Unção Pastoral e Ordenação Pastoral: Um Estudo Bíblico e Reformado sobre o Chamado e a Autoridade Ministerial

 


Unção Pastoral e Ordenação Pastoral: Um Estudo Bíblico e Reformado sobre o Chamado e a Autoridade Ministerial

Por Pr. Kleiton Fonseca

Introdução – A Necessidade de Clareza no Ministério

Em muitos contextos evangélicos contemporâneos, os conceitos de "unção" e "ordenação pastoral" são frequentemente confundidos ou usados de forma intercambiável, gerando equívocos significativos sobre a natureza do chamado ministerial e a fonte da autoridade espiritual. Essa falta de clareza pode levar a práticas eclesiásticas desvirtuadas e a uma compreensão distorcida do papel do pastor na igreja. O propósito deste artigo é, portanto, distinguir biblicamente e teologicamente esses dois conceitos cruciais, "unção" e "ordenação pastoral", aprofundando o tema segundo os moldes bíblicos e da teologia reformada.
A confusão entre unção e ordenação é particularmente perigosa porque pode desviar a atenção da verdadeira origem da autoridade espiritual. Muitos associam a "unção" a ritos cerimoniais ou a manifestações carismáticas que, embora possam ter seu lugar, não são a base da autoridade ministerial legítima. É fundamental compreender que a autoridade espiritual genuína emana da Palavra de Deus e do chamado legítimo, que é reconhecido e confirmado pela igreja, e não de um mero rito cerimonial desprovido de fundamento bíblico e eclesiástico. Este estudo buscará reafirmar a perspectiva reformada, que valoriza a Escritura como a autoridade final e a igreja como o corpo que discerne e valida o chamado divino para o ministério pastoral.

1. A Unção no Antigo Testamento: Significado e Limites

No Antigo Testamento, a prática da unção com óleo era um símbolo potente de consagração e separação para um propósito divino. Era um rito que marcava indivíduos ou objetos como sagrados e dedicados ao serviço de Deus. Diversas figuras importantes em Israel foram ungidas, destacando-se:

Sacerdotes: A unção era essencial para a consagração dos sacerdotes ao seu ofício, simbolizando sua separação para o serviço no tabernáculo e, posteriormente, no templo (Êxodo 28:41; 40:13-15). O óleo simbolizava a presença e a capacitação do Espírito Santo, habilitando-os para suas funções mediadoras entre Deus e o povo.

Reis: Monarcas como Saul e Davi foram ungidos por profetas para o cargo real, um ato que significava a escolha divina e a concessão de autoridade para governar o povo de Deus (1 Samuel 10:1; 16:13). A unção real era um sinal visível do favor e da capacitação de Deus sobre o rei.

Profetas: Embora menos comum, há instâncias em que profetas também foram ungidos, como Elias sendo instruído a ungir Eliseu como seu sucessor (1 Reis 19:16). Isso indicava a designação divina para a proclamação da Palavra de Deus.

Em todos esses casos, o óleo era um símbolo externo de uma realidade espiritual interna: a presença e a capacitação do Espírito Santo para o cumprimento de uma tarefa específica. No entanto, é crucial observar os limites dessa prática no contexto do Antigo Testamento. O ofício pastoral, como o conhecemos no Novo Testamento, ainda não existia. A unção com óleo, portanto, não era um rito de ordenação para líderes da igreja no sentido neotestamentário. Sua aplicação era restrita a contextos específicos de consagração para sacerdócio, realeza e profecia.

Ainda que o simbolismo da unção continue sendo instrutivo para a igreja hoje, ele não é normativo para a ordenação pastoral. A verdadeira "unção" para o ministério no Novo Testamento e na teologia reformada vem diretamente do Espírito Santo, capacitando o indivíduo para o serviço, e não de um rito material com óleo. O Antigo Testamento nos ensina sobre a soberania de Deus em separar e capacitar seus servos, mas a forma e o significado dessa capacitação evoluem com a revelação progressiva em Cristo.

2. A Unção e a Ordenação no Novo Testamento: Continuidade e Mudança

Com a vinda de Jesus Cristo, a figura da unção atinge seu cumprimento supremo. Cristo é o "Ungido" por excelência, o Messias (do hebraico Mashiach, que significa "ungido") que cumpre as funções de Profeta, Sacerdote e Rei. Lucas 4:18 registra Jesus aplicando a si mesmo a profecia de Isaías 61:1, afirmando: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos". Atos 10:38 também testifica que "Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder". A unção de Cristo não foi com óleo material, mas com o próprio Espírito Santo, concedendo-lhe autoridade e poder para sua missão redentora.

