O Funeral da Confissão de Fé de Westminster: A Revolta de Barton Stone e o Perigo do Anticonfessionalismo

 


O Funeral da Confissão de Fé de Westminster: A Revolta de Barton Stone e o Perigo do Anticonfessionalismo

Pr.Kleiton Fonseca
Instituto de Teologia John Wycliffe — Pesquisador
São Bernardo do Campo – São Paulo, Brasil
📧 kleitonfonseca10@gmail.com
🔗 ORCID: https://orcid.org/0009-0006-3665-5924
📅 Publicado em: 2025 

1. Resumo

O presente artigo se propõe a analisar o anticonfessionalismo como um fenômeno eclesiológico e teológico com raízes históricas profundas no protestantismo americano, manifestado de forma emblemática no gesto de Barton W. Stone e seus colegas ao publicarem o The Last Will and Testament of the Springfield Presbytery (“O Último Testamento e Declaração do Presbitério de Springfield”) em 1804. 

A tese central defendida é que o ato simbólico de "enterrar" a Confissão de Fé de Westminster, e ações similares de rejeição a credos e confissões (como as promovidas por Charles Finney), representou um rompimento com a tradição reformada que, com desdobramentos históricos, contribuiu para a perda de identidade confessional e a proliferação de subjetivismos teológicos em diversos contextos, incluindo o Brasil. Utilizando uma metodologia histórico-teológica, o estudo examina o contexto do Segundo Grande Despertamento, a análise textual do Last Will and Testament, e o contraste com o revivalismo de Finney. O artigo traça as linhas de causalidade que ligam o movimento anticonfessionalista à emergência de tendências não-confessionais e, posteriormente, ao pentecostalismo e neopentecostalismo, tanto nos Estados

Unidos quanto no Brasil, por meio de mecanismos de transmissão missionária e cultural. Em contrapartida, o trabalho apresenta uma apologia da confessionalidade, fundamentada nos argumentos de teólogos reformados como R. C. Sproul e John Murray, demonstrando como as confissões de fé atuam como baluartes protetores da ortodoxia, da pregação expositiva e da saúde eclesiológica. Conclui-se com recomendações práticas para o fortalecimento da identidade confessional nas igrejas reformadas brasileiras.

2. Introdução

A igreja cristã, desde seus primórdios, tem se engajado na tarefa de articular sua fé em declarações formais. O Credo Apostólico, o Credo Niceno-Constantinopolitano e, na tradição reformada, a Confissão de Fé de Westminster (CFW) entre outras, são exemplos de documentos que visam proteger a ortodoxia, instruir os fiéis e promover a unidade doutrinária. No entanto, a história do protestantismo é marcada por tensões entre a autoridade da Escritura (Sola Scriptura) e a autoridade das formulações humanas. O problema surge quando o princípio do Sola Scriptura é mal interpretado, levando ao anticonfessionalismo, a crença de que a Bíblia é o único guia de fé e prática, e que qualquer credo ou confissão humana é desnecessário ou, pior, prejudicial.

Este artigo se debruça sobre um momento crucial dessa tensão na história americana: o "funeral" da Confissão de Fé de Westminster, simbolizado pela publicação do The Last Will and Testament of the Springfield Presbytery em 1804. O documento, liderado por Barton W. Stone, um ministro presbiteriano no Kentucky, marcou o rompimento com a Confissão de Westminster e o início de um movimento que buscava a "restauração" do cristianismo primitivo, livre de credos eclesiásticos.

 

O objetivo principal deste estudo é analisar o gesto anticonfessional de Stone e seus desdobramentos, traçando uma linha de causalidade histórica e teológica que se estende até o cenário evangélico brasileiro contemporâneo. Argumentamos que a rejeição das confissões, embora motivada por um desejo de unidade e simplicidade bíblica, abriu as portas para o subjetivismo teológico e para a adoção de práticas e doutrinas que se afastam da ortodoxia reformada e bíblica.

 

A metodologia empregada é histórico-teológica. Primeiramente, examinaremos o contexto

histórico e as motivações de Barton Stone, seguido por uma análise textual do Last Will and Testament. Em seguida, contrastaremos o movimento de Stone com o revivalismo de Charles Finney, outro proponente do anticonfessionalismo, embora por vias teológicas distintas. A segunda parte do artigo se concentrará nas consequências eclesiológicas e doutrinárias nos Estados Unidos e, crucialmente, na forma como essa cultura anticonfessional foi transmitida e se manifestou no protestantismo brasileiro, especialmente nos movimentos pentecostais e neopentecostais. Por fim, apresentaremos uma defesa teológica da confessionalidade, baseada em autores reformados contemporâneos como R. C. Sproul e John Murray, como um caminho para a saúde eclesiológica e a fidelidade doutrinária.

 As fontes primárias incluem o The Last Will and Testament of the Springfield Presbytery (1804) e escritos de Barton Stone e Charles Finney. As fontes secundárias abrangem biografias acadêmicas, artigos de história da igreja e estudos sobre o protestantismo brasileiro, garantindo a neutralidade acadêmica ao fundamentar as críticas em evidências históricas e argumentos teológicos sólidos.

3. Breve Panorama Histórico da Confissão de Fé de Westminster

A Confissão de Fé de Westminster (CFW) não é um documento surgido no vácuo, mas o produto de um intenso debate teológico e político no século XVII. Convocada pelo Parlamento Inglês em 1643, a Assembleia de Westminster reuniu teólogos e leigos com o objetivo de reformar a Igreja da Inglaterra, alinhando-a com as igrejas reformadas do continente e da Escócia.

 A CFW, juntamente com os Catecismos Maior e Breve, foi concluída em 1647 e rapidamente se tornou o padrão doutrinário para as igrejas presbiterianas em todo o mundo. Sua finalidade era tríplice: unidade doutrinária, defesa contra heresias e guia para a adoração e o governo eclesiástico. A Confissão foi elaborada em um período de grande efervescência teológica, visando combater erros como o socinianismo (negação da Trindade e da divindade de Cristo), o arminianismo (negação da soberania de Deus na salvação) e o antinomianismo (negação da lei moral).

