Ameaçados por um demônio que não existe: Conheça o "devorador", um gafanhoto que virou demônio na mitologia evangélico-brasileira

 


 

Ameaçados por um Demônio que Não Existe: Uma Análise Exegética, Histórica e Teológica do "Devorador" em Malaquias 3:11

I. Introdução

O livro do profeta Malaquias, o último registro do Antigo Testamento, encerra uma série de questionamentos divinos à infidelidade do povo de Israel. No centro de uma das mais pungentes repreensões, encontra-se a questão da retenção dos dízimos e ofertas, culminando na famosa promessa: "Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós uma bênção tal, que dela vos advenha a maior abastança. E, por causa de vós, repreenderei o devorador, para que não vos consuma o fruto da terra; e a vide no campo não vos será estéril, diz o SENHOR dos Exércitos" (Malaquias 3:10-11, ênfase adicionada).
A leitura popular e, em grande parte, a teologia neopentecostal contemporânea, transformou a figura do "devorador" em um espírito maligno, um demônio financeiro que ataca as finanças dos crentes infiéis. Nessa perspectiva, o dízimo não é um ato de adoração e fidelidade à aliança, mas um seguro espiritual contra uma entidade demoníaca.
Este artigo se propõe a resgatar a leitura bíblica, histórica e teológica correta de Malaquias 3:11. Nosso objetivo é demonstrar, com base na exegese do texto hebraico, na tradição patrística e na teologia reformada, que o "devorador" refere-se a pragas agrícolas e calamidades naturais, sendo uma expressão da disciplina divina no contexto da aliança, e não um demônio. Veremos que a associação do "devorador" com um espírito maligno é uma interpretação recente, surgida no século XX, sem qualquer apoio na tradição cristã histórica.

II. Contexto Histórico e Exegético de Malaquias 3:11

Para compreender o "devorador", é imperativo analisar o contexto histórico e o significado do termo hebraico.

A. O Significado do Termo Hebraico: ’okel (אֹכֵל)

O termo hebraico traduzido como "devorador" em Malaquias 3:11 é אֹכֵל (’okel), um particípio ativo do verbo אָכַל (’akal), que significa "comer", "consumir", "devorar". O particípio, neste contexto, pode ser traduzido como "o que come" ou "o comedor/consumidor".
A análise do léxico demonstra que o termo ’okel e seu radical ’akal são consistentemente empregados nas Escrituras para descrever a ação de pragas, gafanhotos, doenças de plantas e a destruição de colheitas.
 
Termo 
Raiz
Significado Primário
 
Uso em Contexto de Pragas
 
אֹכֵל(’okel
אָכַל (’akal)
O que come, consumidor
Malaquias 3:11: Refere-se à destruição da colheita e da vide.
 
חָסִילchasil
Raiz de akal
 
 
 
 
O contexto imediato do versículo confirma essa leitura agrícola: "para que não vos consuma o fruto da terra; e a vide no campo não vos será estéril" (Mal. 3:11). O devorador, portanto, é a personificação da praga agrícola que destrói o fruto da terra e torna a videira estéril.

B. Paralelos Bíblicos: A Disciplina Agrícola de Deus

A ameaça de pragas e destruição das colheitas como punição pela desobediência à aliança é um tema recorrente na legislação mosaica e nos profetas.
1.Deuteronômio 28:38-42: O pacto mosaico lista a destruição agrícola como maldição por desobediência. "Lançarás muita semente ao campo, mas colherás pouco, porque a lagarta a devorará... Os teus pomares e as tuas vinhas serão possuídos, mas tu não lhes colherás o fruto, porque o verme os comerá." O ’okel de Malaquias está alinhado com essa linguagem de pragas.
2.Joel 1:4: O profeta Joel descreve a devastação causada por gafanhotos usando termos sinônimos para o que devora: "O que deixou o gafanhoto cortador, o comeu o gafanhoto migrador; o que deixou o gafanhoto migrador, o comeu o gafanhoto saltador; e o que deixou o gafanhoto saltador, o comeu o gafanhoto destruidor."
3.Amós 4:9: O Senhor afirma: "Feri-vos com a queimadura e a ferrugem; a multidão das vossas hortas, e das vossas vinhas, e das vossas figueiras, e das vossas oliveiras, comeu-a o gafanhoto."
O ponto crucial é que a Bíblia consistentemente atribui a causa dessas pragas e calamidades à ação soberana de Deus como um ato de disciplina e correção. Malaquias 3:11 não diz que Deus luta contra o devorador, mas que Ele o repreende (ga’ar - גָּעַר). Repreender, neste contexto, significa cessar a ação de algo que está sob Seu controle. Deus é o Senhor que envia a praga e o Senhor que a detém.