No que diz respeito à liderança pastoral no Novo Testamento, o modelo estabelecido para a instituição de ministros não envolve a unção com óleo, mas sim a imposição de mãos e oração. Este rito simbolizava a separação para o serviço, a transmissão de autoridade e a invocação da bênção e capacitação do Espírito Santo. Exemplos claros incluem:

A escolha e consagração dos sete diáconos em Atos 6:6: "Apresentaram-nos perante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos."

A separação de Barnabé e Saulo para a obra missionária em Atos 13:3: "Então, jejuando e orando, lhes impuseram as mãos e os despediram."

As instruções de Paulo a Timóteo sobre o ministério: "Não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério" (1 Timóteo 4:14); e "Por esta razão, pois, te admoesto que reavives o dom de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos" (2 Timóteo 1:6).

A admoestação para não impor as mãos precipitadamente (1 Timóteo 5:22), indicando a seriedade e o discernimento necessários nesse ato.

É importante notar que a unção com óleo aparece no Novo Testamento em contextos de cura e consolo, como em Tiago 5:14: "Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor." Aqui, o óleo é um símbolo da presença de Deus e da oração de fé para a restauração, e não um rito de ordenação ou consagração ministerial.

Na teologia reformada, a capacitação do ministro para o seu ofício provém do Espírito Santo, que age por meio da Palavra de Deus. A ênfase não está em um ritual externo que confere poder ex opere operato (pelo ato realizado), mas na obra soberana do Espírito na vida do chamado e na proclamação fiel das Escrituras. Distingue-se claramente a oração de consagração, que é uma prática apostólica de reconhecimento e invocação da bênção divina sobre o ministro, do rito de unção com óleo, que não possui prescrição neotestamentária para o ofício pastoral. A unção verdadeira é a do Espírito, que capacita e guia o servo de Deus, e a ordenação é o reconhecimento eclesiástico desse chamado e capacitação.

3. A Ordenação na Tradição Reformada: Teologia e Prática

Na tradição reformada, a ordenação é compreendida como o ato solene pelo qual a igreja, discernindo o chamado divino, reconhece publicamente e institui um indivíduo no ofício público de ensino e governo. Não é um sacramento que confere graça ex opere operato, mas um rito eclesiástico que valida e formaliza o chamado que Deus já fez. João Calvino, em suas Institutas da Religião Cristã (Livro IV, Capítulo 3), enfatiza a necessidade do chamado divino e do reconhecimento eclesiástico. Ele argumenta que o chamado para o ministério deve ser "pelo Senhor e pela igreja", e considera "insano" quem assume o ministério sem essa dupla validação [1]. Para Calvino, a legitimidade do ministério depende de uma vocação interna (o chamado de Deus) e de uma vocação externa (o reconhecimento da igreja).

O processo reformado de ordenação, historicamente e em muitas denominações hoje, geralmente envolve as seguintes etapas:

Formação e Exame Teológico: O candidato demonstra preparo intelectual e teológico adequado, passando por rigorosos exames que atestam sua compreensão das Escrituras e da doutrina reformada.

Aprovação da Igreja ou Presbitério: Após o exame, o candidato é aprovado pelo corpo governante da igreja (como o presbitério em igrejas presbiterianas ou a congregação em algumas igrejas congregacionais), que discerne a autenticidade do chamado e a aptidão do indivíduo para o ministério.

Imposição de Mãos e Oração Pública: Em um culto solene, o candidato é ordenado por meio da imposição de mãos por ministros já ordenados e por oração, invocando a bênção e a capacitação do Espírito Santo para o serviço. Este ato é uma continuação da prática neotestamentária de separação para o ministério.

Reconhecimento da Congregação: A comunidade de fé, a quem o ministro servirá, também reconhece e acolhe o novo pastor, comprometendo-se a orar por ele e a cooperar em seu ministério.