 A necessidade de tais documentos é um consenso na tradição reformada. João Calvino (1509–1564), embora não tenha escrito uma confissão nos moldes da CFW, defendia a necessidade de declarações doutrinárias para a ordem e a pureza da igreja. Para Calvino, a confissão pública de fé era um ato de adoração e um meio de preservar a unidade da igreja. Charles Hodge (1797–1878), um dos maiores teólogos de Princeton, afirmou que as confissões são indispensáveis para a existência da igreja organizada, pois uma igreja sem um padrão doutrinário é como um corpo sem alma.

"A igreja, como sociedade visível, deve ter um credo. Uma igreja sem um credo é uma igreja sem uma fé, e uma igreja sem uma fé é uma igreja sem alma." (Hodge, Teologia Sistemática, 1872)

 De forma semelhante, J. I. Packer (1926–2020) argumenta que as confissões são ferramentas essenciais para a pedagogia doutrinária e a identidade eclesiológica. Elas não apenas declaram o que a igreja crê, mas também ensinam o povo de Deus a pensar biblicamente sobre a fé. A CFW, em particular, é um monumento à precisão teológica, oferecendo um sistema de doutrina que é coerente e abrangente.

 O papel da CFW e de outras confissões na tradição reformada é o de um padrão subordinado à Escritura. A CFW, em seu primeiro capítulo, afirma claramente que a Bíblia é a única regra de fé e prática, e que os concílios e sínodos podem errar. No entanto, as confissões são vistas como um instrumento pedagógico e protetor. John Murray [1], em seu ensaio The Importance and Relevance of the Westminster Confession (A Importância e Relevância da Confissão de Fé de Westminster), argumenta que a Confissão é o registro de um entendimento maduro e coletivo das Escrituras, servindo como uma "bandeira" que identifica a igreja e protege a pureza doutrinária.

"Nenhum credo da Igreja Cristã, com exceção dos credos ecumênicos, alcançou o status e a influência da Confissão de Fé de Westminster. É a formulação mais perfeita e precisa das verdades da Bíblia que a Igreja já produziu." (Murray, Escritos Reunidos, vol. 1)

 

As confissões cumprem uma função formativa e pedagógica, ensinando a doutrina de forma sistemática e coerente. Elas estabelecem os limites da ortodoxia, servindo como um cerca de proteção contra desvios teológicos. R. C. Sproul [2], em Truths We Confess (Verdades que Confessamos), enfatiza que as confissões são necessárias porque a igreja precisa de uma declaração pública e clara de sua fé, especialmente em face de erros.

 

Função da Confissão de Fé

Descrição

Normativa Subordinada

Declaração pública e coletiva do que a igreja crê que a Bíblia ensina, servindo como padrão de ensino e pregação.

Didática/Pedagógica

Instrumento para instruir os membros da igreja e os candidatos ao ministério na teologia sistemática.

Protetora/Apologética

Barreira contra heresias e desvios doutrinários, estabelecendo os limites da ortodoxia.

Eclesiológica

Base para a unidade e a disciplina eclesiástica, garantindo que a liderança e o ensino sejam coerentes.

 

A rejeição a esses documentos, portanto, não é apenas uma questão de preferência estilística, mas um ato que questiona a própria necessidade de uma articulação teológica coletiva e histórica da fé. É nesse contexto de valorização da tradição confessional que o ato de Barton Stone se torna um marco de ruptura.

4. Barton W. Stone: Vida, Contexto e Motivações

Barton Warren Stone (1772–1844) foi uma figura central no Segundo Grande Despertamento americano e um dos fundadores do que viria a ser o Movimento de Restauração (Restoration Movement). Nascido em Maryland e educado na tradição presbiteriana, Stone foi ordenado ministro e serviu as igrejas de Cane Ridge e Concord, no Kentucky.

 

O ponto de inflexão em sua vida e ministério foi o Avivamento de Cane Ridge em 1801. Este evento, uma reunião campal de comunhão, atraiu cerca de 20.000 pessoas e foi marcado por manifestações emocionais intensas e incomuns, como desmaios, "o salto", "o balanço" e "o latido". Stone, embora inicialmente cético, abraçou o avivamento como uma obra genuína de Deus.

 

O avivamento, no entanto, gerou tensões teológicas e eclesiológicas dentro do presbiterianismo. Os ministros que participaram do avivamento, incluindo Stone, começaram a questionar a ênfase na Confissão de Fé de Westminster, especialmente em pontos como a predestinação, que pareciam inibir a resposta humana ao evangelho. A teologia de Stone começou a se mover em direção a uma forma de arminianismo, enfatizando a liberdade da vontade humana e a responsabilidade pessoal na salvação.

 

As tensões culminaram em 1803, quando o Sínodo de Kentucky acusou Stone e outros quatro ministros (Robert Marshall, John Dunlavy, Richard McNemar e John Thompson) de heresia por se afastarem da CFW. Em resposta, os cinco ministros se retiraram do Sínodo e formaram a Presbitéria de Springfield.

 

As motivações de Stone e seus colegas eram complexas, misturando razões pastorais, práticas e teológicas:

 

1.Desejo de Unidade Cristã: Eles viam os credos como a principal causa de divisão entre os cristãos. A Confissão de Westminster, em particular, era vista como uma barreira sectária.

 

2.Ênfase na Experiência: O avivamento de Cane Ridge valorizou a experiência religiosa imediata em detrimento da doutrina formal.

 

3.Simplicidade Bíblica: O desejo de retornar à "simplicidade" do cristianismo do Novo Testamento, sem as "invenções humanas" dos credos.

 

O rompimento não foi apenas uma questão de disciplina eclesiástica, mas um ato de profunda convicção anticonfessional. A Presbitéria de Springfield durou apenas um ano, mas seu legado foi imortalizado no documento que se tornou o foco deste estudo.