III. Linha Histórica da Interpretação: Do Gafanhoto ao Demônio

A tese de que o "devorador" é um demônio não encontra eco na história da interpretação bíblica. Pelo contrário, a tradição judaica, os Pais da Igreja e os Reformadores mantiveram uma leitura consistente e literal.

A. Tradição Judaica e Patrística (Séculos I–V d.C.)

A tradição judaica pós-exílica, como o Targum e o Midrash, interpretava o "devorador" como pragas e desastres naturais, sempre no contexto da aliança e da disciplina divina.
Os Pais da Igreja — como Orígenes, João Crisóstomo e Agostinho de Hipona — viam as calamidades e perdas como juízo ou correção, jamais como a ação de um demônio financeiro. O foco de suas exortações sobre o dízimo e a generosidade estava na liberalidade e na caridade, não no medo de uma entidade maligna.
João Crisóstomo (c. 347–407), ao comentar sobre a avareza e a caridade, frequentemente ligava as perdas financeiras à falta de generosidade e ao juízo divino, mas o devorador era entendido como a perda material resultante da disciplina de Deus, e não um demônio.
Agostinho de Hipona (354–430) enfatizava que a verdadeira motivação para a doação cristã deve ser o amor a Deus e ao próximo, e não o medo. A disciplina divina era vista como um ato pedagógico, como um pai que corrige o filho (Hebreus 12:5-11), e não como a permissão para um demônio agir.

B. A Reforma Protestante (Século XVI)

Os Reformadores, com seu princípio de Sola Scriptura, reforçaram a exegese literal e contextual de Malaquias.
João Calvino (1509–1564), em seus comentários sobre Malaquias, é cristalino. Ele interpreta o "devorador" como pragas e pestilências que destroem os frutos da terra. Para Calvino, o texto é uma promessa de Deus de que, em resposta à fidelidade do povo, Ele removerá as causas naturais de destruição que Ele mesmo havia enviado como punição. Não há menção a demônios.
"E, por causa de vós, repreenderei o devorador. Ele [Deus] promete que Ele restringirá a voracidade de vermes e gafanhotos, que costumam destruir os frutos da terra. Ele usa a palavra 'devorador' para incluir todos os tipos de vermes e pestilências que destroem as colheitas." (Calvino, Comentário sobre Malaquias 3:11, ênfase adicionada).
Martinho Lutero (1483–1546) compartilhava a mesma visão. Sua teologia enfatizava a soberania de Deus sobre todos os aspectos da vida, incluindo as calamidades. O dízimo, para Lutero, era uma questão de obediência civil e caridade, e não um meio de barganha com Deus para evitar o ataque de demônios.

C. O Surgimento da Personificação Demoníaca (Século XX)

A personificação do "devorador" como um demônio é um fenômeno teológico relativamente recente, surgido no contexto do Neopentecostalismo e da Teologia da Prosperidade do século XX.
Essa mudança interpretativa é motivada por uma leitura mística e alegórica do Antigo Testamento, onde as bênçãos e maldições materiais são transpostas diretamente para a esfera espiritual e financeira. O dízimo deixa de ser um ato de adoração e passa a ser uma ferramenta de "batalha espiritual" para "amarrar" o demônio devorador.
Essa teologia, ao atribuir a perda financeira a um demônio, desvia o foco da soberania de Deus e da responsabilidade humana, transformando a relação com Deus em uma transação mágica de causa e efeito.

IV. O Dízimo na Igreja Primitiva e nos Pais da Igreja

A Igreja Primitiva e os Pais da Igreja viam o sustento da igreja e a ajuda aos necessitados como uma questão de generosidade voluntária e comunhão, e não como uma obrigação legalista ou um mecanismo de proteção contra o "devorador".

A. A Prática da Liberalidade no Novo Testamento

O Novo Testamento enfatiza a liberalidade e a voluntariedade da doação cristã.
1.Atos 2:44-45: A igreja primitiva caracterizava-se pela comunhão e pela venda de propriedades para suprir as necessidades de todos. A ênfase é na solidariedade, não na porcentagem.
2.2 Coríntios 9:7: O apóstolo Paulo estabelece o princípio: "Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria." A doação é uma questão de coração e propósito, não de medo ou coerção.

B. A Ênfase Patrística: Gratidão e Caridade

Os Pais da Igreja, embora reconhecendo o dízimo em alguns contextos como uma prática louvável de caridade, rejeitavam a ideia de um percentual fixo obrigatório e, principalmente, a motivação baseada no medo.
Irineu de Lyon (c. 130–202) e Tertuliano (c. 155–240) ensinavam que os cristãos deveriam ser mais generosos do que os judeus sob a Lei, pois estavam sob a graça. A doação era vista como um sacrifício de louvor.
Agostinho e Crisóstomo viam o dízimo como um mínimo que deveria ser superado pela liberalidade cristã. O dízimo não era "proteção contra o devorador", mas uma expressão de gratidão pela provisão de Deus e solidariedade para com os pobres e o ministério.