É crucial ressaltar que a ordenação, na perspectiva reformada, não confere um "poder mágico" ou uma graça sacramental que transforma o indivíduo em um ser superior. Em vez disso, é um reconhecimento visível do chamado divino e um compromisso público com o serviço fiel à Palavra de Deus e ao rebanho. A autoridade do ministro não reside em si mesmo, mas na Palavra que ele prega e no ofício que lhe foi confiado pela igreja em obediência a Cristo.

A "unção do Espírito", que acompanha o ministro e o capacita para pregar, ensinar e pastorear, não depende de um rito material ou de uma cerimônia de unção com óleo. Ela é a obra contínua do Espírito Santo na vida do crente chamado para o ministério, concedendo-lhe dons e habilidades para cumprir sua vocação. A ordenação, portanto, é a formalização eclesiástica desse chamado e dessa capacitação espiritual já presentes, garantindo que o ministério seja exercido de forma ordenada, responsável e em conformidade com os padrões bíblicos e confessionais da igreja.

Referências:

[1] Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Livro IV, Capítulo 3.

4. Comparativo: Unção com Óleo x Ordenação Pastoral

Para solidificar a compreensão dos conceitos, é fundamental estabelecer um comparativo claro entre a Unção com Óleo e a Ordenação Pastoral, destacando suas bases bíblicas, natureza, efeitos e ênfase na teologia reformada. A tabela a seguir sintetiza as principais distinções:
Aspecto
Unção com Óleo
Ordenação Pastoral
Base Bíblica

AT – consagração simbólica (Êx 28:41; 1Sm 10:1; 1Sm 16:13); NT – cura (Tg 5:14)
NT – imposição de mãos (At 6:6; 13:3; 1Tm 4:14; 2Tm 1:6)

Natureza

Símbolo da presença e capacitação do Espírito

Reconhecimento público do chamado divino e instituição no ofício

Efeito

Espiritual e simbólico; manifestação da presença de Deus em cura ou consagração


Institucional e eclesiástico; validação do ministério e responsabilidade perante a igreja
Aplicação

Não normativa para o ofício pastoral no NT

Normativa para o ministério ordenado na igreja

Ênfase Reformada

O Espírito unge o crente interiormente para o serviço geral

A Igreja reconhece, examina e ordena externamente para o ofício público

Esta distinção é vital porque a tradição reformada, fundamentada no princípio do Sola Scriptura, rejeitou veementemente ritos e práticas sem respaldo bíblico claro. A autoridade pastoral, portanto, não depende de um ato ritualístico de unção com óleo, mas da fidelidade à Palavra de Deus e ao chamado divino, discernido e confirmado pela igreja. A valorização excessiva de uma "unção" subjetiva, desvinculada do reconhecimento eclesiástico e da sã doutrina, pode levar a um perigoso subjetivismo e ao autonomismo ministerial, onde indivíduos se declaram "ungidos" sem qualquer prestação de contas ou validação da comunidade de fé. A igreja reformada insiste que o ministério é um chamado público e eclesiástico, não uma iniciativa individual e isolada [2].

Referências:

[2] Berkhof, Louis. Teologia Sistemática. Seção sobre "Ofícios na Igreja".

5. Implicações Práticas para a Igreja Contemporânea

A clareza na distinção entre unção e ordenação pastoral tem implicações práticas profundas para a igreja contemporânea, impactando tanto os candidatos ao ministério quanto as próprias comunidades de fé. Compreender esses conceitos biblicamente e reformadamente é essencial para a saúde e a integridade do ministério.

Para os candidatos ao ministério, esta compreensão orienta a busca por uma vocação autêntica e um preparo adequado. Eles devem:

Buscar Preparo e Formação: O chamado divino não dispensa a necessidade de estudo teológico sério e aprofundado. A capacitação espiritual é acompanhada pelo desenvolvimento intelectual e prático.

Confirmar a Vocação: A vocação não é apenas um sentimento subjetivo, mas algo que deve ser discernido e confirmado por líderes espirituais maduros e pela igreja, através de um processo de avaliação.

Buscar Ordenação Legítima: Submeter-se ao processo de ordenação eclesiástica é um ato de humildade e obediência, reconhecendo a autoridade da igreja e a importância da prestação de contas. Como R.C. Sproul frequentemente enfatizava, a autoridade na igreja está ligada à fidelidade à Palavra de Deus e à ordem estabelecida por Ele [3].