O Segundo Grande Despertamento (c. 1790–1840) forneceu o clima cultural e religioso para esse rompimento. Caracterizado por reuniões campais e uma ênfase na experiência emocional e na decisão individual, o movimento enfraqueceu a autoridade das estruturas eclesiásticas e dos credos. O foco na "nova luz" e na experiência imediata do Espírito Santo levou a uma desconfiança do passado e da teologia sistemática. Stone, ao abraçar o avivamento de Cane Ridge, internalizou essa desconfiança, vendo a Confissão de Westminster como um obstáculo à obra do Espírito e à união dos cristãos. Sua motivação, embora pastoralmente compreensível, ignorou a função protetora e unificadora da confissão, confundindo a forma (o documento) com o conteúdo (a doutrina bíblica que ele expressa).

 

A teologia de Stone, influenciada pelo avivamento, começou a se afastar do calvinismo estrito da CFW. Ele passou a pregar uma forma de arminianismo evangélico, onde a responsabilidade humana na salvação era enfatizada de forma proeminente. A doutrina da predestinação, central na Confissão de Westminster, era vista por Stone como um impedimento à evangelização e um obstáculo à fé. Em sua autobiografia, Stone relata a luta interna com a doutrina calvinista, que ele considerava "opressiva" e "contrária ao amor de Deus".

 

"Eu não podia pregar o Calvinismo. Eu o considerava como uma doutrina que tornava Deus o autor do pecado, e o homem uma mera máquina. Eu não podia reconciliá-lo com o amor de Deus, nem com a responsabilidade do homem." (Stone, A Biografia do Ancião Barton Warren Stone, 1853)

 

Essa mudança teológica foi o motor da sua rejeição à CFW. Para Stone, a Confissão não era apenas um documento humano, mas um documento que ensinava uma doutrina que ele considerava antibíblica e prejudicial à obra do Espírito. O anticonfessionalismo de Stone, portanto, foi um ato de protesto teológico contra o calvinismo, disfarçado de um apelo à unidade e à simplicidade bíblica. O que ele buscava era uma base teológica mais ampla para a união de todos os cristãos, e essa base só poderia ser encontrada, segundo ele, na rejeição de todos os credos humanos.

O movimento de Stone, ao se unir com o de Alexander Campbell, formou o Restoration Movement, que se tornou um dos mais influentes movimentos religiosos americanos, com um impacto duradouro na eclesiologia e na teologia. O lema "nenhum credo além de Cristo" tornou-se o grito de guerra, mas, na prática, significava a adoção de um novo credo: o da restauração do cristianismo primitivo, livre de qualquer tradição histórica.

5. O “Último Testamento” da Presbitéria de Springfield (1804): Análise Textual

Em 28 de junho de 1804, a Presbitéria de Springfield publicou o The Last Will and Testament of the Springfield Presbytery (O Último Testamento da Presbitéria de Springfield). O documento não era uma confissão de fé, mas uma declaração de dissolução, um "funeral" simbólico da própria presbitéria e, por extensão, do sistema confessional que ela representava.

O texto começa com uma epígrafe bíblica que estabelece o tom dramático e sacrificial do ato:

"Porque, onde há um testamento, é necessário que intervenha a morte do testador; pois um testamento tem força onde houve morte; ou terá ele algum valor enquanto o testador vive? Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer. Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto. A voz do qual abalou então a terra; mas agora ele prometeu, dizendo: Ainda uma vez abalarei, não só a terra, mas também o céu. E esta palavra, 'ainda uma vez', significa a remoção das coisas abaladas, como coisas que são feitas, para que as que não são abaladas permaneçam.—Escritura" [3]

 

A analogia é clara: para que o "fruto" da unidade e da liberdade evangélica viesse, o corpo eclesiástico (a Presbitéria) e o sistema confessional (a Confissão de Westminster) deveriam "morrer".

 

A seguir, apresentamos a análise de trechos-chave do documento, conforme prometido. A análise detalhada de cada "Item" revela a profundidade da rejeição de Stone e seus colegas ao sistema confessional e eclesiástico presbiteriano.

 

Trecho do Last Will and Testament (1804)

Análise e Simbolismo

“Em primeiro lugar. Determinamos que este corpo morra, seja dissolvido e se una ao Corpo de Cristo em geral; pois há um só corpo e um só Espírito, assim como fomos chamados em uma só esperança da nossa vocação.”.

Dissolução Eclesiológica: O ato de "morrer" e "dissolver-se" é o funeral da estrutura denominacional. O objetivo é a união com o "Corpo de Cristo em geral", um apelo à unidade cristã que transcende as barreiras sectárias. A ironia é que, ao se dissolverem, eles criaram um novo movimento, o que demonstra a dificuldade prática de se viver sem uma estrutura eclesiológica.

“Item. Determinamos que o nosso nome distintivo, juntamente com o título de ‘Reverendo’, seja esquecido, para que haja apenas um Senhor sobre a herança de Deus, e que o seu nome seja um só.”

Rejeição da Hierarquia: O abandono do nome "Presbitéria de Springfield" e do título "Reverendo" é uma rejeição à autoridade eclesiástica formal e à distinção ministerial, buscando a simplicidade do

Novo Testamento. Isso reflete a tendência democrática e igualitária do protestantismo americano da época.

“Item. Determinamos que o nosso poder de fazer leis para o governo da igreja, e de executá-las por autoridade delegada, cesse para sempre; para que o povo tenha livre acesso à Bíblia e adote a lei do Espírito de vida em Cristo Jesus.”

Rejeição da Autoridade Delegada: O cerne do anticonfessionalismo. A Confissão de Westminster era vista como uma "lei" humana. O desejo é que o povo tenha "livre curso para a Bíblia" e adote apenas a "lei do Espírito de vida em Cristo Jesus", negando implicitamente a Confissão como regra secundária de fé. O problema é que a "lei do Espírito" sem uma formulação doutrinária clara se torna vulnerável à interpretação subjetiva.