V. Punições no Antigo Testamento como Disciplina Divina

A leitura que transforma o "devorador" em demônio falha em compreender a natureza da disciplina divina no Antigo Testamento.

A. Disciplina e Correção: Atos de Deus

As calamidades e punições no Antigo Testamento são apresentadas como atos diretos e soberanos de Deus para corrigir Seu povo.
1.Deuteronômio 8:5: "Assim como um homem disciplina a seu filho, assim o SENHOR, teu Deus, te disciplina." A disciplina é um ato de amor paternal.
2.Amós 4:6-11: Deus detalha as pragas e calamidades que enviou — fome, seca, gafanhotos, peste — e o faz com o propósito explícito de levar Israel ao arrependimento: "Contudo, não vos convertestes a mim, diz o SENHOR."
3.2 Samuel 24:15: Quando Davi peca ao recensear o povo, Deus envia uma praga. A praga é um instrumento de juízo divino, não demoníaco.
O teólogo reformado Louis Berkhof (1873–1957) e outros como Herman Bavinck (1854–1921) e R.C. Sproul (1939–2017) enfatizam a soberania de Deus sobre o mal e o sofrimento. A Bíblia raramente atribui pragas, perdas ou calamidades a demônios, mas consistentemente as coloca sob o controle e propósito de Deus.

B. Distinção Teológica: Punição vs. Disciplina

É crucial distinguir entre punição (juízo final e condenação) e disciplina (correção pedagógica). As perdas agrícolas em Malaquias são disciplina, um lembrete de que Deus é o Senhor da colheita. A teologia da prosperidade, ao demonizar o "devorador", transforma a disciplina de Deus em um ataque de Satanás, minando o conceito bíblico de um Deus que corrige Seus filhos.

VI. Aplicação Contemporânea e Crítica Pastoral

A leitura mística e demonizante do "devorador" traz sérios perigos pastorais e teológicos.

A. Distorção da Soberania Divina

Ao transformar o "devorador" em um demônio, a teologia da prosperidade distorce a visão bíblica de Deus. O Senhor de Malaquias é o Deus soberano que envia e retira a praga. A nova leitura sugere que Deus é incapaz de proteger Seus filhos a menos que eles realizem um ritual financeiro para "amarrar" o demônio. Isso enfraquece a confiança na suficiência da graça de Deus e na Sua soberania.

B. Manipulação e Medo

O maior perigo é a manipulação religiosa. O medo do "devorador" se torna uma ferramenta de coerção para garantir o fluxo de caixa da instituição religiosa. O crente é levado a dizimar por medo da perda, e não por amor e gratidão. Isso transforma a fé em superstição e o púlpito em um balcão de negócios.

C. O Verdadeiro Chamado de Malaquias

O chamado de Malaquias é, fundamentalmente, um chamado ao arrependimento e à fidelidade à aliança. O problema de Israel não era a falta de dinheiro, mas a infidelidade do coração. A promessa de repreender o devorador não é um passe de mágica contra um demônio, mas a garantia de que, ao voltarem-se para o Senhor, Ele restaurará a bênção material e espiritual que havia sido suspensa por Sua própria mão disciplinadora.

VII. Conclusão

O "devorador" de Malaquias 3:11 não é um demônio. A exegese do termo hebraico (’okel), o contexto agrícola do profeta e o testemunho unânime da tradição judaica, patrística e reformada apontam para uma realidade: o "devorador" é a figura das pragas agrícolas e calamidades que Deus, em Sua soberania, envia como disciplina sobre Seu povo infiel.
A leitura que o transforma em um demônio é uma invenção teológica moderna, desprovida de base bíblica e histórica, que serve primariamente para alimentar a teologia da prosperidade e a manipulação pelo medo.
Convidamos o leitor a rejeitar essa superstição moderna e a retornar à suficiência das Escrituras. A nossa motivação para a generosidade e a fidelidade deve ser a graça de Deus manifestada em Cristo, e não o medo de entidades malignas. O cristão fiel não dizima para evitar o devorador, mas para honrar o Deus soberano que governa tanto a praga quanto a colheita.
 

Referências

[1] Calvino, João. Comentário sobre Malaquias.
 [2] Berkhof, Louis. Teologia Sistemática
[3] Bavinck, Herman. Dogmática Reformada.
 [4] Sproul, R.C. A Santidade de Deus
[5] Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS). 
[6] Theological Dictionary of the Old Testament (TDOT). 
[7] Comentários dos Pais da Igreja sobre os Profetas Menores.


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