e Simples na Cultura Contemporânea. Obra que dialoga com a teologia da contextualização e redenção cultural.
KUYPER, Abraham. Calvinismo. Fundamenta a visão reformada da soberania de Cristo sobre todas as esferas da vida.
BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada, vol. 1. Desenvolve a relação entre criação, queda e redenção.
SCHMEMANN, Alexander. Pelo Mundo para a Vida do Mundo. Aborda a sacramentalidade da criação e sua vocação para glorificar a Deus.
BROWN, Raymond E. The Birth of the Messiah. Estudo histórico-crítico sobre os relatos do nascimento de Jesus e sua recepção na Igreja primitiva.

Comentários
Enviar um comentário