“Item. Determinamos que o povo, doravante, tome a Bíblia como o único guia seguro para o céu; e que todos os que se escandalizam com outros livros que competem com ela possam lançá-los ao fogo, se assim o desejarem; pois é melhor entrar na vida tendo um só livro, do que, possuindo muitos, ser lançado no inferno.”

O "Somente a Bíblia" Radical: Este é o ponto mais dramático. Os "outros livros" que competem com a Bíblia são claramente os credos e confissões. O tom é de urgência e exclusividade, elevando o Sola Scriptura a um princípio que rejeita qualquer formulação doutrinária auxiliar. O perigo aqui é a falácia de que a Bíblia é o único livro que pode ser lido, ignorando a história da interpretação e a teologia sistemática.

“Item. Determinamos que o Sínodo de Kentucky examine todo membro que possa ser suspeito de ter se desviado da Confissão de Fé, e suspenda imediatamente todo tal herege suspeito, a fim de que os oprimidos possam ser libertos e provar as doçuras da liberdade do Evangelho.”

Ironia e Crítica Final: Uma crítica sarcástica ao Sínodo de Kentucky, que os havia acusado de heresia. O item ironiza a rigidez confessional, sugerindo que a Confissão é um instrumento de opressão que impede a "liberdade do Evangelho". O uso da palavra "oprimido" revela a percepção de Stone de que a CFW era um jugo, e não uma proteção.

 

O simbolismo do "funeral" é a morte da confessionalidade e da estrutura eclesiástica formal. O que Stone e seus colegas negavam implicitamente era a função histórica e teológica da Confissão de Westminster como um padrão de unidade e pureza doutrinária. Eles buscavam a unidade em torno de uma experiência comum e de uma leitura direta da Bíblia, um princípio de restauração que se tornaria a marca do movimento que se seguiu. A ironia histórica é que, ao rejeitar um credo, eles criaram um novo: o princípio de que "nenhum credo além de Cristo" é, em si, uma declaração confessional.

6. Charles Finney e Outras Atitudes Prévias ao Anticonfessionalismo

Embora Barton Stone e Charles Finney fossem contemporâneos e figuras proeminentes no Segundo Grande Despertamento, suas rotas para o anticonfessionalismo foram distintas, mas convergentes em seu efeito de enfraquecer a autoridade confessional

.

Charles Grandison Finney (1792–1875) foi um advogado convertido que se tornou um dos mais influentes evangelistas do século XIX. Seu ministério foi marcado pelas "Novas Medidas" (New Measures), um conjunto de técnicas de avivamento que incluíam o "banco do ansioso" (anxious bench), orações por nome e o uso de linguagem emocional e persuasiva. A teologia de Finney era abertamente arminiana e, em muitos aspectos, pelagiana, rejeitando a doutrina reformada da depravação total e da eleição soberana.

 

A postura de Finney em relação aos credos era de franca hostilidade. Ele via a Confissão de Westminster como um obstáculo ao avivamento e à conversão, pois suas doutrinas (como a predestinação) pareciam minar a responsabilidade humana e a urgência da decisão. Finney, em sua Systematic Theology (Teologia Sistematica), criticou a Confissão de Westminste, "Finney, em sua introdução à Teologia Sistemática, referindo-se à Confissão de Westminster e seus autores: '...como se tivessem criado um 'papa de papel', e tivessem 'elevado sua confissão e catecismo ao trono Papal e ao lugar do Espírito Santo.'" [4] A crítica de Finney era que a Confissão havia usurpado a autoridade do Espírito Santo e da própria Bíblia, tornando-se um ídolo. Ele continuou, em um tom que beira o ridículo:

 

"Que o instrumento elaborado por aquela assembleia seja reconhecido no século XIX como o padrão da igreja, ou de um ramo inteligente dela, não é apenas surpreendente, mas devo dizer que é altamente ridículo. É tão absurdo em teologia quanto seria em qualquer outro ramo da ciência. É melhor ter um Papa vivo do que um morto." (Finney, Teologia Sistemática) sessão "Papa de Papel" tornou-se um epíteto comum entre os críticos da confessionalidade. Finney via a Confissão como um obstáculo ao avivamento. Para ele, a doutrina da depravação total e da eleição incondicional (centrais na CFW) minavam a eficácia de suas "Novas Medidas", que dependiam da crença na capacidade do pecador de se arrepender e decidir por Cristo. O anticonfessionalismo de Finney, portanto, era um imperativo pragmático e teológico. Ele precisava rejeitar a CFW para justificar sua teologia arminiana/pelagiana e sua metodologia de avivamento. O contraste entre Finney e Stone, embora em rotas diferentes, converge para o mesmo resultado: a desvalorização da teologia sistemática e da tradição histórica. Stone buscava a unidade eclesiológica; Finney buscava a eficácia evangelística. Ambos encontraram na rejeição da CFW o caminho para seus objetivos, ignorando o papel da Confissão como guardiã da ortodoxia.

 

A convergência de seus movimentos criou um poderoso paradigma anticonfessional nos Estados Unidos. O movimento de Stone, focado na unidade eclesiológica, e o de Finney, focado na eficácia do avivamento, compartilhavam a premissa de que os credos eram obstáculos. Essa premissa se tornou um pressuposto cultural no protestantismo americano, influenciando gerações de evangelistas e missionários. A rejeição da teologia sistemática e da história da igreja em favor de uma "simplicidade" bíblica e de uma "experiência" imediata preparou o terreno para a aceitação de inovações doutrinárias e práticas que a tradição confessional teria rejeitado. O anticonfessionalismo, portanto, não é apenas a ausência de um credo, mas a adoção de uma metodologia teológica que desvaloriza a reflexão coletiva e histórica da igreja.

7. Consequências Teológicas e Eclesiológicas nos EUA

O anticonfessionalismo de Stone e Finney teve consequências duradouras no panorama religioso americano, culminando na formação de tendências não-confessionais e no subjetivismo teológico.