Para as igrejas, a distinção é crucial para evitar desvios e promover um ministério saudável. As igrejas devem:

Não Confundir Emoção com Reconhecimento Eclesiástico: Manifestações emocionais ou profecias, por mais genuínas que sejam, não substituem o processo formal de discernimento e ordenação que a igreja deve realizar. O reconhecimento de um chamado ministerial exige mais do que experiências subjetivas.

Valorizar a Ordenação como Entrega ao Serviço: A ordenação não deve ser vista como uma promoção ou um status hierárquico, mas como uma solene entrega ao serviço abnegado, à vigilância espiritual sobre o rebanho e à pregação fiel da Palavra de Deus.

É imperativo que a igreja evite dois extremos perigosos que surgem da confusão entre unção e ordenação:

1.Ritualismo Mágico da Unção com Óleo: A crença de que a aplicação de óleo confere poder ou autoridade espiritual de forma automática, desconsiderando a obra soberana do Espírito e o chamado divino. Isso pode levar a uma superstição e a uma desvalorização da verdadeira capacitação espiritual.

2.Autonomismo sem Ordenação e Supervisão: A ideia de que um indivíduo pode exercer o ministério pastoral com base apenas em uma "unção" pessoal ou um sentimento subjetivo, sem o reconhecimento, a supervisão e a prestação de contas à igreja. Isso abre portas para o engano, a heresia e o abuso de poder.

A verdadeira unção, na perspectiva reformada, manifesta-se não em rituais externos, mas na fidelidade à Palavra de Deus, na pregação expositiva que edifica a igreja, no amor genuíno ao rebanho e em uma vida piedosa que reflete o caráter de Cristo. É por meio dessas marcas que o Espírito Santo capacita e autentica o ministério, para a glória de Deus e o bem de seu povo.

Referências:

[3] Sproul, R.C. A Santidade de Deus e O Que é Teologia Reformada? (Referências gerais à sua ênfase na autoridade bíblica e na ordem eclesiástica).

6. Conclusão – O Chamado e a Autoridade que Vêm de Deus

Ao longo deste estudo, buscamos delinear a distinção crucial entre "unção pastoral" e "ordenação pastoral" sob uma ótica bíblica e reformada. Reafirmamos que a "unção" é primariamente espiritual e interior, fruto da obra soberana do Espírito Santo na vida do crente, capacitando-o para o serviço a Deus e ao próximo. Ela não é um rito material com óleo, mas uma realidade interna que se manifesta na fidelidade à Palavra, na vida piedosa e no serviço abnegado.

Por outro lado, a ordenação pastoral é o reconhecimento público e eclesiástico do chamado divino, em conformidade com as Escrituras e a ordem estabelecida na igreja. É o ato pelo qual a comunidade de fé, após discernimento e exame, separa um indivíduo para o ofício público de ministro da Palavra e dos Sacramentos, conferindo-lhe a autoridade para ensinar, governar e pastorear o rebanho de Cristo.
Na visão reformada, esses dois conceitos, embora distintos, unem-se harmoniosamente para a glória de Deus e a edificação da igreja, conforme a síntese:

"O Espírito unge; a Igreja reconhece; e Cristo é glorificado."

Convidamos, portanto, o leitor a discernir o verdadeiro ministério: aquele que nasce do chamado divino, é confirmado pela igreja através da ordenação legítima e serve humildemente sob a autoridade inerrante da Palavra de Deus. Que a igreja contemporânea persevere na busca por clareza teológica e fidelidade bíblica, a fim de que o ministério pastoral seja sempre um reflexo da glória de Cristo e um instrumento eficaz em Suas mãos.

Referências Bibliográficas

Bíblia Sagrada: Êxodo 28:41; 1 Samuel 10:1; 1 Samuel 16:13; Lucas 4:18; Atos 6:6; Atos 10:38; Atos 13:3; 1 Timóteo 4:14; 1 Timóteo 5:22; 2 Timóteo 1:6; Tiago 5:14.
Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Livro IV, Capítulo 3. São Paulo: Editora Cultura Cristã.
Sproul, R.C.. A Santidade de Deus. São José dos Campos: Fiel.
Sproul, R.C.. O Que é Teologia Reformada? São José dos Campos: Fiel.
Bavinck, Herman. Dogmática Reformada. Vol. 4 – “Ofícios e Igreja”. São Paulo: Cultura Cristã.
Berkhof, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã.
Hamilton, Ian. The Reformed Pastor. Ligonier Ministries.

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