 

O movimento de Stone, ao se unir com o movimento de Alexander Campbell (outro ex-presbiteriano que rejeitou os credos), deu origem ao Restoration Movement (Movimento de Restauração), que se desdobrou em denominações como as Igrejas de Cristo, os Discípulos de Cristo e as Igrejas Cristãs. O lema "Onde a Bíblia fala, nós falamos; onde a Bíblia se cala, nós nos calamos" e o princípio de "nenhum credo além de Cristo" tornaram-se a marca desse movimento, que rejeitava qualquer nome ou estrutura que não fosse explicitamente encontrada no Novo Testamento.

 

O impacto doutrinário foi o surgimento de um ecumenismo empírico, onde a unidade era buscada na prática e na experiência, e não na concordância doutrinária detalhada. A rejeição dos credos levou a um vácuo que foi preenchido pelo subjetivismo teológico. Sem um padrão doutrinário coletivo e historicamente testado, a interpretação da Bíblia tornou-se mais suscetível a modismos e a ênfases individuais.

 

A perda da identidade confessional resultou em uma fragilidade doutrinária. Onde a Confissão de Westminster oferecia uma teologia robusta sobre a soberania de Deus, a depravação humana e a justificação pela fé, o anticonfessionalismo tendeu a abraçar um pelagianismo prático, onde a salvação dependia primariamente da decisão e do esforço humano. Essa mudança teológica, embora sutil, teve um impacto profundo na pregação e na eclesiologia.

 

A linha de causalidade histórica que liga o anticonfessionalismo a movimentos posteriores, como o pentecostalismo, deve ser traçada com cautela, evitando o determinismo, mas reconhecendo a influência. O pentecostalismo clássico, surgido no início do século XX (Avivamento da Rua Azusa), embora não seja um descendente direto do Restoration Movement, compartilha a mesma ênfase na experiência imediata do Espírito Santo e uma tendência anticonfessional.

 

O terreno preparado pelo revivalismo de Finney e pelo anticonfessionalismo de Stone, que desvalorizaram a teologia sistemática e a autoridade confessional, facilitou a aceitação de novas doutrinas e práticas baseadas em experiências subjetivas. A relativização da Confissão de Westminster abriu a porta para que a experiência se tornasse o critério primário de verdade, uma característica central do pentecostalismo e, mais tarde, do neopentecostalismo. O que começou como um desejo de "liberdade do Evangelho" (Stone) e "eficácia no avivamento" (Finney) resultou, ironicamente, em uma igreja mais vulnerável a erros e menos unida na verdade histórica.

 

8. Como Essa Cultura Anticonfessional Chegou ao Brasil

A cultura anticonfessional americana não permaneceu confinada aos Estados Unidos. Ela foi transmitida ao Brasil por meio de diversos mecanismos de transmissão, principalmente a partir do final do século XIX e início do século XX, com a chegada de missionários protestantes.

 

1.Missionários e Modelos Eclesiásticos: Muitos missionários, especialmente aqueles ligados a denominações mais recentes ou a movimentos de avivamento, trouxeram consigo o pragmatismo missionário americano. A ênfase era no crescimento numérico e na conversão rápida, muitas vezes em detrimento da instrução doutrinária aprofundada. O modelo de igreja que crescia rapidamente nos EUA, frequentemente não-confessional, era replicado no Brasil.

 

2.Literatura e Imprensa Evangélica: A tradução e circulação de livros e folhetos de autores americanos, incluindo os de Finney e outros revivalistas, popularizaram a teologia da decisão e a desconfiança em relação à teologia sistemática e aos credos.

 

3.Aspectos Culturais Brasileiros: A adoção do anticonfessionalismo foi facilitada por aspectos culturais. A aversão a hierarquias e a busca por uma religião mais emocional e direta encontraram eco na cultura brasileira. A pressa por crescimento numérico e o foco no "milagre" ou na "experiência" como prova de fé, em vez da fidelidade doutrinária, tornaram o modelo anticonfessional atraente.

O protestantismo histórico brasileiro (presbiterianos, batistas, metodistas) inicialmente manteve um forte vínculo confessional. No entanto, a influência do revivalismo americano e, posteriormente, o surgimento do pentecostalismo brasileiro (a partir de 1910, com a Congregação Cristã no Brasil e as Assembleias de Deus) demonstram a força da cultura anticonfessional.

 

O pentecostalismo, em sua forma clássica e, mais ainda, o neopentecostalismo, são movimentos intrinsecamente não-confessionais ou minimamente confessionais. Eles priorizam a experiência direta com o Espírito Santo, a cura divina e a prosperidade material, relegando a Confissão de Fé de Westminster e outros credos históricos a um papel secundário ou nulo. A ausência de um padrão confessional rigoroso permitiu uma multiplicidade doutrinária e a rápida adoção de teologias pragmáticas e, por vezes, heterodoxas.

 

A relativização das confissões permitiu que a multiplicidade doutrinária florescesse. Sem a Confissão de Westminster para proteger a ortodoxia, o pentecostalismo e o neopentecostalismo, embora com muitas diferenças internas, puderam adotar:

 

1.Ênfase na Experiência: A busca por sinais e prodígios como o foco central da fé, em vez da adoração a Deus conforme revelado nas Escrituras.

 

2.Teologia da Prosperidade: Uma soteriologia prática que promete saúde e riqueza, um desvio que seria rapidamente identificado e condenado por um padrão confessional rigoroso

.

A Confissão de Fé de Westminster, ao detalhar a doutrina da Escritura, de Deus, de Cristo e da Salvação, serve como um freio teológico. Sua ausência, ou rejeição, permite que o pêndulo doutrinário se mova livremente em direção a extremos, como o legalismo (Finney) ou o misticismo descontrolado (de certas vertentes pentecostais).

 

A crítica teológica a essa tendência reside no fato de que o anticonfessionalismo, ao rejeitar a Confissão, não rejeita o erro, mas a ferramenta de defesa contra o erro. A Confissão é o resultado de séculos de reflexão bíblica e debate teológico, e sua rejeição é um ato de arrogância histórica que condena a igreja a repetir os erros do passado. A Confissão, portanto, é um ato de humildade teológica, onde a igreja se submete à sabedoria coletiva e histórica do Corpo de Cristo.

9. Ligação entre Anticonfessionalismo, Pentecostalismo e Neopentecostalismo

A relativização das confissões, iniciada por movimentos como o de Stone e Finney, criou um ambiente onde a autoridade bíblica foi gradualmente substituída pela autoridade da experiência.

 

O anticonfessionalismo argumenta que a Bíblia é suficiente e que os credos a limitam. No entanto, na prática, a ausência de um credo formalmente aceito não resulta em uma igreja que vive somente pela Bíblia, mas em uma igreja que vive pela tradição não escrita de seu líder ou de seu movimento.

 

Doutrina Central

Padrão Confessional (CFW)

Tendência Anticonfessional (P/NP)

Autoridade

Sola Scriptura (Bíblia como única regra) e Norma Normata (Confissão como regra subordinada).

Sola Experientia (Experiência como critério de verdade) e Sola Liderança (Tradição não escrita do líder).

Pneumatologia

O Espírito Santo opera a regeneração e santificação, guiando à verdade bíblica.

Ênfase desequilibrada em dons espetaculares (glossolalia, cura) como prova de fé ou poder.

Soteriologia Prática

Salvação pela graça mediante a fé (Justificação) e santificação progressiva (Lei Moral).

Decisionalismo (ênfase na decisão humana) e Teologia da Prosperidade (ênfase na bênção material como prova de fé).

 

10. Crítica Teológica (Defesa da Confessionalidade)

Diante do perigo do anticonfessionalismo, a tradição reformada oferece uma robusta apologia da confessionalidade, baseada na teologia sistemática e na eclesiologia histórica.

 

John Murray [1], em sua defesa da Confissão de Westminster, argumenta que a Confissão é um ato de fidelidade e obediência à Escritura

.

"Nenhum credo da Igreja Cristã, com exceção dos credos ecumênicos, alcançou o status e a influência da Confissão de Fé de Westminster. É a formulação mais perfeita e precisa das verdades da Bíblia que a Igreja já produziu." (Murray, Escritos Reunidos, vol. 1, p .317)

 (Ênfase adicionada)

 

Murray vê a Confissão não como um substituto da Bíblia, mas como a melhor e mais precisa formulação das verdades da Bíblia que a Igreja já produziu. A Confissão é a "bandeira" que a igreja levanta, declarando publicamente o que ela crê. Ele enfatiza que a Confissão é um instrumento de unidade, pois une os cristãos em torno de uma compreensão comum e histórica da verdade bíblica.

 

A defesa de Murray é um chamado à humildade teológica, reconhecendo que a igreja não começa do zero em cada geração, mas se apoia no trabalho exegético e sistemático de seus antepassados.

 

R. C. Sproul [2], em Truths We Confess, enfatiza o papel das confissões como proteção contra a heresia. Ele argumenta que a igreja sempre teve credos, mesmo que não escritos, e que a rejeição a um credo formalmente aceito é, na verdade, a adoção de um credo pessoal e não testemunhado> "A igreja sempre teve credos. A questão não é: 'Devemos ter um credo?', mas sim: 'Devemos ter um credo bom ou um credo ruim? Devemos ter um credo escrito ou um credo não escrito?'" (Sproul, Verdades que Confessamos) (Ênfase adicionada)

Sproul defende que a Confissão de Westminster atua como uma cerca de proteção para a ortodoxia. Ela obriga os ministros a se submeterem a um padrão doutrinário coletivo, protegendo o rebanho de interpretações particulares e subjetivas.

 

A defesa da confessionalidade se baseia em princípios hermenêuticos e teológicos:

 

1.Princípio Hermenêutico: A Confissão é o resultado de um esforço coletivo e histórico de interpretação da Bíblia. Ela não é a Bíblia, mas a melhor interpretação que a igreja, em um momento de profunda reflexão, conseguiu produzir.

 

2.Teologia Sistemática Reformada: A Confissão oferece um sistema de doutrina que é coerente e interligado. Ela protege a ortodoxia ao exigir que a pregação e o ensino sejam consistentes com a totalidade da revelação bíblica.

 

3.Teologia Prática: A confessionalidade protege a pregação expositiva (que deve ser fiel ao texto e à doutrina) e o discipulado (que deve ser baseado em um corpo de doutrina sólido).

 

A Confissão de Fé de Westminster, ao contrário do que Finney e Stone alegavam, não é um instrumento de opressão, mas um instrumento de liberdade e pureza doutrinária, garantindo que a igreja permaneça fiel ao evangelho de Cristo.

 

11. Impacto Pastoral e Recomendações

A ausência de confessionalidade tem um impacto direto e negativo na vida pastoral e na saúde eclesiológica.

 

Impacto Pastoral:

 

•Formação Ministerial: A ausência de um padrão confessional afeta o currículo dos seminários, que podem se tornar mais focados em habilidades práticas e menos em teologia sistemática e exegese. O resultado é um ministério com "fogo", mas sem "luz", incapaz de proteger o rebanho de erros doutrinários.

 

•Identidade Congregacional: Sem uma confissão clara, a igreja perde sua identidade e se torna suscetível a modismos teológicos. A fidelidade é transferida da doutrina histórica para a personalidade do pastor ou para a experiência do momento.

 

•Disciplina Eclesiástica: A disciplina se torna arbitrária ou impossível. Se não há um padrão doutrinário claro (a Confissão), não há base para julgar se um ensino ou prática é herético ou prejudicial.

 

Recomendações Práticas e Eclesiológicas:

Para recuperar e fortalecer a confessionalidade nas igrejas reformadas brasileiras, são necessárias ações em diversos níveis:

1.Educação Congregacional: Priorizar a catequese reformada (uso dos Catecismos de Westminster, catecismo de Heidelberg entre outro) para instruir os membros na doutrina de forma sistemática.

 

2.Confessionalidade na Ordenação: Exigir a subscrição plena à Confissão de Fé de Westminster e aos Catecismos por parte dos candidatos ao ministério e à liderança, garantindo que a liderança seja unida na doutrina.

 

3.Publicações e Bibliotecas: Incentivar a publicação e a leitura de literatura reformada clássica e contemporânea, incluindo as obras de Sproul, Murray, entre outros.

 

4.Conselhos Teológicos: Criar ou fortalecer conselhos e comissões teológicas que monitorem a pureza doutrinária e ofereçam orientação às igrejas.

 

O fortalecimento da confessionalidade é um ato de amor pastoral, pois protege o rebanho da instabilidade doutrinária e da tirania do subjetivismo.

 

12. Conclusão

O "funeral" da Confissão de Fé de Westminster, orquestrado por Barton Stone em 1804, foi mais do que um evento histórico isolado; foi um prenúncio de uma crise que se aprofundaria no protestantismo americano e, por extensão, no brasileiro. O desejo de unidade e simplicidade bíblica, embora nobre em sua intenção, levou à rejeição de um padrão doutrinário que servia como um baluarte contra o erro.

 

A tese de que o anticonfessionalismo contribuiu para a perda de identidade e a proliferação de subjetivismos teológicos foi confirmada pela análise das consequências do Restoration Movement e do revivalismo de Finney, e pela sua influência no pentecostalismo e neopentecostalismo brasileiro.

 

Reafirmamos a importância vital das confissões de fé. A Confissão de Westminster não é um "papa de papel", mas um presente histórico e teológico que, quando usado corretamente, serve como um guia fiel para a interpretação da Escritura e um protetor da ortodoxia.

 

A chamada pastoral e teológica para as igrejas reformadas brasileiras é a de retornar à fidelidade confessional. Isso exige não apenas a subscrição formal, mas a vivência e o ensino da Confissão em todos os níveis da vida eclesiástica. Somente assim a igreja poderá resistir às ondas de subjetivismo e pragmatismo que ameaçam sua identidade e sua missão.

Apêndices e Notas Editoriais

Apêndice A: Documentos-Chave (Tradução Curta)

O Último Testamento da Presbitéria de Springfield (1804) - Trechos Essenciais

Item. Nós queremos, que este corpo morra, seja dissolvido, e afunde em união com o Corpo de Cristo em geral; pois há apenas um corpo, e um Espírito, assim como somos chamados em uma só esperança de nossa vocação.

 

Item. Nós queremos que nosso nome de distinção, com seu título de Reverendo, seja esquecido, que haja apenas um Senhor sobre a herança de Deus, e que Seu nome seja um.

 

Item. Nós queremos, que nosso poder de fazer leis para o governo da igreja, e executá-las por autoridade delegada, cesse para sempre; que o povo possa ter livre curso para a Bíblia, e adotar a lei do Espírito de vida em Cristo Jesus.

 

Item. Nós queremos, que o povo de agora em diante tome a Bíblia como o único guia seguro para o céu; e todos aqueles que se ofenderem com outros livros, que competem com ela, podem jogá-los no fogo, se assim o desejarem; pois é melhor entrar na vida tendo um livro, do que ter muitos para ser lançado no inferno.

Apêndice B: Sugestões de Leitura Adicional

Documentos Primários Consultados

1.The Last Will and Testament of the Springfield Presbytery (1804).

2.Confissão de Fé de Westminster (Texto Completo).

3.Stone, Barton W. The Biography of Eld. Barton Warren Stone, Written by Himself. Cincinnati: J. A. & U. P. James, 11853.

4.Finney, Charles G. Lectures on Revivals of Religion. New York: Leavitt, Lord & Co., 1835.

5.Finney, Charles G. Systematic Theology. New York: George H. Doran Company, 1878.

Sugestões de Leitura em Português e Inglês (Acadêmicas e Teológicas)

1.Murray, John. Collected Writings of John Murray. Vol. 1: The Claims of Truth. Edinburgh: Banner of Truth, 1976. (Especialmente o ensaio The Importance and Relevance of the Westminster Confession).

2.Sproul, R. C. Truths We Confess: A Systematic Exposition of the Westminster Confession of Faith. Orlando: Reformation Trust Publishing, 2006.

3.Horton, Michael S. "The Legacy of Charles Finney." Modern Reformation, Jan/Feb 1995.

4.Araújo, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. (Para o contexto brasileiro).

5.Mendonça, Antonio G. O Protestantismo no Brasil: História e Impacto. São Paulo: Edições Loyola, 2000. (Para o contexto brasileiro).

6.Noll, Mark A. A História do Cristianismo na América: 1600-1776. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. (Para o contexto americano).

Notas Editoriais

Perguntas para Debate (3–5 perguntas)

1.O Sola Scriptura pode ser praticado de forma verdadeiramente não-confessional? Qual é o "credo não escrito" que inevitavelmente surge na ausência de um credo formal?

 

2.De que maneira o pragmatismo missionário, que prioriza o crescimento numérico, contribui para o enfraquecimento da identidade confessional nas igrejas brasileiras?

 

3.A crítica de Charles Finney à Confissão de Westminster como um "papa de papel" é justa? Qual é a diferença fundamental entre a autoridade da Bíblia e a autoridade de uma confissão?

 

4.Quais são os passos práticos que um pastor reformado no Brasil pode tomar hoje para fortalecer a confessionalidade de sua congregação e seminário?

Versão Reduzida (Executive Summary)

O artigo "O Funeral da Confissão de Fé de Westminster: A Revolta de Barton Stone e o Perigo do Anticonfessionalismo" analisa o impacto duradouro do movimento anticonfessionalista do século XIX, personificado pelo ato de Barton W. Stone e seus colegas ao publicarem o The Last Will and Testament of the Springfield Presbytery em 1804. A tese central é que a rejeição simbólica da Confissão de Fé de Westminster (CFW) e a ênfase no "somente a Bíblia" radical, ecoada por figuras como Charles Finney, pavimentaram o caminho para a fragilidade doutrinária e o subjetivismo teológico que se manifestam hoje no protestantismo brasileiro, especialmente em vertentes pentecostais e neopentecostais.

 

O Last Will and Testament foi um ato dramático de dissolução eclesiástica, onde a CFW foi ironicamente tratada como um "livro" que competia com a Bíblia, um obstáculo à unidade e à liberdade do Evangelho. Essa postura, embora motivada por um desejo de simplicidade, ignorou a função protetora e pedagógica da Confissão, que é um padrão subordinado à Escritura, servindo como uma cerca contra a heresia.

 

A convergência do restauracionismo de Stone e do revivalismo pragmático de Finney criou um paradigma onde a experiência subjetiva e a eficácia prática se sobrepuseram à fidelidade doutrinária. Essa cultura anticonfessional foi exportada para o Brasil por meio de missionários e literatura, encontrando um terreno fértil em um contexto que valorizava a emoção e o crescimento numérico. O resultado foi a proliferação de movimentos que, sem o freio de um padrão confessional, adotaram teologias como o decisionalismo e a teologia da prosperidade, que a CFW teria rejeitado.

 

Em defesa da confessionalidade, o artigo recorre a teólogos como John Murray e R. C. Sproul. Murray defende a CFW como a "mais perfeita e precisa formulação das verdades da Bíblia" já produzida, um instrumento de unidade e fidelidade. Sproul argumenta que a questão não é se teremos um credo, mas qual teremos, defendendo a CFW como uma proteção contra a heresia e a tirania do subjetivismo.

O artigo conclui que o fortalecimento da confessionalidade nas igrejas reformadas brasileiras é um ato de amor pastoral, exigindo a priorização da catequese reformada e a subscrição rigorosa dos padrões doutrinários na formação e ordenação ministerial. A Confissão de Westminster, longe de ser um "papa de papel", é um guia essencial para a pureza doutrinária e a saúde eclesiológica.

10 Pontos Práticos para Pastores

1.Priorize a Catequese: Implemente o ensino sistemático dos Catecismos Maior e Breve de Westminster para todas as idades, garantindo que a congregação conheça a doutrina.

 

2.Exija Subscrição Ministerial: Mantenha um padrão rigoroso de subscrição confessional para todos os oficiais da igreja (pastores e presbíteros), garantindo a unidade doutrinária na liderança.

 

3.Pregação Expositiva Confessional: Use a Confissão de Fé como um guia para a pregação expositiva, garantindo que a interpretação do texto bíblico seja consistente com o sistema de doutrina reformado.

 

4.Discipulado Doutrinário: Crie grupos de estudo focados em livros da Confissão e na história da igreja, combatendo o analfabetismo teológico.

 

5.Combata o Pragmatismo: Resista à tentação de adotar métodos de crescimento eclesiástico que comprometam a doutrina em favor do número.

 

6.Ensine a História da Igreja: Eduque a congregação sobre o contexto e a importância da CFW, mostrando que o anticonfessionalismo é uma repetição de erros passados.

 

7.Use a Confissão na Disciplina: Utilize a Confissão como padrão objetivo para a disciplina eclesiástica, garantindo que a correção seja baseada na verdade bíblica e não em opiniões pessoais.

 

8.Incentive a Leitura Reformada: Crie uma biblioteca de igreja com obras de autores como Calvino, Hodge, Murray e Sproul, promovendo a leitura teológica.

 

9.Promova a Unidade Confessional: Busque a cooperação com outras igrejas e denominações que compartilham o mesmo padrão confessional, fortalecendo a frente reformada.

 

10.Seja um Exemplo de Humildade: Ensine que a Confissão é um ato de humildade, onde a igreja se submete à sabedoria coletiva e histórica do Corpo de Cristo, e não um ato de arrogância.

 

Bibliografia (Chicago Author-Date)

Fontes Primárias

•Finney, Charles G. Lectures on Revivals of Religion. New York: Leavitt, Lord & Co., 1835.

•Finney, Charles G. Systematic Theology. New York: George H. Doran Company, 1878.

•Hodge, Charles. Systematic Theology. Vol. 1. New York: Charles Scribner & Co., 1872.

•Springfield Presbytery. The Last Will and Testament of the Springfield Presbytery. 1804. Acessado em 5 de novembro de 2025. [3]

•Stone, Barton W. The Biography of Eld. Barton Warren Stone, Written by Himself. Cincinnati: J. A. & U. P. James, 1853.

•Westminster Assembly. The Westminster Confession of Faith. 1647.

Fontes Secundárias

•Araújo, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

•Horton, Michael S. "The Legacy of Charles Finney." Modern Reformation, Jan/Feb 1995.

•Mendonça, Antonio G. O Protestantismo no Brasil: História e Impacto. São Paulo: Edições Loyola, 2000.

•Murray, John. Collected Writings of John Murray. Vol. 1: The Claims of Truth. Edinburgh: Banner of Truth, 1976. (Especialmente o ensaio The Importance and Relevance of the Westminster Confession). [1]

•Noll, Mark A. A História do Cristianismo na América: 1600-1776. São Paulo: Cultura Cristã, 2000.

•Sproul, R. C. Truths We Confess: A Systematic Exposition of the Westminster Confession of Faith. Orlando: Reformation Trust Publishing, 2006. [2]

 


Sobre o Autor

Pr. Kleiton Fonseca
Pesquisador no Instituto de Teologia John Wycliffe
São Bernardo do Campo – São Paulo, Brasil
📧 kleitonfonseca10@gmail.com

Comentários

Popular Posts

A Igreja Não É Propriedade do Pastor: Um Alerta Teológico e Legal Contra a Usurpação do Corpo de Cristo

As 95 Teses Contra o Evangelicalismo Moderno: Um Chamado à Reflexão

MULHER DE PASTOR NÃO É PASTORA: O PASTORADO FEMININO E A AGENDA IDEOLÓGICA FEMINISTA NAS IGREJAS EVANGÉLICA